28
Fev 18

O nome das doenças

Não espalhem o erro

 

      Ali atrás, no texto sobre poluição linguística, usa-se a designação doença pulmonar obstrutiva crónica [DPOC], que conheço bem, infelizmente. Também infelizmente, aparece assim grafada no Dicionário de Siglas e Abreviaturas da Infopédia: «sigla de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica». Quantas vezes eu já barafustei contra isto? Eh, pá, é com minúsculas, doença pulmonar obstrutiva crónica. Na designação de doenças, só o nome próprio que eventualmente contiver se grafa com maiúscula, como me parece óbvio. Sei lá, doença de Crohn, por exemplo.

 

[Texto 8835]

Helder Guégués às 22:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Léxico: «bancarroteiro»

Vamos lá falar como deve ser

 

      Define assim bancarroteiro o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «que faz bancarrota». «Faz bancarrota»? Já parece um lexicógrafo a imitar um senhor doutor médico a falar. Não se faz bancarrota — declara-se. Proponho: «que declara bancarrota; falido; quebrado; arruinado». Foi neologismo usado por Rui Barbosa, o «colosso da oratória e mestre na pureza, na elegância, no aticismo, na propriedade da linguagem portuguesa de lei», no dizer de Mário Barreto, que acrescenta: «E não é feio o vocábulo, já que à quebra (e mais comummente a fraudulenta) se chama bancarrota

 

[Texto 8834]

Helder Guégués às 22:05 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar

Léxico: «centro-esquerda/centro-direita»

Já tardam

 

      «E, assim, acabaram por estar eles próprios na origem do novo partido de Bonino, +Europa, que concorre na coligação de centro-esquerda liderada pelo Partido Democrático, de Matteo Renzi» («Farto de “esperar que outros façam”, [Francesco] Galtieri quer ser eleito», Sofia Lorena, Público, 28.02.2018, p. 22).

      Centro-esquerda e centro-direita, pois claro, até os encontro em dicionários, mas ainda não no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Claro que já sei que os vou ver desinfenizados, como sucede tantas vezes com os termos «extrema-direita» e «extrema-esquerda», e isto em textos de quem julga que escreve bem. Deixá-los julgar.

 

[Texto 8833]

Helder Guégués às 21:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Outro verbo assassinado

Mais poluição linguística

 

      «Acima de tudo, afirma [Francisco Ferreira, da Associação Zero], faltam implementar medidas de emergência para actuar no imediato quando os limites da qualidade do ar são ultrapassados» («Portugal sem medidas de emergência quando qualidade do ar é má», Ana Maia, Público, 28.02.2018, p. 4).

      Já falei disto algumas vezes, mas vamos lá de novo. Já o ensinei a revisores e a professores universitários: o sujeito do verbo «faltar», que é pessoal, é outro verbo, o verbo «implementar» (t’arrenego!), que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo «faltar» esteja no singular: «falta implementar medidas». Também falta estudar um pouco mais a gramática.

 

[Texto 8832]

Helder Guégués às 21:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Como falam alguns médicos

Poluição linguística

 

      «Os efeitos da poluição, explica a médica pneumologista Cecília Longo, dependem do tipo de exposição. “Existem vários estudos que mostram que as pessoas que vivem perto de auto-estradas estão mais sujeitas ao aumento de crises de asma ou de doença pulmonar obstrutiva crónica [DPOC]. Os Estados Unidos têm muitos trabalhos em relação às crianças, por ainda estarem a desenvolver o aparelho respiratório são mais susceptíveis à poluição. Há links em relação ao baixo peso à nascença e a exposição à poluição durante a gravidez”, exemplifica» («Portugal sem medidas de emergência quando qualidade do ar é má», Ana Maia, Público, 28.02.2018, p. 4).

      Pasma a gente com a maneira como alguns senhores doutores médicos falam. Vá de novo, para escarmento: «Há links em relação ao baixo peso à nascença e a exposição à poluição durante a gravidez». Links!

 

[Texto 8831]

Helder Guégués às 20:55 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «biruta»

Está biruta

 

      «Um fenómeno semelhante a um pequeno tornado virou esta tarde mais de uma dezena de embarcações na marina de Faro, causando também estragos em viaturas e destruindo uma esplanada. [...] Imagens divulgadas nas redes sociais mostram barcos virados e cone de vento semelhante a um tornado» («Fenómeno “semelhante a tornado” faz estragos em Faro», Rádio Renascença, 28.02.2018, 18h55).

      Na televisão também ouvi descreverem-no como um cone de vento, e parece-me bem, é claro. Lembrei-me foi de outra coisa: no Brasil, dá-se o nome de cone de vento ao que nós, menos atilados, chamamos biruta, palavra que fomos buscar ao francês e enjorcámos à nossa maneira. Agora vejamos como se define biruta no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «AERONÁUTICA aparelho indicador dos ventos de superfície, usado nos aeródromos para orientação das manobras dos aviões e que consta essencialmente de uma sacola cónica presa perpendicularmente à extremidade de um mastro; manga de vento». Não me parece que uma biruta seja um aparelho, só isso.

 

[Texto 8830]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar

Léxico: «bioincrustação»

Bio é que está a dar

 

      «Patrick Freire, um dos responsáveis pela empresa [Biomimetx,] conta que se trata de “um produto para aditivar as tintas marítimas que são colocadas nos cascos dos navios para evitar bioincrustação (a deposição em camadas de organismos marinhos que vão afetar a deslocação dos navios)”. A invenção vai permitir ganhos de eficiência e reduzir o consumo de combustível. Patrick explica que já existem no mercado soluções muito eficazes, mas o objetivo é substituir essas soluções por uma mais amiga do ambiente» («Pó que acelera, fita que mede o stress. Invenções das universidades portuguesas», Rita Costa, TSF, 28.02.2018, 16h31). Nos dicionários, ainda nada.

 

[Texto 8829]

Helder Guégués às 20:38 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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28
Fev 18

Léxico: «dor de burro»

Vamos lá crescer

 

      «Os sapatos chiques magoavam-me os pés, mas ainda assim não abrandei. Quando cheguei a casa, estava com dor de burro [stitch in my side]» (Diário de Uma Rapariga Desaparecida, Marsha Forchuk Skrypuch. Tradução de Susana Ferreira. Alfragide: Oficina do Livro, 2016).

      A verdade é que eu não conhecia esta designação, foi a minha filha que chegou a casa com a novidade — eu só conhecia a própria dor, quando era obrigado a correr. Os médicos é que não podiam transigir com nome tão prosaico, e vá de nos assegurarem que é a dor abdominal transitória relacionada com o exercício (exercise related transient abdominal pain, para a legião de anglófonos que nos segue). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de dores a sério só conhece a dor de barriga. Vamos lá crescer.

 

[Texto 8828]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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