23
Fev 18

«Put oneself in else’s shoes»

Nem pés nem sapatos: cabeça

 

      Pareço o Emplastro: um português qualquer diz um disparate, e lá estou eu por detrás do fautor. No Portugal em Directo, da Antena 1, Mário Galego foi falar com Alexandre Monteiro, arqueólogo e coordenador do Centro de Arqueologia Náutica do Alentejo Litoral, com sede em Alcácer do Sal. A propósito da descoberta de um biberão... — biberão não, porra, que é galicismo — uma mamadeira, assim é que é, enterrada com um bebé numa sepultura romana, disse o arqueólogo: «Nós aqui nas reservas de Alcácer do Sal temos um biberão romano e quando sabemos que esse biberão foi enterrado juntamente com um bebé que morreu quando tinha cerca de quatro meses de idade, nós conseguimos, se formos pais, pôr-nos nos pés daquela família que resolveu enterrar o bebé com o biberão.» Algum revisor manhoso lhe terá dito certo dia que não se diz «pôr-se nos sapatos dos outros» (como fazem alguns tradutores...), mas sem lhe explicar que não se trocam os sapatos pelos pés. Idiomatismo por idiomatismo: os Ingleses põem-se nos sapatos dos outros; nós, ou nos pomos no lugar ou na pele dos outros.

 

[Texto 8799]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «escamudo-do-alasca»

Acabrunhante

 

      Ao almoço comi uns bons filetes de escamudo-do-alasca (Theragra chalcogramma). Dieta do Paleolítico. Escamudos há muitos, mas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só há um, desifenizado, o mero escamudo, Pollachius virens — «polaco tesudo», em português. Estou a brincar. E a propósito de tesudo, já repararam que a moeda oficial da Putalândia é a rosa? E que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acompanhante vem desacompanhado de uma das acepções mais usadas? Acabrunhante.

 

[Texto 8798]

Helder Guégués às 15:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «tercena»

Trabalhade

 

      Falei aqui uma vez da palavra tercena, ausente ainda hoje do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e sobre as tercenas de Lisboa, acrescento agora, há livros inteiros. «Dom Affonso... a vos Pedreanes gago Alvazil de Lixbõa [...] E porque me disserom que queriam fazer hi casarias sse as hj quizerem fazer trabalhade que sse façam en tal gissa que sseiam as Ruas bem espaçosas que possam as gentes per elas andar e cavalgar ssen enbargo e que leixem grande espaço antre as casas e as taracenas».

 

[Texto 8797]

Helder Guégués às 12:40 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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Léxico: «perícope»

Pode repetir?

 

      Ontem, Dia do Pensamento, não se esqueçam, revi um texto em que se usava a palavra perícope. Ainda que apenas tope com ela de dez em dez anos, nunca deixo de lamentar que os dicionários não a saibam definir exactamente. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. parte de um texto que se destina a ser transcrita, analisada, etc. 2. passagem bíblica seleccionada para leitura, sobretudo litúrgica». A segunda acepção ainda vá que não vá, pese embora o engulho de ver ali «passagem» por «passo», «trecho», excerto», mas a primeira acepção não diz nada. Uma perícope é um trecho com início, meio e fim bem explícitos — um pouco como uma frase, que é uma unidade linguística com sentido completo; a perícope é uma unidade literária. Tanto pode ser um simples versículo (porque normalmente é a propósito da Bíblia que se usa o termo), como um capítulo inteiro. Depois de estudado, esse trecho servirá para diversos fins, entre os quais os litúrgicos. A definição de José Pedro Machado também não é um primor, registe-se.

