27
Jan 18

Regência: «consistir em»

Não me lembro

 

      «A GNR deteve na sexta-feira, em Vouzela, um homem de 51 anos por posse ilegal de 43 armas, entre as quais seis armas de fogo de vários calibres, informou este sábado o Comando Territorial de Viseu. [...] Segundo a GNR, nas buscas realizadas, foram encontradas 43 armas: seis armas de fogo de vários calibres, 34 armas brancas, duas mocas de metal e uma soqueira» («Vouzela. GNR detém homem com 43 armas ilegais», Rádio Renascença, 27.01.2018, 16h57).

      Foi há três anos que sugeri a inclusão do termo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não me lembro de ter aprovado a definição: «arma que consiste de uma peça de metal com quatro orifícios circulares onde se encaixam cada um dos dedos, à excepção do polegar, como anéis». Acho que muita gente que escreve confunde regências: constar de, sim, mas consistir em.

 

[Texto 8628]

Helder Guégués às 20:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Léxico: «cabo»

Nem queremos acreditar

 

      «“Ser cabo (homem que dirige o grupo de forcados) é desempenhar a função 24 horas por dia, durante o ano todo. Nós temos de ser cabos dentro e fora de praça, pois há miúdos que têm problemas em casa e nós temos de os acompanhar em tudo”, explica à agência Lusa o cabo dos amadores de Arronches, Manuel Cardoso» («Eles pegam o touro pelos cornos. ​Medo e adrenalina dominam “família” dos forcados», Rádio Renascença, 27.01.2018, 14h10).

      Para o verbete de cabo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora sem o acordo ortográfico é melhor não olhar, houve ali qualquer desastre, mas veja-se no dicionário com o acordo ortográfico: falta (!) esta acepção. Só acepções militares. Sim, também falta noutros dicionários. Diacho.

 

[Texto 8627]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Como se fala na CMTV

A arder

 

      Pouco passava das 15h00, a CMTV noticiava um incêndio num apartamento em Porto Salvo. Uma vítima, afirma o repórter, «por ingerir monóxido de carbono». Uns minutos depois, a colega em estúdio assegura-nos que o «númaro» de vítimas do incêndio de Tondela aumentou para dez.

 

[Texto 8626]

Helder Guégués às 16:49 | comentar | favorito
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Léxico: «verde-pinheiro»

Vamos ver se é assim

 

      «Nesta demanda pelo interior, o primeiro-ministro resolveu ir a condizer com mancha florestal, envergando um elegante blazer verde e uma gravata da mesma cor. Mas o primeiro-ministro levou o pendant ao extremo e calçou também umas peúgas verde-pinheiro. Senhor primeiro-ministro, há limites para a audácia da moda jovem...» («Foto da semana», Público, 27.01.2018, p. 11).

      Não faltam cores, tons e matizes, e muitos estão, porque mais usados, dicionarizados. Este também o pode estar, como sucede nos dicionários de outras línguas. E agora quanto aos factos: serão mesmo verde-pinheiro as peúgas do primeiro-ministro? Como estava no pinhal de Leiria a plantar uma árvore, é engraçado pensar que sim. Não faltam aplicações para o saber. Instalei a Inspector, para iOS, e, na impossibilidade de chegar às peúgas, nem que subornasse a lavadeira, aproximei o telemóvel da fotografia do jornal. O resultado é entre olive (#5C6A4B) e light olive (#919E72). Desviando um nadinha a câmara, também se obtém dijon (#C8DD85). Verde-azeitona, verde-azeitona-claro e verde-mostarda. Nada de pinheiro.

 

[Texto 8625]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | favorito
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Vestais e vegetais

Boa amostra

 

      «O discurso era inflamado e digno de um qualquer orador na pólis grega, mas por entre os presentes havia menos versados nos pensamentos da antiguidade clássica. Vai daí, durante alguns minutos houve uma confusão generalizada em todos os textos da comunicação social que chamavam “vegetais” ao que na verdade eram “vestais”. Sérgio Sousa Pinto intervinha nas jornadas parlamentares do PS, criticando os projectos do próprio partido sobre transparência dos políticos e alertava para o risco de no futuro haver “uma classe sacerdotal, de vestais, não no sentido biológico, mas da antiguidade clássica”. Os títulos dispararam, as piadas surgiram e só uma hora depois o equívoco foi desfeito» («A palavra: vestais», Público, 27.01.2018, p. 11).

      Desfeito, mas não inteira nem definitivamente: na Internet ainda há resquícios dessa enormidade, equiparável ao «bramindo o estandarte» de Pedro Lomba. É uma boa amostra da preparação de muitos dos nossos jornalistas. Já que aqui estamos, aproveite-se e diga-se ao que relata esta triste história que a designação do período histórico compreendido entre os alvores dos tempos históricos e a queda do Império Romano do Ocidente se grafa com maiúsculas, Antiguidade Clássica.

 

[Texto 8624]

Helder Guégués às 14:34 | comentar | favorito
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27
Jan 18

Léxico: «axolote»

Ciência sem palavras?

 

      «Há uma espécie de salamandra que, se perder os membros do corpo, os consegue regenerar. Chama-se axolote e faz este trabalho na perfeição: os ossos, os músculos e os nervos voltam a crescer no sítio certo. Há mais: a planária é um verme que, se for cortado aos pedacinhos, também é capaz de se reconstruir. Portanto, estes animais são uma ajuda no estudo da regeneração de tecidos. Mas como o fazem? Para perceber isso, descodificou-se todo o genoma destas espécies, que vem descrito esta semana em dois artigos científicos na revista Nature. [...] O axolote (Ambystoma mexicanum) distingue-se bem das outras salamandras: tem três pares de brânquias externas nos dois lados da cabeça que parecem plumas. Tem a pele escura, mas também há indivíduos albinos. Só é aquático e alimenta-se de algas, vegetação e de invertebrados aquáticos. [...] Afinal, o axolote já anda no mundo dos laboratórios desde 1864» («O que podemos aprender com os superpoderes de regeneração de uma salamandra e uma planária?», Teresa Serafim, Público, 27.01.2018, p. 26).

      Vá lá, planária está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora a definição pudesse ser substancialmente melhorada. Axolote (cs) é que, apesar de andar no mundo dos laboratórios desde 1864, não coube — mas está no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Deus, quando fez o Brasil, se o castigou com Jair Bolsonaro e outras criaturas, também lhe deu mais bites e bytes, e por isso pode ter dicionários muito mais completos do que os nossos.

 

[Texto 8623]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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