14
Mar 18

Léxico: «fano/fanhão»

Desaparecem todas

 

      Porque se usam, em muitos casos, termos estrangeiros quando temos equivalente? Porque não se encontram nos dicionários. Por exemplo, este autor português usa fanon, que é a veste, espécie de capa, reservada ao papa para uso na missa do pontífice, porque, provavelmente, não encontrou o termo português nos nossos dicionários — fano ou fanhão. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo «fano», sim, mas noutra acepção: «antiquado templo; lugar consagrado». E já que falamos de vestes reservadas ao papa, onde está o subcíngulo ou subcintório nos dicionários? Relacionadas com a religião católica, se me dessem uma semana, não encontraria menos de três centenas de palavras ou acepções não registadas nos nossos dicionários actuais.

 

[Texto 8919]

Helder Guégués às 20:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Protocanónico/deuterocanónico

Como tudo, melhorável

 

      Como acontece com inúmeros conceitos, a compreensão total do termo «protocanónico» só será atingida se se conhecer também o par, «deuterocanónico». A primeira falha dos dicionários começa aqui. Devia haver uma remissão mútua, por meio de um símbolo qualquer. Em protocanónico, indicar-se-á ➚deuterocanónico; em deuterocanónico, ➚protocanónico. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, protocanónico, adjectivo, é o «designativo dos livros da Bíblia cuja origem divina foi sempre admitida pela Igreja»; deuterocanónico, por sua vez, já é adjectivo e nome masculino e significa «que ou livro da Sagrada Escritura que foi incluído só num segundo elenco dos livros que são considerados inspirados por Deus». Quem consultar este verbete não vai ficar a saber muito sobre a questão, isso é inequívoco. Pode fazer-se muito melhor. Compare-se com a definição da Enciclopédia Católica Popular: «São os livros do AT e do NT cuja inclusão definitiva (Conc. de Trento) no cânone dos livros inspirados da Bíblia se fez depois dos livros protocanónicos, por não figurarem na Bíblia judaica ou sobre eles recaírem dúvidas quanto à inspiração. Os protestantes chamam-lhes (incorrectamente) *apócrifos, e em geral recusam os d. do AT. V. Bíblia (Cânone).» Partindo desta, chegar-se-á a uma definição mais breve e depurada, mas clara, informativa.

 

[Texto 8918]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

As carpideiras do Facebook

É por isso que gosto de latim

 

      Não sei se os nossos lexicógrafos sabem que, no Brasil, carpideira, além de pessoa a quem se paga para chorar os defuntos durante os funerais (hired mourner, para a legião de anglófonos que nos segue), também designa uma alfaia, a capinadeira, talvez pela semelhança de sons. Há carpideiras — e não percebo porque não se pode dizer «carpideiro» — desde, sei lá, a Antiga Grécia. A estas, que eram pagas, sucederam outras, e sobretudo outros (e por isso a necessidade do «carpideiro»), que se atropelam para vir depor, gratuitamente, nas caixas de comentário de jornais e rádios o seu «RIP» ou «descanse em paz». Por vezes, uma alma mais lacrimosa manda mesmo os pêsames à família, letã ou melanésia que seja, como se conhecessem o defunto de toda a vida. Normalmente sem pontuação, mas sem outros erros, porque em RIP (que, se virem por extenso, requiescat in pace, já olham como boi para palácio) não cabem muitos erros. Já em «descanse em paz» cabe um mundo de possibilidades que eles, descendentes dos navegadores, exploram largamente: «descance em paz», «descançe em paz», «deskanse em paz», «descanse em pas», «descanse en paz», «desquanse em paz»... Descanse. Descanso.

 

[Texto 8917]

Helder Guégués às 12:46 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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Região das Marcas

Isso é português?

 

      «As autoridades da cidade de Fano, na região de Las Marcas, procederam à retirada de 23 mil habitantes do centro histórico, depois de ser encontrada uma bomba durante umas obras em curso» («Pessoas retiradas de cidade italiana devido a bomba da Segunda Guerra Mundial», TSF, 13.03.2018, 23h13).

