05
Fev 18

Léxico: «sonificação»

Já nosso conhecido

 

      «Não há uma tradução do texto palavra a palavra, mas sim da sua estrutura. A substituir o que no livro são os oito primeiros versos da primeira estrofe d’Os Lusíadas, na versão de Ângela Coelho há oito compassos, com cada nota musical a mimetizar o esquema rimático da epopeia de Luís de Camões.

      Ângela Coelho, que desenvolveu o trabalho de sonificação musical do clássico da literatura portuguesa no âmbito do mestrado em Design e Multimédia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), explica que a ideia de base passava por transformar dados em som. Acabou por trabalhar com texto» («Os Lusíadas têm uma música interior — e o Twitter também», Camilo Soldado, Público, 5.02.2018, p. 26).

      Será novo para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não o regista, mas vamos encontrá-lo, por exemplo, no Aulete e no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 8694]

Helder Guégués às 21:20 | comentar | favorito
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Léxico: «zuavo»

Esmiuçando um pouco

 

      «A estátua do zuavo (tipo de soldado) da Ponte d’Alma, em Paris, serve para medir as cheias do Sena desde 1910» («Clima Até o zuavo da Ponte d’Alma se pode afogar», Público, 5.02.2018, p. 23).

      Tipo de soldado é uma maneira (imprópria) de falar. De zuavo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos o que um dicionário habitualmente diz, o essencial: «HISTÓRIA, MILITAR soldado argelino ao serviço da França, na Argélia». A leitura da parte etimológica pode levar-nos mais longe: «Do berbere Zuawa, de uma tribo cabila, pelo francês zouave, “zuavo”». Isso é certo: recebemos a palavra do francês zouave, mas a origem é controversa. Parece, contudo, que provém do árabe magrebino zuaua, que é o nome de uma tribo cabila. Este ponto não é claro na etimologia apontada pelo dicionário da Porto Editora. Na definição, há dicionários que dizem um pouco mais, pois acrescentam que se trata de soldado de infantaria. Um dicionário mais preciso não diria que era ao serviço da França, pois os zuavos também integraram o exército do Império Otomano. Foram, é verdade, celebrizados pela França, que se aliou a eles e, mais tarde, os levou para combaterem no México. Aliás, os zuavos até chegaram a combater ao lado dos Estados confederados, na Guerra da Secessão.

 

[Texto 8693]

Helder Guégués às 20:44 | comentar | favorito

Léxico: «háptico»

Uma presença subtil

 

      «Há outros robôs que passam informação háptica (associada ao tacto)» («Se há perigo, há robôs prontos a ir onde mais ninguém quer ir», Karla Pequenino, Público, 5.02.2018, p. 20).

      Pode ler-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «[pouco usado] relativo ao sentido do tacto». Sim, não está errado, mas, de forma disfarçada, a palavra até se tornou bem presente: o iPhone 7, em 2016, surgiu com um motor de vibração háptico, ou, na designação da Apple, um taptic engine, de tap + haptic (feedback).

 

[Texto 8692]

Helder Guégués às 20:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «transumância»

Um prolongado engano

 

      «O senso comum associa a transumância à circulação de gado, sobretudo ovino, de um lugar para outro, na procura de melhores pastos. Mas, na verdade, o conceito também se aplica à deslocação de colmeias para locais onde abunda a floração apícola. É isso que os espanhóis andam a fazer, transpondo a fronteira para o lado de cá, para que os seus milhares de abelhas possam fazer as suas colheitas entre o Outono e a Primavera — o que está a desesperar os apicultores portugueses» («Espanhóis invadem as flores portuguesas com as suas abelhas», Carlos Dias, Público, 5.02.2018, p. 16).

      Sim, parece que é verdade, que transumância também se aplica à deslocação das colmeias. Sendo assim, os dicionários andam a enganar-nos há décadas. Actualizem-se.

 

[Texto 8691] 

Helder Guégués às 19:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Chaxoila»?

Grafia criativa?

 

      «Chaxoila é o nome transmontano que o primeiro dono deste restaurante dava a uma pequena enxada. Foi aqui que Francisco Pavão, principal orador da tertúlia da Chaxoila, disse que este ano de 2018 será “o ano da revolução do azeite”» («Chaxoilar o azeite no ano da sua “revolução”», Afonso de Sousa, TSF, 5.02.2018, 12h56).

      Então agora isto é assim, dava-lhe o nome de «chaxoila» e, pronto, escreve-o desta maneira? Parece-me um mau caminho. Aqui no prédio, uma criancinha chama «coega» ao escorrega. Vamos deixá-la para sempre na ignorância? Soa-me, sim, mas nunca se poderia escrever com essa grafia. O Dr. Google, em quem muita gente tida por inteligente, sabe-se lá por que favor ou sorte, descansa, também nada sabe disto. Sacho, sachola. Ainda que se tivesse ali intrometido uma vogal, o que não é nada raro, seria «sachoila».

