27
Fev 18

Léxico: «destroçador»

Ficamos destroçados

 

      «Já em Lordelo a equipa da GNR é despertada pelo barulho de máquinas num terreno à beira da estrada. Os dois militares saem da viatura e são recebidos por José Ferreira, 57 anos, que anda a “destroçar o mato com a ajuda de um trator que tem acoplado um destroçador”» («Dos “bitaites na televisão” à realidade. Renascença com a GNR em fiscalização de limpeza de matas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 27.02.2018).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que não tem alfaias destas. Ao que sei, há destroçadores de resíduos verdes e de madeira e destroçadores de pedra. Há alguns, com braço descentrável, especificamente para limpar bermas da estrada. Nunca fizeram tanta falta em Portugal.

 

[Texto 8821] 

Helder Guégués às 22:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «arralar»

E como sabemos?

 

      «“Há aqui algumas [árvores] que vão ter que ser arraladas, porque a distância entre copas é de quatro metros e vemos ali aquele caso, por exemplo, em que os pinheiros estão muito juntos”, informa o militar [primeiro-sargento Mendes da GNR], acrescentando que “agora estamos a fazer a sensibilização, a partir de 15 de março começamos com a fiscalização”» («Dos “bitaites na televisão” à realidade. Renascença com a GNR em fiscalização de limpeza de matas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 27.02.2018).

      Na Infopédia, só aparece no Dicionário de Verbos Portugueses. Pois, pois... e então o que significa, ó Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Nos Contos de Miguel Torga, também nos aparece «o Joaquim Fortunato, no lameiro, a arralar milhão». Em castelhano existe este verbo, mas intransitivo, com o sentido de tornar-se ralo, perder densidade. Virá desta língua?

 

[Texto 8820]

Helder Guégués às 22:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pato-de-rabo-alçado»

É mesmo raro

 

      «Segundo a acusação deste processo em Tondela, na noite de 19 para 20 de junho de 2014, o arguido furtou aves no valor total de mais de 5.500 euros, entre as quais patos de rabo alçado (uma espécie protegida), levando-as depois para a sua quinta em Arouca. A maioria das aves viria a ser apreendida a 6 de novembro do mesmo ano, pela GNR» («Pedro Dias negou em tribunal ter furtado aves em Tondela», Rádio Renascença, 27.02.2018, 15h03).

     O pato-de-rabo-alçado (Oxyura leucocephala) é uma espécie rara em Portugal — tão rara, na verdade, que não o encontram no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8819]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «(re)naturalização»

Não é natural

 

      «A Pólis, que tem a seu cargo o processo de “renaturalização” das ilhas-barreira da Ria Formosa e procedeu, desde 2014, à demolição de habitações de segunda residência e em zona de domínio público nos diversos núcleos habitacionais, tinha notificado os proprietários de 22 novas edificações a 13 de janeiro tendo agendado para hoje a posse a administrativa das mesmas, numa operação com início marcado para as 9h00, segundo fonte da capitania de Olhão» («Ria Formosa. Polícia acompanha tomada de posse de oito casas para demolir», Rádio Renascença, 27.02.2018, 9h58).

    Os jornalistas e as aspas — um caso de estudo. Mas adiante. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista este sentido de naturalização nem renaturalização, isto quando este último é muito usado a propósito da recuperação das características iniciais ou prévias de linhas de água. Será necessária outra encíclica ecológica para se falar disto?

 

[Texto 8818]

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dicionários e algoritmos

Para ser perfeito

 

      «A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e o Laboratório de Inteligência Artificial e Ciência dos Computadores da Universidade do Porto vão desenvolver um novo método com base em algoritmos para ter mais sucesso nas ações de fiscalização» («ASAE desenvolve algoritmos para apanhar mais empresas», Judith Menezes e Sousa e Nuno Guedes, TSF, 27.02.2018, 6h42).

      Esta é a acepção informática do conceito de algoritmo, que não difere assim tanto do conceito inicial da matemática. Com o advento da era computacional, o conceito foi ligeiramente alargado, mas no cerne está o mesmo: um connjunto de procedimentos, uma receita, se quiserem, para chegar a determinado resultado. Quem é que, mesmo consultando os dicionários, suspeita sequer do que está por detrás? Ninguém. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, e os outros dizem o mesmo, diz-nos que vem «do latim medieval algorithmu-, “algoritmo”, pelo inglês algorithm, “idem”». Contudo, a história é muito mais rica e complexa. Na origem está, na realidade, o nome de um matemático persa do século IX, Abu Jafar Mohammed Ibn Musa al-Khowarizmi. Daqui chegou-se ao termo «algorismo», que, no século XVIII, passou a «algoritmo».

      É um algoritmo, por exemplo, no caso, algoritmo de busca, o que está por detrás de uma busca num dicionário em linha, como o da Porto Editora. Este, para ser não bom, mas perfeito, devia permitir que, ao pesquisar-se qualquer termo contido nele, independentemente de ser um verbete ou fazer parte de uma definição, nos devolver um resultado. Exemplifiquemos com as minhas últimas contribuições para este dicionário. Imagine-se que alguém encontra num livro que está a traduzir o nome científico Chlamydoselachus anguineus. A busca no dicionário servirá (daí a minha insistência na importância disto) para encontrar o nome comum em português. Ora, só há três formas de chegar a alguma conclusão: pesquisar por «Chlamydoselachus anguineus», por «Chlamydoselachus» ou por «anguineus». Actualmente, tal como o dicionário está, não se obtém nenhum resultado. Não devia ser assim, pois os termos estão no dicionário. Talvez o Laboratório de Inteligência Artificial e Ciência dos Computadores da Universidade do Porto pudesse encontrar a solução — o algoritmo.

 

[Texto 8817]

Helder Guégués às 10:48 | comentar | favorito
27
Fev 18

Avisos meteorológicos

Todos os avisos

 

      «Há, por isso, aviso laranja para a costa ocidental, entre as 18h00 de quarta-feira e as 21h00 de quinta-feira. Na costa sul algarvia, há aviso da mesma cor entre as 3h00 e as 15h00 de quinta-feira» («Neve, chuva e ondas até 14 metros. O panorama para os próximos dias», Rádio Renascença, 27.02.2018, 7h11).

      Quem é que sabe sequer as várias cores dos avisos? Quanto ao significado, é melhor nem falar. E onde é que se espera encontrar o significado? Nos dicionários, até porque são conceitos que não mudam sem aviso, de hoje para amanhã. E, se forem alterados, os dicionários não estão escritos na pedra. Compete ao IPMA, como se sabe, assegurar a vigilância meteorológica e emitir avisos meteorológicos, que se apresentam por cores. No aviso cinzento, a informação está em actualização; se é verde, não se prevê nenhuma situação meteorológica de risco; se é amarelo, a situação é de risco para determinadas actividades dependentes da situação meteorológica; se é laranja, então a situação meteorológica é de risco moderado a elevado; se é, por fim, vermelho, é de risco extremo. Serviço público era os dicionários registarem isto.

 

[Texto 8816]

Helder Guégués às 08:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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