03
Fev 18

Léxico: «inverneira/branda»

Respeitemos o que é nosso

 

      «Há meses que a estação estival ficou para trás no calendário, mas este dia de inverno assinala a mudança que o mesmo não regista: a tradição secular dos aglomerados à volta da vila de Melgaço, distribuídos pelas duas margens do rio Laboreiro, segundo a qual, duas vezes por ano, a população se desloca entre as terras mais altas, as brandas, entre os 1050 e os 1150 metros de altitude, e as mais baixas, as inverneiras (700 a 800 metros), num nomadismo cunhado pelo sabor das estações» («O inverno é uma casa às costas», Carolina Pelicano Falcão, Notícias Magazine, 28.01.2018, p. 13).

      Já uma vez tinha lamentado a ausência destes termos em alguns dicionários, mas caiu em saco roto. Caramba, são termos, e realidades, com séculos! Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, inverneira é apenas sinónimo de «invernia», e branda não passa do adjectivo feminino singular de «brando».

 

[Texto 8680]

Helder Guégués às 22:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bimotor/trimotor»

Tratar da mesma forma

 

      «Talvez o piloto do trimotor Lisboa se tenha lembrado da frase, a 3 de fevereiro de 1936, quando o pequeno avião não pôde descolar do aeródromo de Sintra para Croydon, a sul de Londres, em resultado de os pneus do trem de aterragem e afundarem na lama da pista, ainda muito encharcada pelas últimas chuvas» («1936. Portugal-Inglaterra de avião: o primeiro voo», Ana Pago, Notícias Magazine, 28.01.2018, p. 13).

      Alguma coisa justifica o diferente tratamento lexicográfico dos verbetes bimotor e trimotor no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Se não há, poderá haver um dia veículos que não aeronaves com três motores. Uniformize-se.

 

[Texto 8679]

Helder Guégués às 21:51 | comentar | favorito

Léxico: «slot»

Faixa horária, apenas

 

      «“Como se não nos bastasse a falta de slots em Portugal para poder crescer, temos um outro grande problema – não conseguimos contratar pilotos experientes.” O desabafo de José Lopes, diretor da easyJet em Portugal, vem com um apelo aos governantes nacionais para que assegurem “vantagens fiscais” que permitam atrair profissionais com experiência» («Pilotos estão a fugir para Espanha. Ganham 30% mais», Ana Margarida Pinheiro, Diário de Notícias, 26.01.2018, p. 19).

      Nem todos temos a sorte de ser especialistas em aeronáutica como a jornalista do DN e o seu entrevistado. Suponhamos que consultássemos, cientes do contexto, o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. «Cá está», diríamos, «o que procurávamos: “AERONÁUTICA abertura para passagem de ar em aerofólio”.» Aerofólio, aerofólio... No portal da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), leio isto: «Qualquer operador que pretenda aterrar ou descolar num aeroporto coordenado deverá obter uma faixa horária (slot) atribuída pela Coordenação Nacional de Slots (aceda ao site nos links relacionados).» Vá, agora é a vez de o leitor mexer os dedos e ir ver o que é «aeroporto coordenado». Como sou boa pessoa, fica aqui o Glossário da Aviação Civil da ANAC.

 

[Texto 8678]

Helder Guégués às 21:26 | comentar | favorito

Léxico: «guarda-mor»

Vagamente

 

      Soube-se agora que Fernão Lopes pode ter sido enterrado na igreja matriz do Alandroal. «Acaso levou o investigador João Torcato a reparar na inscrição existente à entrada da igreja matriz. Dois anos depois publica, com o historiador José d’Encarnação, os fundamentos da tese que parece resolver enigma histórico» («Lápide em igreja desvenda mistério sobre o cronista Fernão Lopes», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 26.01.2018, p. 31). «Agora, embora com as reservas naturais dos investigadores, este catedrático justifica a conclusão de os restos mortais do quarto guarda-mor da Torre do Tombo estarem na igreja de Nossa Senhora da Graça com o conjunto de factos que até aqui não tinham explicação.» Sobre guarda-mor, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos somente que é «1. chefe dos empregados subalternos de certos estabelecimentos públicos; 2. antigo fidalgo a quem competia a guarda do rei». Naturalmente, a aplicar-se seria a primeira acepção, mas, pelo menos no caso concreto dos guarda-mores da Torre do Tombo, não nos dá sequer uma luz sobre as atribuições de tal funcionário. Ora, sabe-se que no caso da Torre do Tombo, guarda-mor é uma espécie de arquivista e notário. Aliás, a função começou por ser atribuída a um escrivão privativo. Uma coisa é certa: faltam acepções desta palavra nos nossos dicionários.

 

[Texto 8677]

Helder Guégués às 20:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «dismorfia dentária»

Até ajudaria os doentes

 

      «Esta é uma situação cada vez mais frequente. Se por um lado há pessoas que tremem só de pensar em dentistas, evitando ao máximo as idas ao consultório, há quem se submeta a sucessivos tratamentos dentários desnecessários – e por vezes dolorosos – para atingir aquilo que considera ser o sorriso perfeito. Uma obsessão irracional pela aparência dos dentes que dá pelo nome de dismorfia dentária e que é potenciada por padrões de beleza cada vez mais exigentes» («Obsessão pelo sorriso perfeito já é uma doença, dizem os médicos», Joana Capucho, Diário de Notícias, 26.01.2018, p. 14).

      Dismorfia, etimologicamente, é deformidade, mas não se chega a saber exactamente do que se trata se não pesquisarmos. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como outros dicionários, apenas regista dismorfia: «1. má configuração; 2. forma viciosa de um aparelho ou órgão». Se registassem a locução, seria melhor.

 

[Texto 8676]

Helder Guégués às 19:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «moringa»

Dará pedrada?

