07
Fev 18

Léxico: «quinurénico»

Se é assim

 

      «A equipa coordenada por Jorge Ruas, professor-associado [sic] e investigador do Instituto Karolinska, na Suécia, já tinha concluído, em 2014, que a substância em causa, o ácido quinurénico, aumentava com a prática de exercício físico, com músculos ‘treinados’, e evitava, de certa forma, estados depressivos provocados pelo ‘stress’, ao eliminar do cérebro os efeitos tóxicos de uma outra substância, a quinurenina» («Cientistas descobrem substância que faz “queimar gordura” do corpo», Diário de Notícias, 6.02.2018, 22h04).

   Anda por aí há muito, mas não no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Chegou-nos, provavelmente, pelo inglês kynurenic. Etimologicamente, é urina (uren-) de cão (kyn-, kyōn). A minha dúvida prende-se com a transliteração do grego: não devia antes ser «cinurénico»? Por exemplo, κυνισμός deu em português «cinismo». E outras, claro, como «cinocéfalo», «cinofobia», «cinodonte», «cinotécnico», «cinoglossa», etc. Aliás, e principalmente, não é cino- o elemento de formação de palavras que exprime a ideia de cão, e não quino-, por exemplo?

 

[Texto 8707]

Helder Guégués às 20:42 | comentar | favorito
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Léxico: «lagartinho (do porco)»

Ficamos com vontade de mais

 

      «Omeleta de espargos verdes; bochechas de porco estufadas; ovos com farinheira; entremeada no forno; lagartinhos de porco alentejano; ensopado de coelho e o universal arroz de pato são algumas propostas que podem figurar na lista [da Tasca da Calçadinha, em Monforte]» («Tasca da Calçadinha. Uma cozinha forte na vila no alto do monte», António Catarino, TSF, 7.02.2018, 13h22).

      Lagartinhos de porco, que são tiras de carne extraídas entre os ossos do entrecosto, há-os e bons na Tasca da Calçadinha, em Monforte, mas não no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, ainda do porco, onde está a presa, onde estão os abanicos? Vá lá, não se esqueceram das plumas.

 

[Texto 8706]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Gramática atropelada

Com tractores é assim

 

      «Todos os dias acorda com as galinhas, em direção à garagem. Henrique Ferreira, 90 anos, espera-lhe um dia de trabalho pela frente» («Velho demais para conduzir trator?», Liliana Carona, Rádio Renascença, 7.02.2018, 10h14).

      Liliana Carona, é assim que se escreve agora? Reveja bem a matéria. E, enquanto a jornalista se ocupa a estudar a gramática, para os responsáveis da Renascença vai a pergunta: quando é que, em relação ao Acordo Ortográfico de 1990, se definem de uma vez e deixa de ser dez no cravo e uma na ferradura?

 

[Texto 8705]

Helder Guégués às 15:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cartilheiro»

Fica explicado

 

      «“Ricardo Araújo Pereira acaba por cair no âmbito dos cartilheiros. No ‘Governo Sombra’ pode, se quiser, esclarecer se é verdade que recebeu informações de Ricardo Costa através de Paulo Gonçalves e do Benfica. Até ele se deixou envolver nesta massificação das ideias e na máquina de propaganda do Benfica”, acusou Francisco J. Marques» («Dragões incluem Ricardo Araújo Pereira no “âmbito dos cartilheiros”», Rádio Renascença, 7.02.2018, 9h29).

      Desconhecia, pelo que tive de pesquisar. Nuno Encarnação, cronista do Record, explica: «O cartilheiro é normalmente uma personagem que aparenta ser bem-sucedida na vida, que alguns clubes elegem para seus pajens. São os ‘bandeirinhas’ de hoje que assinalam tudo o que a imaginação permite, mas que nada vêem quando lhes convém» («Os cartilheiros», Record, 13.04.2017).

 

[Texto 8704]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | favorito
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Léxico: «candeolas»

Mas não é o mesmo

 

      «Com 64 anos, Aurinda lembra os tempos em que “o frio era tanto que até fazia candeolas nos telhados (formas vidradas, pontiagudas, semelhantes a estalagmites) e a gente até as tirava com a mão e quando íamos aos nabos nem os víamos[,] tínhamos que lhe dar com o gadanho”» («“Não há frio que encolha os transmontanos”», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 7.02.2018, 10h25).

      Ah, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sim, mas apenas a acepção botânica. «Sincelo – Aragem fria, típica dos dias de nevoeiro ou neblina. Popularmente, o sincelo é, ainda, designado por caramelo, carambelo, candeolas ou candeias de gelo» (Montalegre, José Dias Baptista. Município de Montalegre, 2006, p. 156).

 

[Texto 8703]

Helder Guégués às 11:23 | comentar | favorito
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Léxico: «lambrilha»

Pode lá ser

 

      E a propósito de azulejos: vamos a uma loja A Vida Portuguesa e encontramos à venda, por 5,5 euros, lambrilhas pintadas à mão da Fábrica da Viúva Lamego e reproduzindo motivos assinados por pintores como Lucien Donnat, Thomaz de Mello, Carlos Botelho, Bernardo Marques e Fred Kradolfer, por exemplo. Ora, este vocábulo também não está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Lambrilha, lê-se na obra Grandes Museus de Portugal, de Jorge Cabello, é o «azulejo pequenino, de figura avulsa, criado em Portugal, na década de 30».

 

[Texto 8702]

Helder Guégués às 11:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «albarrada»

História amputada

 

      No século XVIII, na decoração dos azulejos, um dos padrões mais estimados eram as albarradas, grandes vasos de flores que simbolizavam a esperança, ladeados de aves mais ou menos exóticas. O termo vem do árabe, língua na qual já significava vaso com duas asas para conter água, e foi usado por Pero Vaz de Caminha na sua carta: «Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada. Não beberam.» No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não encontram albarrada, infelizmente.

 

[Texto 8701]

Helder Guégués às 10:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «anacenose»

Há-de ser isso

 

      Seja por esquecimento seja pela dificuldade em encontrar uma definição — vejo noutros dicionários definições nem minimamente concordantes ou harmonizáveis —, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é como se a figura de retórica que dá pelo nome de anacenose não existisse. E, contudo, por mais evoluções que haja, as figuras de retórica e de estilo continuam a existir.

 

[Texto 8700]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «escovinha»

Ficamos a saber

 

      «Em 2006, André Coelho tinha treze anos e era jogador do ABC Nelas quando a seleção foi lá disputar um jogo particular com a Holanda. Na altura foi um dos escolhidos para ser “escovinha”, um dos jovens que limpam o chão da quadra durante o jogo, e assim estar perto de ídolos como Ricardinho e Bebé. Passados mais de dez anos está ao lado deles a disputar o seu primeiro Europeu» («Há dez anos foi “escovinha” para estar perto dos ídolos. Agora joga com eles», Miguel Henriques, TSF, 6.02.2018, 14h37).

 

[Texto 8699]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Fev 18

Léxico: «formiga-ladra»

Mas simpáticas

 

   «Tal como o homem, as formigas combatem as bactérias que causam doenças através da produção dos seus próprios antibióticos, refere o estudo. Ainda assim, 40% das espécies analisadas não produzem antibióticos. A “formiga ladra” foi a espécie que revelou “o efeito antibiótico mais poderoso de todas as espécies testadas” (num total de 20). Segundo o investigador Adrian Smith [da Universidade da Carolina do Norte], “encontrar espécies que carregam um poderoso agente antimicrobiano é uma boa notícia para os que querem descobrir novos antibióticos que podem ajudar os seres humanos”» («Há formigas que produzem o seu próprio antibiótico», Rádio Renascença, 7.02.2018, 8h09).

      É mesmo esse o nome comum da Solenopsis molesta, formiga-ladra (thief ant, para a legião de anglófonos que nos segue), não é invenção de Adrian Smith. «De resto, a dormitarem, as intrusas, e sem comer, o tempo todo, tirante algum insecto, uma formiga-ladra, uma mosca-do-vinagre. Ninguém todavia as escorraçando, pelo contrário, dando-lhes carta branca. Assim a convivência do povo com as cobras, durante aquele Inverno, uma companhia, uma camaradagem quase» (Passagem do Cabo, Maria Ondina Braga. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 30). Ladras, mas simpáticas e fora do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8698]

Helder Guégués às 09:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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