28
Dez 17

Léxico: «avisino»

Um marido paciente

 

     A senhora *** começou a ler Isabel de Borgonha: Ínclita Geração, de Isabel Stilwell. «Oh, sim, membro relevante da primeira geração avisina», perorou o marido. «Sempre o mesmo! Falo-te do livro que comecei a ler e tu falas-me da vizinha, meu alarve?!» Pois é verdade, avisino usa-se e os dicionários ignoram-no completamente. Vá-se lá perceber.

 

[Texto 8524]

Helder Guégués às 20:51 | comentar | favorito
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Léxico: «herniorrafia»

Parecem coisas diferentes

 

      «A operação que Marcelo vai realizar chama-se herniorrafia e corresponde ao encerramento da zona de fraqueza da parede muscular» («Marcelo fica internado mais dois dias após “cirurgia de urgência”», Rádio Renascença, 28.12.2017, 16h35).

      Eu pensava que o Presidente da República ia ser submetido a uma operação cirúrgica, não que a fosse realizar. Na Infopédia, temos duas definições. No Dicionário da Língua Portuguesa, é coisa simples: «correcção de uma hérnia». Nem uma palavra de que se trata de uma cirurgia. No Dicionário de Termos Médicos, está irreconhecível, e não propriamente exemplar: «Sutura radical de uma hérnia após ressecção do seu saco e consolidação da parede da cavidade através da qual se faz a hérnia.» Podia e devia ser simplificado — ou é só para médicos?

 

[Texto 8523]

Helder Guégués às 20:32 | comentar | favorito
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«Hérnia estrangulada/encarcerada»

Quem sabe?

 

      «“Esta operação estava há muito prevista para o início de Janeiro, mas os médicos assistentes decidiram antecipá-la, por ter encarcerado” (ou estrangulado, em termos médicos), lê-se num comunicado colocado no “site” da Presidência da República» («Presidente da República internado para ser operado a uma hérnia», Rádio Renascença, 28.12.2017, 13h42).

      Animado pelo espírito de Natal, o jornalista quis facilitar a vida ao leitor. Fez bem ou fez mal? Vejamos: se o jornalista afirma que em medicina se diz «estrangulado», já está a acrescentar um dado técnico menos relevante para o caso. Meritório era se a situação fosse a inversa, ou seja, a Presidência da República usar um termo técnico que o jornalista quissesse ver compreendido por todos. E agora o mais importante: serão mesmo sinónimos? Na definição do Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora, ocorre estrangulação herniária «quando o órgão contido em uma hérnia é apertado pelo anel herniário, o que pode conduzir à necrose desse órgão». Já estrangulado, para o mesmo dicionário, diz-se do «que se encontra encravado ou fixado, como um cálculo, ou estrangulado como uma hérnia». Parece o mesmo, ou algo muito próximo. Vejamos agora o que diz a Sociedade Brasileira de Hérnia e Parede Abdominal: «O maior perigo da hérnia surge quando há a conjunção de dois fatores: grande volume do órgão deslocado – aumentando o conteúdo no saco herniário – e anel herniário estreito, o que dificulta o vai-e-vem do órgão. Esta situação faz com que o conteúdo herniário fique preso (encarcerado) no saco herniário e sujeito a provocar o estrangulamento herniário, que implica na torção das alças intestinais. A torção pode provocar obstrução intestinal, que tem como sintomas as cólicas abdominais e a dificuldade para eliminar gases e fezes.» Não parece o mesmo, antes um resultado do outro.

 

[Texto 8522]

Helder Guégués às 18:42 | comentar | favorito
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Léxico: «libero-»

Segunda em pouco tempo

 

      «Milhares de liberianos foram ontem às urnas votar no que deverá ser mais um marco no país: a primeira transição pacífica democrática, da presidente Ellen Johnson Sirleaf para o vencedor, e a segunda vez na história do país que o dirigente máximo não pertencerá à chamada “elite libero-americana”, descendente de escravos libertados» («Será desta que George Weah realiza o sonho de ser Presidente?», Maria João Guimarães, Público, 27.12.2017, p. 26).

      É a segunda vez, em pouco tempo, que aqui vemos um adjectivo pátrio reduzido. Os dicionários não se interessam pela questão, o que explica tantos erros nisto.

 

[Texto 8521]

Helder Guégués às 18:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «biossimilar»

Antecipemo-nos

 

      «O próximo ano, acrescenta [Paulo Lilaia, presidente da Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares], vai ser um ano de lançamento de muitos genéricos e também de biossimilares (uma espécie de genéricos dos medicamentos biológicos que são administrados nos hospitais)» («Fim de patente de fármaco para colesterol representa poupança superior a 20 milhões», Alexandra Campos, Público, 27.12.2017, p. 21).

