30
Jan 18

Léxico: «prancha»

Então falta mesmo

 

      O que o treinador pessoal lhe disse foi que a prancha é um exercício isométrico, isto é, não requer movimentos. Estão a ver o que é? É o exercício de força que usa o próprio corpo e consiste em ficar o máximo tempo possível na horizontal, apoiado apenas na ponta dos pés e das mãos ou antebraços, como para fazer flexões. Não é prancha o nome deste exercício? Então, é acepção desconhecida do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em inglês, para a legião de anglófonos que nos segue, é plank, que, segundo o Merriam-Webster, é «an exercise in which a prone person balances on the toes and forearms while holding the rest of the body up and off the ground».

 

[Texto 8646]

Helder Guégués às 23:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «hidrosadenite»

Mais do que uma glândula

 

      Ontem, no Bom Dia[,] Portugal, a cirurgiã plástica Ana Silva Guerra explicou o que é hidrosadenite supurativa. É uma doença crónica, extremamente debilitante, que afecta os folículos pilosos e as glândulas sudoríparas, em especial nas virilhas, períneo, região perianal e nádegas. E há cada vez mais portugueses que padecem de hidrosadenite supurativa. O termo hidrosadenite está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que remete para hidradenite: «inflamação de uma glândula sudorípara». Podem achar que não é necessário ou oportuno redigir outra definição, mas pelo menos têm de passar para o plural. Mas a margem para melhorar a definição é bem ampla.

 

[Texto 8645]

Helder Guégués às 22:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «agro-sistema»

Outra ausência

 

      «A dependência destas aves necrófagas das actividades começou com a revolução neolítica (há cerca de dez mil anos) e a progressiva substituição das manadas de herbívoros selvagens pelos rebanhos de ungulados e outras espécies domésticas. Assim, na península Ibérica, os abutres foram adaptando a sua alimentação aos agro-sistemas extensivos» («Por que razão os abutres de Espanha não vêm para Portugal?», Teresa Serafim, Público, 30.01.2018, p. 26).

      Usa-se e não é pouco. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignoro-o. Paulo Cesar Fulgencio, no seu Glossário Vade Mecum, define-o desta maneira: «Sistema ecológico natural, adaptado ao campo, utilizado para produção agrícola ou pecuária, segundo diferentes tipos e níveis de manejo, sem afetar o equilíbrio geológico, atmosférico e biológico» (Rio de Janeiro: Mauad, 2007, p. 38).

 

[Texto 8644]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «abutre-preto»

Vontade real

 

      «No céu português voam três espécies de abutres: o britango (Neophron percnopterus), a espécie mais pequena; o grifo (Gyps fulvus), a espécie mais comum; e o abutre-preto (Aegypius monachus), a maior e a mais ameaçada. Se estas espécies que voam em Portugal também estão agora mais perto da fronteira com Espanha, no início do século XIX a sua distribuição era mais alargada no país. O britango já nidificou nas serras da Arrábida e de Sintra, o grifo fazia-o desde o vale do Guadiana até às serras do Centro e do Norte do país, e o abutre-preto estendia-se do Sul até à serra da Estrela. Até o rei D. Carlos I os ilustrou para o seu Catalogo Illustrado das Aves em Portugal, publicado em dois volumes em 1903 e 1907. Desenhou as três espécies e referiu como eram comuns em muitos pontos de Portugal» («Por que razão os abutres de Espanha não vêm para Portugal?», Teresa Serafim, Público, 30.01.2018, p. 26).

   Entretanto, sobejaram oportunidades ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de ser agradável ao rei e registar o termo abutre-preto, mas ainda não o fez. Grifo e britango (que, a propósito da etimologia, vimos aqui) já acolhe.

 

[Texto 8643]

Helder Guégués às 22:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «Superlua»

Destaques meus

 

      «O último dia do mês vai ser marcado por uma rara coincidência de sobreposição de eventos lunares: uma Superlua, uma Lua Azul e uma Lua de Sangue.

      Superlua é o nome que se dá às luas cheias que ocorrem quando o ponto da órbita está mais próximo da Terra. Estas luas podem surgir 30% mais brilhantes e 14% maiores do que o habitual, segundo a NASA.

      A Lua Azul é a lua cheia, que será a segunda do mês (a primeira foi no dia 1 de Janeiro).

     Além destes dois fenómenos, ocorre um eclipse lunar, que durante algum tempo confere uma cor avermelhada à lua, resultando o nome Lua de Sangue» («Olhos no céu: vem aí uma lua Azul de Sangue», Rádio Renascença, 30.01.2018, 10h35).

