11
Jan 18

Léxico: «anfião»

Levou descaminho

 

      «No âmago do Alentejo, onde chega a água de Alqueva, o que já cresce é a papoila branca. Em 2011, a empresa farmacêutica escocesa Macfarlan Smith deu inicio [sic] aos primeiros testes. Mais tarde, uma multinacional australiana – TPI Entreprises – foi também autorizada a produzir este tipo de papoila. Um caso de sucesso de introdução de uma nova cultura, mas que não atingiu maior dimensão porque não foi instalada qualquer unidade industrial» («Alqueva tem boas condições para o cultivo de canábis», Rosário Silva, Rádio Renascença, 11.01.2018, 17h12).

      Nem uma palavrinha sobre tratar-se da papoila de que se extrai o ópio, não se ponha a caminho do Alentejo uma excursão de meliantes em demanda das plantações. Papoila branca e papoila vermelha não estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só no Dicionário de Termos Médicos as encontramos. E a propósito, porque é que os dicionários, e nomeadamente os da Porto Editora, deram sumiço ao verbete de um sinónimo de «ópio», anfião? É que ainda algum incauto vai parar ao mitológico Anfião/Anfíon. Ele há gente para tudo. E onde encontramos «anfião»? Ora, aqui e ali. Nos Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, de Garcia de Orta, por exemplo. Registem-no, por favor. E, já que é Dia Internacional do Obrigado, obrigado.

 

[Texto 8567]

Helder Guégués às 18:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «seba/sebarrinha»

Nas pradarias há ervas

 

      «Além do desaparecimento das pradarias marinhas (o habitat da espécie), o barulho e a ancoragem das embarcações na Ria Formosa, talvez a maior causa da destruição da espécie seja a pesca furtiva» («Ria Formosa ainda é a maior maternidade de cavalos-marinhos do mundo?», Maria Augusta Casaca, TSF, 11.01.2018, 11h45).

      Estas pradarias marinhas não deviam estar contempladas no verbete de «pradaria»? Provavelmente, sim. Agora reparem numa falha bem maior: como nas outras pradarias, nestas encontram-se ervas que, no caso de Portugal, são a Zostera marina, a Cymodocea nodosa e a Zostera noltii. O nome comum das duas primeiras é sebas, da última é sebarrinha. Comecemos por esta: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e outros, evidentemente, não a conhecem, o que é mau. Regista, porém, seba: «conjunto de algas marinhas lançadas à praia pelo mar e que são aproveitadas para adubo». Aqui há confusão: não apenas não é um conjunto, como não se trata de algas; por isso é que são pradarias, estão a ver?

 

[Texto 8566]

Helder Guégués às 15:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «almofada financeira»

Seria útil

 

      «A designada ‘almofada financeira’ corresponde ao montante que os governos incluem nos orçamentos de cada ano para cobrir eventuais despesas excecionais não previstas e é composta pela dotação orçamental e pela reserva orçamental» («Governo gastou cerca de um terço da almofada financeira até novembro», TSF, 10.01.2018, 19h39).

      Não são só os governos: cada cidadão também deve ter a sua almofada financeira (financial cushion, para a legião de anglófonos que nos segue), expressão que já devia estar dicionarizada. Almofada, descanso, conforto... Também falta nos dicionários a expressão carta de conforto (comfort letter, para a tal legião).

 

[Texto 8565]

Helder Guégués às 09:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «autocultivo»

Também vamos fingir?

 

      Outra presente no dia-a-dia e ausente dos dicionários: «O Parlamento debate esta quinta-feira dois projectos de lei que permitem a utilização de canábis para fins medicinais, um do Bloco de Esquerda e outro do partido Pessoas Animais e Natureza (PAN), e de que faz parte também a autorização de autocultivo daquela planta mediante receita médica» («Uso de canábis para fins medicinais com aprovação “difícil”», Susana Madureira Martins, Rádio Renascença, 10.01.2018, 21h45).

 

[Texto 8564]

Helder Guégués às 09:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Jan 18

Léxico: «fura-filas»

Vamos fingir que não existe?

 

      «Os fura-filas podem estar certos» (Motor 24, 10.01.2018, 20h18). Podem? É o mais racional, e em certos países, como na Bélgica (é o «principe de la tirette obligatoire» — e tirette, neste sentido, falta no Dicionário de Francês-Português da Porto Editora), faz mesmo parte das regras do código da estrada. Cá, é motivo de disputas e multas. Mas avancemos: fura-filas. Há anos e anos que oiço e leio este vocábulo, e, contudo, os dicionários ignoram-no. Não pode ser.

 

[Texto 8563]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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