      Esperemos que, nessa altura, os dicionários gerais já registem o vocábulo biossimilar, porque vai dar jeito.

 

[Texto 8520]

Helder Guégués às 18:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Dez 17

Léxico: «geoarqueológico»

Como vão saber?

 

      «Tal como o nome indica, a missão do projecto geo-arqueológico Margens Áridas do Norte da Síria é perceber como os primeiros humanos ocuparam o Norte da Síria e como aproveitaram o seu ambiente geográfico» («Descoberta rede militar com quatro mil anos no Norte da Síria», Teresa Serafim, Público, 27.12.2017, p. 29).

      Bem pode a Direcção-Geral do Património Cultural afirmar que a «Geoarqueologia é a disciplina que se dedica ao estudo dos processos de formação e de alteração do registo arqueológico utilizando conhecimentos, metodologias e ferramentas das Ciências da Terra», os dicionários não querem saber, não registam geoarqueologia nem geoarqueológico.

 

[Texto 8519]

Helder Guégués às 16:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
27
Dez 17

Comida de rua

E se fosse em português?

 

      «“Mas eles não vendem pneus?” Foi assim que a “chef” Jay Fai, que tem um pequeno restaurante de comida de rua na capital da Tailândia, reagiu ao saber que tinha sido distinguida com uma estrela Michelin» («“Mas eles não vendem pneus?” A história da “chef” tailandesa que ganhou uma estrela Michelin», Rádio Renascença, 27.12.2017, 1h06).

      E pensar que temos a Associação de Street Food Portugal... Devem pensar que comida de rua assenta melhor na tia Fai, que até pensava que a Michelin só se dedicava aos pneus. Pois é, mas ela é que ganhou uma estrela. Até o Bibendum há-de estar a rir-se.

 

[Texto 8518]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
27
Dez 17

Léxico: «roupão»

Entretanto, lá longe

 

      «“Roupões” são contentores de depósito roupa e calçado sem préstimo. A iniciativa da câmara da Maia cumpre objetivos ambientais e sociais: reciclar e angariar verbas para instituições de solidariedade» («“Roupões” da Maia já recolheram 7 mil euros para instituições do concelho», TSF, 27.12.2017, 8h35).

      Depois do electrão, do embalão, do livrão, do oleão, do papelão, do pilhão, do vidrão, o roupão. Entretanto, vi ontem no programa Eixo Norte Sul, na RTP1, que a Câmara Municipal de Moura, farta de ver arder contentores por causa de cinzas ainda com brasas, decidiu construir recipientes próprios que está a distribuir pela cidade. Podíamos pensar que o nome escolhido fosse «cinzão», mas não, foi cinzeiro. E muito bem, diga-se, até porque não é necessário nenhum alargamento de sentido, cinzeiro também é o lugar onde cai ou se junta cinza.

 

[Texto 8517]

Helder Guégués às 10:55 | comentar | favorito
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26
Dez 17
26
Dez 17

Inventar nomes para os filhos

Ora esta

 

      O prestimoso Correio da Manhã já veio revelar o nome das gémeas de Luciana Abreu, nascidas no passado sábado: Lamour e Lavie. O cidadão comum tem por vezes dificuldade em dar nomes comuns aos filhos. Eu próprio passei pela experiência na conservatória da Fontes Pereira de Melo. Em relação ao nome das filhas que teve com Djaló, Lyannii Viiktórya e Lyonce Viiktórya, a justificação absurda que li foi a de que, como o pai era estrangeiro, as filhas podiam ter estes nomes. Nomes inventados pelos pais? Agora ambos os pais são portugueses (esperemos que ser guia turístico não sirva desta vez de justificação). Dantes, cheguei a dar conta disso aqui, havia, ao que me lembro, duas listas de nomes próprios: uma de nomes admitidos e outra de nomes não admitidos. (Claro que basta uma: a primeira.) Desconheço a periodicidade com que era actualizada, mas imagino que fosse quando o rei fazia anos. Agora, há uma só lista, actualizada, ao que li, de três em três meses. Só para terem uma ideia, o primeiro nome feminino que nela consta é Aabirah e o primeiro nome masculino é Aabaj. Como os nomes estão todos misturados, desde Txissolas a Vanessas, o cidadão fica com a ideia de que pode atribuir qualquer destes nomes aos filhos. Não é assim. Surpresa: na lista não constam Lamour nem Lavie. Em suma, para o Estado, uns são filhos e outros enteados. C’est la vie (não Lavie). Há momentos, e este é um deles, em que me envergonho de ser português.

 

[Texto 8516]

Helder Guégués às 20:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito