03
Dez 17

Como se escreve no Facebook

E nas escolas

 

      No exame de História, um aluno dissertou sabiamente sobre o «Tratado de Traduzilhas»; no Facebook, Pedro Marques Lopes escreveu que, no Observador, «a opinião faz parte de um projeto para mudar o centro-direita português e é apenas planfetária». Não soa nada mal, convenhamos: se precisarem de uma palavra para designar uma realidade nova (um lepidóptero que descubram, por exemplo), não se acanhem.

 

[Texto 8429]

Helder Guégués às 12:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Cães de assistência

Estariam no sítio certo

 

      «A APCA certifica e treina cães que conduzem e auxiliam pessoas com deficiência, sejam eles “cães-guia” (que auxiliam pessoas com deficiência visual), “cães para surdos” (ajudam pessoas com deficiência auditiva), ou “cães de serviço” (auxiliam pessoas com deficiência mental, orgânica, motora ou sensorial). A associação orgulha-se de ser a única entidade certificadora de cães de assistência na área dos medical dogs. Embora os cães-guia para cegos sejam treinados formalmente há mais de 70 anos, só em 2007 foram feitas alterações na lei que permitiram o aparecimento de um termo mais abrangente, o “cão de assistência”» («Estado vai dar apoios para cães de assistência? “É a melhor notícia no ano”», Ana Cristina Henriques, TSF, 3.12.2017, 10h54).

      Alguns termos vão, mais tarde ou mais cedo, parar aos dicionários. Cão-guia, por exemplo, está quase exaustivamente definido, e bem, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8428]

Helder Guégués às 11:58 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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03
Dez 17

Como se escreve por aí

O caso Sócrates

 

      A edição digital do jornal Sol fez a pré-publicação de um excerto do 2.º capítulo do livro Caso Sócrates – O Julgamento do Regime, de Felícia Cabrita e Joaquim Vieira (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2017). Vejamos umas quantas frases.

      «[Sócrates] Percorre, imperturbável, toda a manga. No fim, está um grupo de homens parados em pé — dois da AT, três da Alfândega e os agentes da PSP —, que, com o olhar, perscrutam os passageiros. Fixam-se no indivíduo do dólmen escuro escuro e não têm dúvidas.» Até a minha filha sabe o que é um dólmen: se Sócrates fosse um dos Flintstones, talvez pudesse vestir-se dessa maneira. Vejam bem como se escreve a palavra que designa o casaco curto semelhante ao usado pelos oficiais do exército. Mais tarde, quando acompanha os agentes à sua casa, perguntam-lhe onde está o computador: «O dono da casa reencontrara-se com a sua anatomia, recuperara do golpe assestado ao seu orgulho no dia anterior e garantia que o levara para a capital francesa. Não perde a oportunidade e humoriza: “Se quiser falar com o juiz para irmos a Paris, com todo o gosto.”» Reencontrar-se com a sua anatomia devia reservar-se para a descrição do que sente um amputado a quem põem uma prótese ou aquele a quem extraem um tumor com vários quilos. Quanto a humorizar, para um brasileiro, deve ser normal, mas algum leitor português se exprime assim? Como está em pré-venda, talvez ainda possa ser revisto.

 

[Texto 8427]

Helder Guégués às 10:16 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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02
Dez 17

Como se escreve por aí

Até amanhã

 

      «Duas valas comuns, com 140 cadáveres de civis, alegadamente mortos pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI), foram descobertas na comarca de Sinyar, no noroeste do Iraque, revelaram este sábado as forças iraquianas» («Iraque. Descobertas duas valas comuns com mais de 100 corpos», Rádio Renascença, 30.11.2017, 19h23).

      Mas são mesmo jornalistas que escrevem isto? Hum... Agora os seguranças são polivalentes, põem os caixotes do lixo à porta, ajudam a dominar uma pessoa mais violenta, preenchem papelada, não terá algum escrito esta notícia? Bem, o problema é propriamente de tradução. Claro, e de domínio do português. Desde quando é que, numa notícia assim, se usa o termo «comarca»? E em todo o lado leio que a cidade se chama Sinjar ou Shingal. Mais à frente, que não cito no excerto, já se fala, não em valas comuns, mas em fossas. É como calha, afinal, a maioria das pessoas já está na cama a esta hora.

 

[Texto 8426] 

Helder Guégués às 22:10 | comentar | favorito
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Léxico: «Antropoceno/Antropocénico»

Pensemos

 

      «A expressão “Antropoceno” é atribuída ao químico e prémio Nobel Paul Crutzen, que a propôs durante uma conferência em 2000, ao mesmo tempo que anunciou o fim do Holoceno — a época geológica em que os seres humanos se encontram há cerca de 12 mil anos, segundo a União Internacional das Ciências Geológicas (UICG), a entidade que define as unidades de tempo geológicas» («E se formos os últimos seres vivos a alterar a Terra? Antropoceno», Raquel Dias da Silva, Público, 2.12.2017, p. 28).

      Peguemos primeiro em Holoceno, se não se importam. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de Holoceno remete-se para Holocénico, e há quem afirme que esta forma é mais correcta. Em Plistocénico, porém, já remete para Plistoceno, por onde se prova que estas remissões não obedecem a nenhuma lógica. Estamos, agora, em condições de tratar do termo Antropoceno, o que se resolve com uma pergunta. Porque não regista aquele dicionário a variante Antropocénico?

 

[Texto 8425] 

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Dez 17

Tradução: «escapologist»

Como Houdini

 

      «Foi Eduardo Marçal Grilo, ex-ministro da Educação e actual administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, que esta semana fez uma comparação digna de registo. Numa entrevista à revista Visão, Marçal Grilo disse que o primeiro-ministro, António Costa, “parece o Grande Houdini” (um dos mais famosos escapologistas e ilusionistas da história, como explica a Wikipédia)» («A comparação. Houdini», Público, 2.12.2017, p. 11).

      Escapologista se acrescentarmos um a ao inglês escapologist. Então, dessa forma, não nos faltaria nenhuma. Não é propriamente esse o caminho recomendado. Pois, mas como se diz em português? Aceitam-se sugestões. E vejo que a podemos encontrar no Dicionário de Alemão-Português da Porto Editora. No verbete Entfesselungskünstler, Entfesselungskünstlerin, lá está: «ilusionista, escapologista».

 

[Texto 8424]

Helder Guégués às 20:24 | comentar | ver comentários (5) | favorito
01
Dez 17
01
Dez 17

«Pela mão de/à mão»

Como são semelhantes...

 

      «José Pedro era comendador à mão de Jorge Sampaio», disse ontem Ana Lourenço no programa 360º, na RTP3. Confusão com expressões semelhantes: a jornalista queria dizer pela mão de, ou seja, por intervenção de; por iniciativa de. Já à mão significa ao alcance, ao dispor. Nem sequer a expressão correcta seria a minha escolha, como também não foi a de Mário Lopes no Público de hoje, que escreveu que os elementos dos Xutos & Pontapés foram tornados comendadores, «cortesia do então Presidente da República Jorge Sampaio, em 2004».

 

[Texto 8423]

Helder Guégués às 17:49 | comentar | favorito
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