02
Mar 18

Léxico: «pinguim-de-adélia»

Mais pinguins

 

      «Mais de 1,5 milhões de pinguins Adélie foram descobertos em colónias isoladas pelo gelo num arquipélago da Antártida, um número muito superior ao que se julgava existir, segundo um estudo publicado esta sexta-feira na revista Scientific Reports» («Glaciares antárticos “escondem” 1,5 milhões de pinguins», TSF, 2.03.2018, 12h55).

       O jornalista da Lusa não sabe que em português se diz pinguim-de-adélia (Pygoscelis adeliae), termo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista. Acolhe apenas o pinguim-imperador, mas falta-lhe o nome científico, Aptenodytes forsteri.

 

[Texto 8846]

Helder Guégués às 15:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «gringo»

O sabotador da Rua da Restauração

 

      Ainda sou bafejado com estas conjunções: já esta semana, a minha filha estava a ler um livro quando encontrou a palavra «gringo». Perguntou-me o que significava, ao que eu respondi brevemente, até porque não há muito para dizer. Ou há? É o que veremos. Hoje, ao folhear distraidamente o Almanaque Comboniano para 2018, encontrei isto: «A palavra “gringo” é usada pelos Mexicanos para se referirem de forma depreciativa aos Americanos. Durante a guerra com o México (1845-47), os soldados norte-americanos invasores cantavam a canção Green grow the lilacs (verdes crescem os lilases). Daí proveio a palavra gringo com que os Mexicanos baptizaram os Americanos...» Há, como acontece frequentemente com estas etimologias, outras versões, o que, para o caso, pouco interessa. Agora vejam o que se escreve sobre gringo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Brasil depreciativo indivíduo estrangeiro». Brasileirismo, «gringo»? O sabotador deixou um rasto inapagável. Conselho de amigo: analisem todos os verbetes em que aparece a palavra «brasileirismo».

 

[Texto 8845]

Helder Guégués às 15:10 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar

Capacetes

É outra linguagem

 

      «Jantar solidário quer ajudar Capacetes Brancos na Síria» (Rádio Renascença, 2.03.2018, 9h16). É a Força Civil Síria, voluntários que prestam primeiros socorros aos feridos, composta por «professores, engenheiros, bombeiros, alfaiates, estudantes», como lembra, no Sol, Ricardo Cabral Fernandes. Como a guerra na Síria se eterniza, até podia ir, preventivamente, para os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, como quase todos, capacete-azul, «militar ao serviço da Organização das Nações Unidas».

      «Esquece essa água turva do que lês na Net», aconselha Carlão em Water, de Richie Campbell, mas foi precisamente na Internet que acabei de ler um texto sobre o significado das cores dos capacetes na construção civil no Brasil. Não sabia, e gostava de saber se em Portugal também é assim. Não me palpita, cá é mais ao deus-dará. Alguém sabe?

 

[Texto 8844]

Helder Guégués às 13:09 | comentar | favorito | partilhar
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Ortografia: «insulinodependente»

Falta de dicionários?

 

      «Até agora, a doença é divida em dois tipos. A diabetes de tipo 1 surge maioritariamente na infância e é também conhecida como Diabetes Insulino-Dependente, enquanto a de tipo 2, mais comum, é diagnosticada normalmente na idade adulta e causada por um desequilíbrio no metabolismo da insulina. [...] A investigação propõe cinco tipos de diabetes — as análises mostram diferenças genéticas em cada grupo» («Afinal, há cinco tipos de diabetes», Joana Carvalho Reis, TSF, 2.03.2018, 8h21).

      A jornalista Joana Carvalho Reis não frequenta dicionários, ou saberia que se escreve insulinodependente. Creio que no Brasil não se usam os termos «insulinodependência» e «insulinodependente». Em contrapartida, embora se usem cá, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista os vocábulos «insulinorresistência» e «insulinorresistente».

 

[Texto 8843]

Helder Guégués às 10:52 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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Léxico: «barra de estado»

Tem o mesmo direito

 

      Quanto a barra, no domínio da informática, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «barra de deslocamento», «barra de ferramentas» e «barra de menus». Falta, pelo menos, uma que estamos a ver constantemente — a barra de estado nos telemóveis (ver aqui a descrição dos símbolos em relação ao iPhone) e nos programas informáticos. Assistematicidade.

 

[Texto 8842]

Helder Guégués às 10:51 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «micromorte»

Agora em português

 

      Na Informação (In)útil de hoje, na TSF, Nuno Miguel Martins falou do conceito de micromorte: «A micromorte é uma unidade que define o risco de morte de cada actividade com base em dados estatísticos. A micromorte corresponde a uma probabilidade num milhão de morrer ao fazer determinada actividade. Assim, correr uma maratona são 7 micromortes, fazer pára-quedismo 10 e escalar o monte Evereste 40 000 micromortes.» E a quantas micromortes corresponderá ver erros de cair para o lado? O termo vem do inglês micromort (de micro- e mortality), que é o título que deu Nuno Miguel Martins ao seu apontamento, mas o aportuguesamento «micromorte» já corre por aí.

 

[Texto 8841]

Helder Guégués às 10:27 | comentar | favorito | partilhar
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02
Mar 18

Léxico: «salicórnia»

Muito para corrigir

 

      «Crescer sim, mas de forma sustentável e sem grandes riscos. O aumento da produção de ‘salicornia ramosissima’, espécie halófita autótone conhecida vulgarmente como salicórnia, tem vindo a ser amadurecido para dar resposta às crescentes encomendas, incluindo do estrangeiro» («Sabe que planta é carnuda, crocante e com sabor a mar?», Júlio Almeida, Rádio Renascença, 1.03.2018, 11h09).

      O nome científico é Salicornia ramosissima, mas Júlio Almeida não estudou bem a matéria nem sabia que ia ser hoje submetido a exame. Adiante: «Utilizada até nas ementas dos navegadores dos Descobrimentos de acordo com alguns registos, a salicórnia, apesar da intensidade do sabor a sal, tem muito menos cloreto de sódio (considerado “um veneno” para a saúde), sendo também famosa pelas propriedades anti-oxidantes [sic] e anti-inflamatórias, entre outras caraterísticas [sic] medicinais.» Mais: «Instalada na incubadora de Ílhavo, a Horta da Ria não só cultiva a planta como trabalha na sua transformação e comercialização, contando com as gamas salicórnia fresca/verde, em pó (o chamado “sal verde”) e em conserva. Também vende de sementes, para quem quiser ter a salicórnia em casa num vaso.» Agora vejamos a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «BOTÂNICA erva da família das Quenopodiáceas, com caule grosso, que vive perto de água salgada; espargo-do-mar; sal verde». Este dicionário não nos diz que é uma planta halófita; pior, nem sequer, incrivelmente, regista o vocábulo halófita. E, como lembra o jornalista, à salicórnia em pó dá-se o nome de sal verde — não a toda a salicórnia, como está na definição do dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 8840]

Helder Guégués às 08:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar