13
Mar 18

Léxico: «emantação»

É de estranhar

 

      O autor traduziu, e parece-me bem, immantation por «emantação». Sabem o que é immantation, caros leitores? Cuidado com o nariz. «The investiture of a newly elected pope with the mantum, a papal vestment consisting of a long red or purple cope [cappa rubea], as part of the coronation ceremony», lê-se nos English Oxford Living Dictionaries. Ora, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o verbo emantar, «cobrir com manta», que vem do verbo latino immantare, vestir com um manto. Ou seja, emantar devia significar tanto «cobrir com manta» como «cobrir com manto». Como termo específico — não é Portugal um país ainda predominantemente católico? —, emantação devia estar nos dicionários. Porque, meus amigos, usa-se quando é necessário.

 

[Texto 8912]

Helder Guégués às 22:10 | comentar | favorito
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Léxico: «febrícula»

Só isso?

 

      «Segundo aquela unidade de saúde, “esta manhã (terça-feira, 13 de março de 2018) alguns profissionais do Hospital de Santo António, jovens adultos, apresentaram sintomas e sinais clínicos, de início agudo, incluindo exantema (rubor) cutâneo, febrícula (apenas alguns), mialgias e cansaço”» («Funcionário do Hospital de Santo António internado por suspeita de sarampo», Rádio Renascença, 13.03.2018, 19h41).

      Não me parece mal que, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, febrícula seja somente «febre ligeira». O que me parece insuficiente, quando não incorrecto, é que para o Dicionário de Termos Médicos não passe de «febre pouco elevada». Ligeira, pouco elevada, sim, mas até quantos graus ainda é apenas febrícula e não febre? E durante durante quanto tempo: uma hora, meio dia, dois dias? Tem de haver na definição algo minimamente rigoroso, carreado pela medicina, não mera etimologia.

 

[Texto 8911]

Helder Guégués às 21:12 | comentar | favorito

Um recurso desprezado

Mal empregado

 

      «O funeral de Gabriel, conhecido como “Pescaito” (pequeno peixe), realizou-se esta terça-feira, em Almeria, uma cerimónia acompanhada por centenas de pessoas e marcada por grande comoção» («Espanha em choque. Madrasta confessa assassinato de menino», Rádio Renascença, 13.03.2018, 15h00).

    É lamentável como certos, demasiados, tradutores e jornalistas desperdiçam um recurso tão peculiar da nossa língua como é o diminutivo. Para começar, é Pescaíto. Para nós, será então Peixinho.

      Outro exemplo, para a matéria ficar bem apreendida: «“Short Girl” (traduzido à letra, “rapariga pequena”) é impedida de brincar por causa da sua estatura. A situação é descrita num vídeo de pouco mais de quatro minutos, que contribuiu para que os alunos de Religião e Moral da Escola Dr. Ferrer Correia, em Miranda do Corvo, pudessem alcançar o segundo prémio num projeto europeu» («Prémio para alunos de Religião e Moral “é prova de que a disciplina é importante”», Rádio Renascença, Liliana Carona, 12.03.2018, 19h25).

 

[Texto 8910]

Helder Guégués às 20:33 | comentar | favorito
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Tradução: «visiting scholar»

Ainda mais surpreendente

 

      «O semanário Sol noticiou no sábado que Feliciano Barreiras Duarte teve de retificar o currículo académico para retirar o item que o indicava como professor convidado (visiting scholar) na Universidade de Berkeley, na Califórnia, Estados Unidos» («PGR abre inquérito a Barreiras Duarte, secretário-geral do PSD», TSF, 13.03.2018, 17h28).

      Era uma boa oportunidade para nos darem uma tradução, que nem em todos os dicionários encontramos, de visiting scholar — transformaram-na numa inigualável oportunidade para estarem calados. Desde quando é que a expressão se traduz por «professor convidado»? Um visiting scholar nem sequer é um professor! A tradução automática do Google anda mais perto. Por outro lado, e tão mau como o que fica ali para trás, não existe nenhuma «Universidade de Berkeley»! O que existe — vejam, senhores jornalistas, se são capazes de discernir a diferença — é a University of California, Berkeley. Universidade da Califórnia em Berkeley. Apre! As notícias deviam ser obrigatoriamente assinadas, estou convencido de que contribuiria para aumentar a qualidade dos artigos. E também falta — acho que se nota bem — revisão na Lusa, nos jornais, na televisão e na rádio.

 

[Texto 8909]

Helder Guégués às 19:01 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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13
Mar 18

«Nacionalismo/patriotismo»

Surpreendente

 

      A edição de hoje do Público traz um texto, no âmbito do direito de resposta, de Eurico Figueiredo, professor catedrático jubilado da Universidade do Porto, em relação a uma crónica em que Rui Tavares zurzira um texto assinado pelos catedráticos Eurico Figueiredo, Fernando Condesso, José Adelino Maltez e o professor associado Carlos Fraga e no qual, na opinião do fundador do Livre, deturparam as suas palavras. Confuso? Talvez. No direito de resposta, Eurico Figueiredo centra a sua argumentação em demonstrar, recorrendo a dicionários e à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, que nacionalismo e patriotismo são sinónimos. Não citou o nosso estimado Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, valha a verdade, regista o mesmo para «nacionalismo»: «preferência pelo que é próprio da nação a que se pertence; patriotismo». Este, porém, é o significado geral, e, como acontece em inúmeros outros casos, o que está para lá do ponto-e-vírgula não é verdadeiramente sinónimo, mas um conceito aproximado. Não por acaso, este e outros dicionários têm no mesmo verbete uma definição mais especializada, no domínio da política. Reparou Eurico Figueiredo neste pormenor? Mas este catedrático não se ficou por aqui: «Finalmente, procuramos no mais moderno dicionário de sinónimos da Internet: encontramos, como sinónimo de nacionalista, patriota. Como antónimo, antipatriota.» Que misterioso dicionário de sinónimos é este? Um primor que nem merece nome. Diz mais: «É certo que como reação ao salazarismo, nacionalista de direita e antidemocrático, preferimos “patriotismo” ao “nacionalismo”. O que também afirmamos no artigo referido que Rui Tavares denigre no seu artigo do PÚBLICO, com o título chocalheiro: “Com estimas destas, ninguém precisa de estigmas”.» Será mesmo «chocalheiro» o termo certo? Vamos aos dicionários, neste caso, ao dicionário da Porto Editora: Chocalheiro: «1. que chocalha; 2. que usa chocalho; 3. figurado indiscreto; linguareiro». Um título indiscreto, linguareiro? Podia ser, mas não me parece. Chocarreiro: «que ou o que diz chocarrices; que ou o que diz ditos jocosos ou atrevidos; chalaceador». O que demonstra tudo isto? Pouca prática no uso dos dicionários e da língua. Sobre os erros e a surpreendente debilidade argumentativa de todo o texto, e não apenas dos excertos aqui reproduzidos, não me ouvirão uma palavrinha.

 

[Texto 8908] 

Helder Guégués às 11:04 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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