 

[Texto 8690]

Helder Guégués às 15:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Zarelho» e «travinca»

Outra malha

 

      Há alguns anos que não vejo um guarda-nocturno, mas ainda me lembro de alguns pormenores. O apito, por exemplo, tinha (ainda tem?) de ser de metal cromado ou prateado, com zarelho, corrente e travinca semelhantes. Agora, consulto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e vejo que os verbetes zarelho e travinca estão incompletos. E não só. Veja-se, por exemplo, a 4.ª acepção de zarelho: «guarnição de espingarda que serve para prender a bandoleira». Guarnição, está bem, mas actualmente o falante médio pensa logo em alface ripada e cenoura ralada. Eu diria «argola que serve para prender a bandoleira à espingarda», até porque etimologicamente o arabismo «zarelho» significa «malha de argolas».

 

[Texto 8689]

Helder Guégués às 15:33 | comentar | favorito

De Ródão «rodense»?

Indiscutível — ou não

 

      Sabiam que o ceramista Manuel Cargaleiro é natural de Vila Velha de Ródão? Embora haja bons motivos para ir a Vila Velha de Ródão, é quase sempre referida na imprensa pelos piores motivos. Bem, mas não é disso que eu quero falar. Entre as questões que ninguém discute está esta: será mesmo assim tão óbvio que o gentílico relativo a Vila Velha de Ródão seja «rodense»? Pode ser o mais fácil, por analogia com outros semelhantes, mas eu esperava que fosse «rodanense».

 

[Texto 8688]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
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Um abstruso etc.

Senhora professora, meus senhores

 

      Deus nos livre de duas coisas: dos quiproquós dos boticários e dos etc. dos notários. Isto dizia-se dantes, mas talvez convenha, à luz de novas descobertas, reformular o provérbio. A professora de Português, mas a leccionar outra disciplina, escreveu no quadro uma enumeração aberta, que rematou com «etc...», o que não escapou a uma aluna, que teve a infeliz ideia de dizer em voz alta que não se escrevia assim. Os autores brasileiros (pois cá ninguém se dá ao trabalho de se ocupar de questões tão insignificantes) que tratam da matéria apenas admitem etc... para marcar uma ironia, que, também reconhecem, será caso raro. Raríssimo. Nunca vi. Oh minha senhora, não é nada disso: ou emprega o etc., ou as reticências, não ambas as formas para mostrar que a enumeração está incompleta. «Não, lamento, mas estás enganada.» Sendo assim, outro provérbio: Discípulo com cuidado, e o mestre bem gago.

 

[Texto 8687]

Helder Guégués às 15:29 | comentar | favorito
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Plural: «superintendente-chefe»

Demasiado elementar, mas vamos lá

 

      «Vão concretizar-se esta semana algumas mudanças no topo da hierarquia da PSP, todas elas envolvendo superintendentes chefe. [...] Todas estas mudanças foram decididas na sequência da morte do superintendente chefe Bagina da Silva, em Novembro do ano passado. Este oficial era na altura inspetor nacional da PSP» («Semana de mudanças na PSP», Celso Paiva Sol, Rádio Renascença, 4.02.2018, 23h20).

      Com que então é assim — «superintendente chefe/superintendentes chefe» — que Celso Paiva Sol acha que se escreve... Li no seu perfil que está «há quase 30 anos na Renascença, já totalmente tomado pelo bicho da rádio. Embora já tenha feito de tudo um pouco, a sensação é que há ainda muito mais para fazer e descobrir». Efectivamente, a intuição não o engana, uma área por si largamente inexplorada é a gramática. Veja como se grafa e como pluraliza esta palavra composta por dois substantivos ligados por hífen:

 

 

      superintendente-chefe/superintendentes-chefes.

 

[Texto 8686]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Fev 18

Ortografia: «grau Celsius»

Não mudamos, estamos bem

 

      «Entre terça e quinta-feira as temperaturas vão descer ainda mais, com temperaturas mínimas no interior norte e centro a atingirem valores entre os dois e os sete graus negativos, com as máximas a oscilarem entre os dois e os oito graus Célsius» («Frio nos próximos dias. Temperaturas podem chegar aos -7», Rádio Renascença, 4.02.2018, 22h52).

      Ainda se o tornassem nome comum, «celsius», compreendia que o acentuassem, mas não assim. É, acreditem, grau Celsius, e nada mudou nem precisa de ser mudado. Infelizmente, cada vez vejo mais esta grafia.

 

[Texto 8685]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | favorito
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