 

[Texto 8796]

Helder Guégués às 12:38 | comentar | ver comentários (7) | favorito | partilhar

Um erro e um provérbio

Empenho a meio gás

 

      Chegou-me aqui um texto em que um animalzinho dizia — sim, do tempo em que os animais falavam, ou seja, de agora — «oláaaa» a outra criaturinha. Não pode ser, disse eu, pois o acento tem de recair onde é habitual: olaaaá. «— Olaá! — gritou ele com grande esforço no intuito de se fazer entender. — Robinson também está aí?» (O Desaparecido ou Amerika, Franz Kafka. Tradução, notas e posfácio de Susana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004, 2.ª ed., p. 178). Já nos estamos a desviar um pouco, mas o que poderá estar no original diferente de Hallo para a tradutora verter daquela maneira? «“Halloh!” rief er mit größter Anstrengung, um sich verständlich zu machen, “ist Robinson auch da?”» Großartig! Um tradutor menos atreito a matizes destes e ficava «olá». Há dias, a minha filha (como se diz em bom alemão, was ein Häkchen werden will, krümmt sich beizeiten) também me mostrou um caso em que o autor prolongava a sílaba final, mas o til não estava no sítio devido. Enfim, há gente que só toma a peito pormaiores, os pormenores ficam para os outros, menos ocupados.

 

[Texto 8795]

Helder Guégués às 11:57 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «bagacina»

Não está? Não pode ser

 

      «A Alexandrina Guerreiro colocou a máquina fotográfica num muro de pedra vulcânica e corremos para o muro em frente, o que marcava a outra margem do caminho de terra batida, num chão de bagacina e, assim, na vertigem de poucos segundos para a imobilidade feliz, esperámos abraçados, os cinco, ela, o Herlander Rui, o Pedro Pinheiro, o Joel Neto e eu, sentados com o mar em fundo» («Leva-nos à estrada do paraíso», Fernando Alves, TSF, 23.02.2018, 8h53).

      Oh, vergonha, também não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora! Já a conhecíamos de João de Melo: «Por mim, que nasci e cresci sob as faldas do Pico da Vara, elejo desde já a paisagem das Sete Lombas como a mais bela de uma ilha por achar: ilha do segredo, do sonho, da utopia, ilha dos caminhos que nos levam por miradouros floridos e escrupulosamente limpos, com chão de bagacina e sempre de varanda sobre o mar do Nordeste» (Açores. O Segredo das Ilhas. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2016).

 

[Texto 8794]

Helder Guégués às 10:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «renúncia quaresmal»

Está no meu dicionário

 

      «As dioceses católicas portuguesas vão destinar as renúncias quaresmais a apoiar diversos projetos internos, recordando também as vítimas dos incêndios de 2017, e de ajuda a países de África e Médio Oriente, com destaque para o apoio aos cristãos perseguidos. [...] A renúncia quaresmal é uma prática proposta pela Igreja Católica em que os fiéis abdicam da compra de bens adquiridos habitualmente noutras épocas do ano» («Renúncias quaresmais apoiam projetos em Portugal, África, Ásia e Médio Oriente», Ecclesia/Rádio Renascença, 21.02.2018).

 

[Texto 8793]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | favorito | partilhar
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23
Fev 18

Tradução: «background checks»

Não avançamos

 

      «Tendo em conta as propostas avançadas até agora pela Casa Branca e por alguns congressistas do Partido Republicano, conclui-se que a NRA continua sem grandes razões para se preocupar: armar e treinar professores e reforçar os chamados “background checks” são medidas apoiadas pelo lobby das armas; mexer na idade mínima para a compra de armas e na proibição de acessórios são medidas que dificilmente passam no Congresso — e, se passarem, são candidatas a serem contestadas em tribunal ano após ano» («De proposta em proposta até à decisão que não incomode a NRA», Alexandre Martins, Público, 23.02.2018, p. 26).

      Vá, leitor parvo, agora vai ver o que significa background checks, terá pensado o jornalista. E ontem, dia 22 de Fevereiro, era Dia do Pensamento. Mas não cá, claro, nos Estados Unidos. E ninguém vê estas coisas, não há um editor que corrija isto? Como raio vai o leitor saber, assim do pé para a mão, o que significa a expressão? Não; para mim, quem não sabe traduzi-la é o jornalista, quando, na verdade, é bem simples: verificação de antecedentes. Se querem exibir-se, até podem usar expressões estrangeiras, mas têm de as explicar, de as traduzir logo de seguida, sob pena de não se fazerem entender. Ou é este o objectivo?

 

[Texto 8792]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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