08
Fev 18

Como se escreve por aí

O fato do país

 

      «Também a francesa BVLH começou este ano a produção em Portugal. O número ainda é curto, 10%, mas a ideia é que cresça. A empresa que é, em França, líder na produção de cenoura biológica para todos os grandes grupos de distribuição, quer começar a vender em Portugal uma couve doce (chamada “choudou”), que pode ser comida crua. Além do solo e do clima, Pedro Marques, responsável comercial de exportação, admite que o fato do país ter bons antecedentes no que ao biológico refere, [sic] foi decisivo na escolha» («Verde, cru e comestível», Joana de Sousa Dias, TSF, 8.02.2018, 13h17).

     Ainda cheguei a pensar que houvesse trapalhada ali na escrita do nome da couve, mas os jornalistas nunca se atrapalham nem erram com coisas complexas, apenas com as simples: «o fato do país». Vai roto.

 

[Texto 8712]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «criptomilionário»

Boa acção do dia

 

      «Forbes divulga a primeira lista de criptomilionários. Há nomes bem conhecidos» (Juliana Nogueira Santos, Eco, Economia Online, 7.02.2018). Não é como sucede com os dinossauros, talvez não valha a pena, com o rumo que as criptomoedas estão a ter, dicionarizá-lo. Leiamos agora mais um pouco (embora nos vá fazer mal, já sei) o artigo: «A revista considera ainda que os valores poderão estar fora dos limites ou que haverão, com certeza, milionários esquecidos por esse mundo fora.» Juliana Nogueira Santos, *haverão no futuro e *hão agora mesmo, neste triste presente em que uma jornalista cinca numa porcaria tão simples. «A dar os primeiros passos na área da economia», lê-se no seu perfil. E na área da língua portuguesa?

 

[Texto 8711]

Helder Guégués às 13:36 | comentar | favorito
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Léxico: «mascarilheiro»

Seja artesão

 

      «Filho de pais artesãos, desde miúdo trabalhou a madeira. Carlos Ferreira tem 56 anos e é natural de Sendim, concelho de Miranda do Douro. No ano 2000, ao percorrer o Planalto Mirandês, para um documentário sobre as festas solsticiais, tomou contacto com os rituais de máscaras. “Foi um cruzamento de dados que fez tempestade e comecei logo a fazer máscaras”, conta à Renascença» («Das mãos do mascarilheiro de Sendim saíram mais de meio milhar de máscaras», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 8.02.2018, 10h22).

      Vá lá Carlos Ferreira dizer ao Fisco que é mascarilheiro. São capazes de consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e mandarem o homem dar uma volta. Ou nem lhe respondem, como me fizeram a mim. Temos de fazer qualquer coisa.

 

[Texto 8710]

Helder Guégués às 12:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Recebimento indevido de vantagem»

Agora mais do que nunca

 

      «Os dois juízes desembargadores do Tribunal da Relação de Lisboa estão indiciados por crimes de corrupção/recebimento indevido de vantagens, branqueamento, tráfico de influência e fraude fiscal» («Operação Lex. Juízes Rangel e Galante entram no Supremo para serem ouvidos», Rádio Renascença, 8.02.2018, 10h36).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista alguns destes crimes, o que acho muito bem, mas não todos, o que acho mal. Faltou o recebimento indevido de vantagem. É este mesmo o nomen iuris, a denominação legal, e está previsto no artigo 372.º do Código Penal.

 

[Texto 8709]

Helder Guégués às 12:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Fev 18

Tosão de Ouro

E este não canta

 

      Há, e isto nem deve ser motivo de satisfação, ignorantes em todos os tempos e lugares. Quando, recentemente, Filipe VI fez 50 anos, impôs o colar do Tosão de Ouro à sua filha primogénita, logo o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, veio criticar, porque, no seu fraco juízo, não «es adecuado y es de mal gusto que habiendo millones de ciudadanos que están en situación de pobreza energética y pensionistas que pierden poder adquisitivo, haya algunos que tengan que lamer las pisadas del Monarca y felicitarle el cumpleaños por regalarle un Toisón de Oro de 50.000 euros a una niña de 12 años». Vários erros. Primeiro, o monarca já outorgara a distinção em 2015. Segundo, não é um presente, antes uma distinção concedida pelo rei, depois de ouvido o Conselho de Ministros. Terceiro, custe o que custar, só há 60 colares, que são vitalícios e com a obrigação de devolução quando o agraciado morre. Concretamente este colar que é agora da princesa das Astúrias pertenceu ao seu bisavô João de Borbon e Battenberg.

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista Tosão de Ouro, mas, como tudo, a definição pode ser aprimorada e enriquecida. Diz assim: «ordem de cavalaria, instituída pelo duque de Borgonha, Filipe III, o Bom (1396-1467), por ocasião do seu casamento com D. Isabel de Portugal, filha de D. João I, 1357-1433». Com uns retoquezinhos: «ordem de cavalaria, pertencente à Áustria e a Espanha, instituída em 1429 por Filipe III, dito Filipe, o Bom (1396-1467), duque de Borgonha e conde da Flandres, por ocasião do seu casamento com D. Isabel de Portugal, filha de D. João I (1357-1433); nome da própria insígnia».

 

[Texto 8708] 

Helder Guégués às 11:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito