16
Jan 18

Léxico: «emergente»

Não vem à superfície

 

      Hoje ouvi um médico, na Antena 1, a propósito do surto da gripe, falar de casos urgentes e de casos emergentes. Parece-me que é a primeira vez que deparo com a palavra com este sentido. Não creiam que é a segunda acepção («que surge ou advém inesperadamente») do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nada. É uma acepção médica, enfim, de uso na comunidade médica: relativo a emergência ou que tem carácter de emergência. Dicionários fora dos dicionários.

 

[Texto 8590]

Helder Guégués às 22:51 | comentar | ver comentários (4) | favorito

«Cheché» ou «xexé»

O mundo não quer saber

 

      A magna questão do Jogo da Língua Portuguesa de hoje era sobre ortografia: «cheché» ou «xexé»? Estava o País à espera da solução, e ela veio: «A resposta correcta é a alínea b). A palavra “xexé” escreve-se com x. Esta palavra é de origem onomatopeica.» O ouvinte, claramente afastado da escrita e da leitura, propendia de início para a primeira, mas, depois, acabou por mudar de ideias. Justamente por ser de origem onomatopeica, seria mais ou menos indiferente escrever-se assim ou assado — e, de facto, sabia a «nossa especialista em língua portuguesa» que há dicionários que registam ambas as variantes e, sobretudo, que antes se escrevia apenas com ch, sabia? Escolha melhores exemplos, caramba. Que imaginação tão débil.

 

[Texto 8589]

Helder Guégués às 22:24 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Silva Escura

Coisas da selva

 

      «Um homem de 69 anos matou a mulher de 66 anos e tentou cometer suicídio, esta terça-feira de manhã, na residência do casal, em Silva Escura, Sever do Vouga, disse à Lusa fonte da GNR» («Idoso matou a mulher e tentou cometer suicídio», Rádio Renascença, 16.01.2018, 14h05).

      Interessante este topónimo, Silva Escura. Saberão os nossos leitores que «silva», etimologicamente, significa «selva»? Sabiam? Cuidado com o nariz. Sim, há registos de que esta localidade já tinha este nome numa época anterior ao século X, sendo já habitada nessa altura, e era então coberta, precisamente, por cerrada selva — a silva do nome. E há mais Silvas no País.

 

[Texto 8588]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «casquilho de baioneta»

Oh, Sr. George Lane-Fox

 

    A Intelligent Home Series da Hama começou agora a ser comercializada e inclui três colunas de som, duas gamas de lâmpadas LED RGB e uma tomada inteligente, tudo accionável por meio da assistente digital Alexa. Ora, uma das lâmpadas é para embutir no tecto e tem casquilho de baioneta GU10. O Sr. George Lane-Fox ia ficar muito triste se soubesse que os dicionários portugueses não registam esta acepção de baioneta. Vendo bem, talvez a excepção seja o Dicionário Aulete, que regista este sentido: «Dispositivo de fixação de objetiva em máquina fotográfica.» Creio que se refere, embora nebulosamente, ao mesmo tipo de união. E, claro, depois temos os dicionários de outras línguas. O dicionário da Real Academia Espanhola regista a locução a bayoneta: «Dicho de ciertos tipos de uniones mecánicas y de los objetos que las llevan: Que se montan introduciendo una pieza en otra a través de una muesca.»

 

[Texto 8587]

Helder Guégués às 17:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «mecanicidade»

Por sorte

 

      Por sorte, o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora não acolhe o termo mechanicalness. E porquê por sorte, perguntam? Pois porque o mais provável seria o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registar o correspondente termo português, que é... Sim, que é qual? Bem, se o primeiro daqueles dicionários regista technicalness e o termo português é tecnicidade, imagino que fosse mecanicidade. Ora, acabo de ler um texto em que se diz que «a vocação é ousar ir além da mecanicidade de respirar e obedecer a um conjunto de regras que a sociedade e as nossas relações pessoais, de algum modo, nos impõem». A língua, a realidade, está sempre à frente dos dicionários.

 

[Texto 8586]

Helder Guégués às 14:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Jan 18

A nor-nordeste de Arraiolos

Jornalismo desnorteado

 

      «Um primeiro comunicado informava que “pelas 11h51 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 4.9 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 8 km a Norte-Nordeste de Arraiolos”» («Sismo de 4,9 gera pânico em Évora. “Nunca senti uma coisa como esta”», Rosário Silva, Rádio Renascença, 15.01.2018, 11h59).

      Foi mesmo isto que se podia ler no comunicado do Instituto Português do Mar e Atmosfera? Bem, talvez seja verdade. Seja como for, as redacções deviam curar-se do psitacismo de que sofrem há anos e deixar de se limitar a copiarem o que diz a Lusa. Qualquer jornalista tem de saber que a única pontuação que se pode empregar na numeração é a vírgula, para separar a parte inteira da parte decimal. Logo, 4,9. Por outro lado, os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais grafam-se com minúscula inicial. Logo, norte-nordeste. Por último, nos pontos subcolaterais, o habitual é reduzir o primeiro termo. Logo, nor-nordeste. Só não aprendem se não quiserem.

 

[Texto 8585]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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