      Também me parece que devem ser grafados com maiúscula inicial. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, optou por grafar superlua, que define assim: «fenómeno que se verifica quando a lua cheia se situa num intervalo de distância entre os 90% e os 100% da distância mínima à Terra». Não é exactamente o que diz o Observatório Astronómico de Lisboa: «Fala-se em Super Lua sempre que o instante de Lua Cheia ocorre quando a Lua está a uma distância da Terra inferior a 110% do perigeu da sua órbita.» (Claro que as fases da Lua se grafam com minúscula, coisa que vão agora aprender.) Mais: quando, em 1979, o astrólogo norte-americano Richard Nolle criou o termo, definiu-o como «a new or full moon which occurs with the moon at or near (within 90 per cent of) its closest approach to Earth in a given orbit». Em que ficamos? Alguém corrigiu Richard Nolle?

 

[Texto 8642]

Helder Guégués às 21:29 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Léxico: «PME»

E a definição?

 

      «O tecido empresarial europeu assenta em micro, pequenas e médias empresas e, nos últimos anos, a Comissão Europeia tem vindo a definir que as PME (pequenas e médias empresas) são uma prioridade da sua política. Porém, desde 2003 que não voltou a olhar para o espelho para perceber se os critérios que então estabeleceu sobre o que deveria definir uma PME se mantinham actualizados. Está a fazê-lo agora, lançando um processo de revisão de todos os conceitos associados. [...] Actualmente, a definição que está estabilizada desde 2003 assente em três critérios: o número de efectivos, o volume de negócios e o balanço total anual. Para ser considerada PME, uma empresa deve ter menos de 250 trabalhadores, um volume de negócios anual que não exceda os 50 milhões de euros ou um balanço total anual que não ultrapasse um valor de 43 milhões de euros» («Nova definição europeia de PME ameaça empresas portuguesas», Luísa Pinto, Público, 30.01.2018, p. 18).

      É muito curioso que PME se encontre no Dicionário de Siglas e Abreviaturas da Infopédia, que não define, apenas desdobra as siglas e as abreviaturas, e nos dicionários bilingues. No Dicionário de Português-Espanhol, lê-se que é a «sigla de Pequeñas y Medias Empresas». Ora, em castelhano não se diz assim: pyme é o acrónimo de «pequeña y mediana empresa». E está definido no dicionário da Real Academia Espanhola: «Empresa mercantil, industrial, etc., compuesta por un número reducido de trabajadores, y con un moderado volumen de facturación.» Se é, antes de mais nada, uma definição legal, siga-se, nos dicionários, a definição legal.

 

[Texto 8641]

Helder Guégués às 20:46 | comentar | favorito
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«Proposta de lei»

Um retoque, e será útil

 

       «Em 2016, primeiro ano do mandato de António Costa, foi batido o recorde do mínimo de produção legislativa de um governo. Foram aprovados apenas 98 decretos e nove propostas de lei, como contabilizou o PÚBLICO. A diferença entre decretos e propostas de lei é que os primeiros são imediatamente publicados em Diário da República e os segundos são enviados à Assembleia da República para aí serem aprovados como leis. Há um terceiro tipo de diplomas, as leis da Assembleia da República que têm origem em projectos de lei apresentados pelos partidos, mas que não entram nesta contabilidade [sic]» («Cerca de 2300 diplomas vão ser revogados», São José Almeida, Público, 30.01.2018, p. 4).

     O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define, naturalmente, decreto-lei («lei emanada do órgão executivo (Governo) em determinadas situações previstas legalmente»), como também define, apesar de não ser uma palavra, proposta de lei («iniciativa legislativa do Governo, projecto de lei»). Ora, é precisamente a informação que a jornalista São José Almeida dá no artigo do Público que faz falta à definição do dicionário. Só dessa maneira será mesmo útil, como se pretende.

 

[Texto 8640]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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30
Jan 18

Sobre «revogar»

Precisamos de mais

 

      Esta manhã a Justiça está bem activa... (Há por aí figurões a rangel os dentes, estão aqui a dizer-me.) Mas despertei com outra notícia: «“Muito em breve vamos aprovar a revogação de 2.300 [sic] decretos-leis dos anos de 1975 a 1980, que já estão ultrapassados pelo tempo, já não fazem sentido, mas nunca foram expressamente eliminados do ordenamento jurídico e por isso serão de uma assentada retirados do ordenamento jurídico de forma expressa e clara para que não haja dúvidas quanto a cessação da sua vigência”, revelou [o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Tiago Antunes]» («Governo “rasga” 2.300 decretos-leis já ultrapassados», Rádio Renascença, 30.01.2018, 00h13).

      Esta revogação expressa era necessária, mas é insuficiente (ainda há leis do Estado Novo — facto que o zé-povinho costuma ignorar — em vigor, e que não fazem sentido) para garantir a segurança e a certeza jurídicas. Muito bem. Nos dicionários, a entrada revogar tem de ser aperfeiçoada e alargada. Não me parece demasiado, mesmo para um dicionário geral, que uma subentrada distinga entre revogação total (ab-rogação) e parcial (derrogação), expressa e tácita. É o básico, e não sofre alterações como outros aspectos da lei. Todos os bons dicionários gerais têm uns laivos de dicionário ideológico.

 

[Texto 8639]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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