05
Jan 18

Léxico: «subsuperfície»

Aqui falhou

 

      «Noemie Freire já leva dez anos de Marinha e o crachá com uma âncora de prata, comprovativo de mais de oito mil horas de oceano, mostra que esta especialista em operações com radares e sonares escolheu frequentar o curso de submarinos não apenas como uma nova experiência. “Procurava um desafio pessoal e profissional também, já conheço os navios de superfície e tive bastante interesse em conhecer os navios de subsuperfície (submarinos)”, explica. [...] “O mar; não o conseguimos ver, estamos por debaixo dele. As rotinas são iguais às das fragatas. Funciona por sistema de ‘bordadas’, ou seja, seis horas de descanso e seis horas de trabalho; em que as seis horas de descanso nunca chegam a ser seis horas porque é preciso fazer as limpezas, alimentar-se e fazer a higiene pessoal”, revela» («Marinha tem uma mulher a tirar o curso de submarinos», José Milheiro, TSF, 5.01.2018, 18h25).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista subsuperfície, o que não deixa de surpreender, pois acolhe o adjectivo «subsuperficial». Estão ambos no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Como também não acolhe esta acepção de «bordada».

 

[Texto 8550]

Helder Guégués às 22:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Direito premial»

Já lá está

 

      É impressão minha ou o chamado Pacto da Justiça não vai passar de retórica? Hoje, a propósito da Cimeira da Justiça, em Tróia, ouvi falar várias vezes em direito premial (de inspiração brasileira?), mas mais conhecido na figura da delação premiada. Ora, fui ver e já está, e se calhar entrou hoje, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Conjunto de recursos legais, usados sobretudo no combate à corrupção e à criminalidade económica, que visam promover e premiar a colaboração com a justiça de arguidos que confessem os seus crimes e/ou ajudem a provar os de outros suspeitos, em troca da atenuação da pena a aplicar».

 

[Texto 8549]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Como se escreve por aí

Esta miséria

 

      E este título da Renascença? «Papa por uma educação que não coloque alunos “uns contra os outros”» (Aura Miguel, 14h20). E o corpo da notícia ainda estava pior há minutos, mas avisaram-nos e corrigiram-na. Punham o Papa Francisco a dizer coisas destrambelhadas. Bem, lá deram a mão à palmatória. Não sei que ânsia é esta de publicarem textos ainda em rascunho. Seja como for, vejam a miséria do título.

 

[Texto 8548]

Helder Guégués às 15:56 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Léxico: «sensação térmica»

Está na hora

 

      «No estado de Nova Iorque – onde os termómetros vão chegar a -4 durante o dia de hoje, com sensação térmica de -13 devido aos ventos gelados – foi decretado o estado de emergência» («Nova Iorque decreta estado de emergência», Destak, 5.01.2018, p. 7).

     Já aqui tinha dado conta desta expressão, agora cada vez mais encontradiça — excepto nos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista a locução sensação cromática.

 

[Texto 8547]

Helder Guégués às 15:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «bell-ringer»

Acham que sim?

 

      «Depois de muitos casos de noivos que esperam muito tempo, e com muita paciência, pela noiva e farto de também ter de o fazer, o padre inglês John Corbyn está a dar 112 euros a cada noiva que não se atrase a chegar ao casamento. [...] Segundo o padre, os atrasos das noivas afectam a vida de várias pessoas, incluindo as que fazem parte do coro, o organista, os párocos e os tocadores de sinos. Ainda por cima, queixa-se John Corbyn, na maior parte das vezes as noivas nem pedem desculpa pelo atraso» («Padre britânico paga 100 euros a noivas que cheguem a horas», Rádio Renascença, 4.01.2018, 11h38).

     Não se está sempre a dizer que tempo é dinheiro? Então, aí está. Ia dizer que só demonstra que a Igreja Anglicana é rica, mas não é bem assim. O padre Corbyn, da Holy Cross Church de Bearsted, Kent, tem razão. Mas... «tocadores de sinos», Rádio Renascença? «Bell-ringers, vergers, choristers and the organist», lê-se no Daily Mail. Não dizemos sineiro, por acaso? E verger é «pároco»? É melhor perguntarem a Filipe d’Avillez.

 

[Texto 8546]

Helder Guégués às 13:02 | comentar | favorito
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Léxico: «espartão»

Portuguesa

 

      «E é desse tempo que Paula recorda da história que lhe contavam sobre o “mistério” do seu nascimento. “As minhas irmãs diziam-me que o meu pai me tinha trazido num espartão”, conta, a rir. E é dessa época, também, que guarda boas recordações: “Era um tempo de muita pobreza, mas éramos felizes, havia muita gente, na escola éramos cento e tal e hoje há poucas crianças e está tudo a fechar”» («Minas de São Domingos. Um passado com futuro?», Rosário Silva, Rádio Renascença, 4.01.2018, 17h30).

      Espartão. Já ninguém sabe, hoje em dia, o que é. Era o nome que se dava, no Alentejo e no Algarve, ao tecido de esparto que se encostava aos fueiros, para amparar, de lado, a carga das carroças. Há quem lhe dê étimo castelhano, mas não me parece; nada mais natural que, sendo feito de esparto, viesse a ter este nome. Aliás, nem sei se em castelhano existe a palavra *espartón. Existe, isso sim, esportón, que é um capacho que se usava nas vindimas. Semelhante em tudo, isso sim.

 

[Texto 8545]

Helder Guégués às 12:01 | comentar | favorito
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05
Jan 18

Léxico: «ciclone bomba»

Bem explicado

 

      «São consequências de uma tempestade rigorosa que está a varrer os Estados Unidos e as previsões do estado do tempo são para que piore. Os meteorologistas prevêem que a tempestade venha a transformar-se num “ciclone bomba”, nome dado ao fenómeno meteorológico quando a pressão atmosférica desce muito num espaço de tempo muito curto, conferindo à tempestade uma força explosiva» («EUA. Vaga de frio faz 16 mortos e situação vai piorar com “bomba ciclone”», Rádio Renascença, 4.01.2018, 7h35). Na Visão ainda o explicam melhor: «Mas esta quinta-feira tudo piorou graças a um “ciclone bomba” ou ciclogénese explosiva, o termo usado para classificar o fenómeno que se caracteriza por um decréscimo muito acentuado da pressão atmosférica num curto intervalo de tempo, pelo menos 24 milibares em 24 horas. Quanto menor a pressão maior a tempestade, o que lhe dá uma força “explosiva” capaz de derrubar árvores e de provocar danos nas estruturas. Esta tempestade provoca muito frio, neve, gelo, inundações e ventos ciclónicos» («O que é o “ciclone bomba” que está a gelar (ainda mais) os Estados Unidos», Visão, 4.01.2018, 16h53). Aproveite-se o ensejo para chamar a atenção para isto: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista (aqui) ciclogénese como um brasileirismo. Ora esta...

 

[Texto 8544]

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito