29
Jan 18

Uma rixa a sério

Imprecisões jornalísticas

 

      Todo o santo dia a falarem na rádio da «rixa» e do «tiroteio» na escola da Nazaré. Alguns também gostam de acrescentar que o agressor «foi controlado e detido por elementos da Escola Segura»... Tiroteio, rixa... Enfim, a habitual falta de propriedade no uso dos vocábulos. Não há uma definição legal de rixa, aliás, parece que poucos códigos penais europeus dão essa definição. Essa é tarefa para a doutrina. Nos dicionários, a coisa não está melhor. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos quase nada, limita-se a lançar-nos para os braços alguns sinónimos: «disputa; contenda; briga; desordem; desavença; discórdia». O Aulete, do outro lado do Atlântico, é mais esclarecedor, até indica a definição legal. Para abreviar (que o jantar arrefece), saiba-se que alguns autores exigem a participação de três pessoas para se poder falar de rixa. Mas que seja, como a maioria afirma, duas, um elemento é essencial: na rixa não é possível determinar, individualizar o comportamento de cada uma delas.

 

[Texto 8638]

Helder Guégués às 20:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito

E «subsuperfície»?

A Marinha espera

 

      Ensinaram a neta a dizer que o pai era comandante. Era a profissão do pai. Pois, é comandante, mas isso não é profissão nem posto, é cargo. Ah, esperem, não era esta história que eu queria contar. Queria interpelar directamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: porque é que te obstinas em não registar o substantivo subsuperfície, quando acolhes o adjectivo subsuperficial, podes dizer-me?

 

[Texto 8637]

Helder Guégués às 19:49 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Léxico: «videoárbitro/videoarbitragem»

Mais trabalho

 

      Há minutos, ouvi na Antena 1 que Fulano será o videoárbitro de certo jogo. E agora numa notícia de 6 de Novembro do ano passado: «A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) anunciou, esta segunda-feira, que Artur Soares Dias vai ser vídeo-árbitro [sic] no Mundial de Clubes» («Soares Dias vai ser vídeo-árbitro [sic] no Mundial de Clubes», Rádio Renascença, 19h09).

      Pois é, mas, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, videoárbitro é apenas o «sistema de monitorização que permite que, no decurso de uma partida, um árbitro tenha acesso a imagens vídeo com base nas quais pode tomar ou rever determinadas decisões». Como se vê, dá-se a mesma designação à pessoa, ao árbitro que opera com esse sistema. Ah, e no Grande Guégués da Língua Portuguesa também está videoarbitragem, que falta no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 8636]

Helder Guégués às 15:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «kosher/kasher»

Troquem-na

 

      «A comunidade de Lisboa é pequena, mas está a crescer ao mesmo ritmo do interesse de estrangeiros em visitar ou viver na capital portuguesa. Neste momento não existem infra-estruturas ou serviços para poder servir uma população judaica significativa, mas isso poderá mudar, espera o rabino Natan [Peres, o novo rabino da comunidade judaica de Lisboa], que reconhece que nesta altura um judeu observante tem dificuldade em ir jantar fora sequer pela falta de restaurantes “kasher”, palavra usada pelos sefarditas para designar a comida preparada de acordo com os preceitos religiosos, sinónimo de “kosher”, usado mais pelos judeus asquenazes» («O homem que quer revolucionar a comunidade judaica em Lisboa», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 29.01.2018, 7h00).

      Significativo é que os nossos dicionários, também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apenas registem kosher. É isso mesmo: quem não sabe, é como quem não vê.

 

[Texto 8635]

Helder Guégués às 12:57 | comentar | favorito
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Agora também para cães

Muito a tempo

 

      «A acção será preventiva, diz a polícia, “com enfoque na sensibilização, mas que não deixará de incidir na fiscalização das normas legais em vigor, nomeadamente a utilização de trela/peitoral ou açaimo na via pública, o registo dos animais de companhia e a vacinação obrigatória” em dia» («Do Rottweiler ao caniche. PSP vai ver se o seu animal está dentro da lei», Rádio Renascença, 29.01.2018, 7h43).

      Fiz então muito bem, a 8 de Agosto do ano transacto, ao lembrar aos lexicógrafos que peitoral já não era apenas o arreio que cinge o peito do cavalo. Pouco depois, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolheu a acepção. Agora, vejo-o cada vez com mais frequência.

 

[Texto 8634]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | favorito
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«Aerossolar», disse ela

Jamais aerossolizarei

 

      Este caso da legionela na CUF Descobertas está a proporcionar-nos matéria para reflexão linguística. Hoje de manhã, a directora-geral da Saúde dizia na rádio que aquele hospital não «aerossolava», corrigindo ou explicando logo de seguida que não «fazia aerossóis». Pode ter sido lapso, mas o mais provável é que os médicos usem esse verbo. Ora, os nossos dicionários apenas registam aerossolizar. De qualquer maneira, diga-se que é verbo transitivo.

 

[Texto 8633]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | favorito
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29
Jan 18

«Diagnosticar», um verbo doente

Curem-se, emendem-se

 

      Diagnosticar pessoas? Aqui está uma boa questão, vinda da caixa de comentários do texto anterior, suscitada pelo leitor J. C. No noticiário das 8h00 na Antena 1, disse o jornalista Nuno Rodrigues, mas é erro quotidiano: «As quatro mulheres diagnosticadas com a doença continuam internadas em situação estável e com prognóstico positivo.» Ora, basta consultar um dicionário para concluir que as doenças é que são diagnosticadas, não as pessoas. Senhores profissionais da área da saúde, senhores jornalistas, vamos lá exprimir-nos correctamente.

 

[Texto 8632]

Helder Guégués às 09:26 | comentar | favorito
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