 

      Os meus leitores mais atentos às questões da alimentação e saúde (quase todos, tirando uns casos perdidos) já sabem decerto que apareceu por aí outro superalimento: a moringa (Moringa oleifera). Ainda me lembro de ver moringas de barro pedrado de Nisa — que é também a única, moringa/moringue, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora conhece. Pois, mas esta é outra, e não sei se dá pedrada. O que sei é que vem da Índia e é conhecida por acácia-branca, também desconhecida daquele dicionário. Na segunda-feira, já vou ao Celeiro do Colombo comprar umas barras proteicas com moringa, já que a planta nem vê-la, a não ser que algum jardineiro compassivo me mande uns raminhos para fazer infusões.

 

[Texto 8675]

Helder Guégués às 18:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «malha»

Gíria da música?

 

      «Tim saudou a interpretação do baixista Trujillo, “que cantou muito bem”, e a forma como Hammett “repetiu as malhas do Cabeleira. Acho que ele [João Cabeleira] deve estar completamente babado”» («“Nem faço ideia do que lhes passou pela cabeça.” Tim sobre homenagem dos Metallica», Teresa Alves, TSF, 2.02.2018, 21h32).

      Em relação à música, já tinha ouvido a expressão «boa malha», mas não estas malhas. Alguém sabe do que se trata?

 

 [Texto 8674]

Helder Guégués às 18:37 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «tubarão-azul»

O latinzinho

 

      «Oito de Setembro de 2017. Já anoitecia e o mergulho a dez milhas náuticas a sudoeste do cabo de São Vicente, no Algarve, durava há mais de duas horas. João Rodrigues e Rodrigo Clímaco, biólogos marinhos e mergulhadores, e Fernando Felicidade, ex-pescador e guia turístico, estavam na companhia de sete tubarões-azuis. [...] A Prionace glauca é uma das espécies mais abundantes no Atlântico e está na costa portuguesa. Mas tem perigos à vista como a pesca em excesso. Está classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “quase ameaçada”» («Tubarões-azuis fotografados ao lusco-fusco na costa portuguesa», Teresa Serafim, Público, 3.02.2018, p. 26).

      Tubarão-azul, assim como os vários nomes por que é conhecido, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — mas não regista o nome científico, Prionace glauca.

 

[Texto 8673]

Helder Guégués às 17:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito

«Colocar perguntas»

A língua (mal) reinventada

 

      «Mas talvez por andarmos todos tão divertidos com isto, penso que os jornalistas se terão esquecido de colocar a João Correia uma pergunta muito importante, e que é de longe aquela que mais me interessa ver respondida: de quem é ele advogado, afinal?» («João Correia é advogado de quem, afinal?», João Miguel Tavares, Público, 3.02.2018, p. 52).

      Agora — e provavelmente para sempre — já não se fazem perguntas nem se pergunta, simplesmente: «colocam-se perguntas». De evolução em evolução até à extinção. É por isso que, gente próvida e sábia, nos propinam diariamente doses de inglês.

 

[Texto 8672]

Helder Guégués às 17:56 | comentar | favorito
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Léxico: «confessionalidade»

Há décadas

 

      «A Associação República e Laicidade enviou requerimentos “a três câmaras municipais onde existem, comprovadamente, crucifixos nos respectivos salões nobres”, e exige aos autarcas de Viseu, Sernancelhe e Lamego que retirem, no prazo de dez dias, os símbolos religiosos daqueles espaços. A associação cita a Constituição da República Portuguesa e a Lei da Liberdade Religiosa, que determina que “o Estado não adopta qualquer religião” e que “nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade”. Dez dias. O relógio está a contar» («Cruzes nas autarquias? Credo!», Público, 3.02.2018, p. 11).

      Há décadas que se usa e há décadas que se anda a perguntar porque não está nos dicionários este neologismo, entretanto já maduro, quase veterologismo. Não percebo.

 

[Texto 8671]

Helder Guégués às 17:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Fev 18

Léxico: «coronel tirocinado»

CORTIR

 

      «O Exército Português vai, a partir de 2019, começar a usar de forma gradual um novo fardamento, armamento, equipamentos de comunicação e sistemas de informação, anunciou esta sexta-feira o chefe da Divisão de Planeamento de Forças do Estado-Maior do Exército. O coronel Tirocinado João Boga Ribeiro explicou que este Programa “Sistemas de Combate ao Soldado”, apresentado em Vila Nova de Gaia, no distrito do Porto, visa dotar o militar com todos os equipamentos de combate utilizados de forma integrada e incremental» («Exército terá novas fardas e armas em 2019», Rádio Renascença, 2.02.2018, 21h32).

      Qual é o paisano que não vai pensar que o nome do chefe da Divisão de Planeamento de Forças do Estado-Maior do Exército é Tirocinado João Boga Ribeiro? Pois é, poucos, e com a decisiva ajuda da inépcia do jornalista, menos do que os desejáveis. Vamos lá ver, porque não escreveu «coronel tirocinado»? Eu sei muito bem que tirocinado significa o que fez tirocínio ou o que tem experiência prática em determinada área, mas o meu vizinho não sabe. Os leitores sabem, mas os vossos vizinhos não sabem. Vamos encontrar a definição no artigo 247.º do Decreto-Lei n.º 236/99, de 25 de Junho de 1999, que aprovou o Estatuto dos Militares das Forças Armadas: «O oficial com o curso superior de comando e direcção, quando coronel, designa-se por coronel tirocinado (CORTIR).» Parece-me óbvio que os dicionários gerais da língua deviam registar a expressão. De contrário, para onde se deve virar o falante? Já vimos que não vale a pena ir perguntar ao vizinho.

 

[Texto 8670]

Helder Guégués às 16:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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