      Porquê «Las Marcas»? E, como veio da Lusa, está assim em todos os lados. Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é, sem surpresa, região das Marcas que se lê.

 

[Texto 8916]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «obras vivas/obras mortas»

País de navegadores...

 

      «“O navio tem, em primeiro lugar, que desencalhar e se isto acontecer será então rebocado para o porto de Lisboa. Irá atracar e será alvo de inspeção, sobretudo do que chamamos obras vivas, que é toda a área que está abaixo da linha da água, da parte exterior do navio”, explica Fernando Pereira da Fonseca [porta-voz da Autoridade Marítima Nacional]» («Navio espanhol “já saiu da posição” mas ainda precisa do rebocador», Rádio Renascença, 14.03.2018, 8h07).

      Está explicado. Contrapõem-se às obras mortas, ou superestruturas, que correspondem às estruturas existentes nos conveses. Só é de estranhar que, num país de navegadores, os dicionários não registem estas expressões, que afinal, quando calha, vêm até nos jornais.

 

[Texto 8915]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Léxico: «trem de reboque»

Afinal, não será novo Tollan

 

      «As operações vão, por isso, prolongar-se durante o dia de hoje. “O rebocador vai manter o trem de reboque ligado e com alguma tensão, voltando a aumentar a força de tração a partir das 11h30” e “temos também previsto que ocorra a próxima preia-mar por volta das 13h00”, adianta o comandante da Autoridade Marítima» («Navio espanhol “já saiu da posição” mas ainda precisa do rebocador», Rádio Renascença, 14.03.2018, 8h07).

      No contexto, são claramente os meios de ligação entre rebocador e rebocado, mas, como termo legal, no âmbito do contrato de reboque, trem de reboque é a designação que se dá ao conjunto formado por rebocador e rebocado durante a execução do contrato.

 

[Texto 8914]

Helder Guégués às 09:05 | comentar | favorito | partilhar
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14
Mar 18

ISCSP — isquecepu?

A experiência

 

      «Vem este arrazoado todo à liça porque ia escrever sobre a imbecilidade dos que se afligiram com a ida de Passos para o ISCSP – e agora não me queria enganar na sigla para ser como aqueles que dizem isquepe, ou isquecepu numa versão mais saudosista da nossa administração colonial, seja lá porque motivo for, sendo certo que ISCSP, depois de Expo, IKEA e wi-fi, é a coisa que tem mais pronúncias alternativas – mas já disseram tudo o que eu ia dizer sobre o caso, e melhor, o Carlos Reis no Facebook (trazendo John Major e Delors à baila) e o João Miguel Tavares no Público realçando que todas as reações são reações de ódio a Passos» («Porto Aero», João Taborda da Gama, Diário de Notícias, 11.03.2018, p. 56).

      Nunca antes presenciara hesitações na pronúncia do que me parecia uma sigla, mas eis que, no sábado, João Taborda da Gama me veio desassossegar. Estranhei, mas também me limitei a encolher os ombros. Precisava, eu bem sabia, de pegar num indígena e fazê-lo pronunciar a palavra. Não foi preciso violentar nenhuma criatura, pois a Providência, às 17h17 de ontem, pela boca de uma jornalista da Antena 1, proporcionou-me a experiência. Ora bem, a jornalista apresentou o entrevistado, Marcos Farias Ferreira, «especialista em Rússia», e lançou — cuspiu, diria — um «isquecepu», mas com uma hesitação lá pelo meio. Portanto, não durou muito tempo aquele meu encolher de ombros: há mesmo falantes que vêem em ISCSP, não uma sigla, mas um acrónimo. Só no fim, ai estas cabeças, é que se lembrou de desdobrar a sigla o acrónimo, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Assim, se um dia destes ouvir alguém falar no Febi, já saberei que se refere à agência de segurança norte-americana, ou se falarem no Axe, também não me escapará, pese a subtileza, que se refere à antiga Alta Autoridade para a Comunicação Social. A propósito: na definição de sigla, bem pode o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora actualizar os exemplos, estes mesmos FBI e AACS, pois esta última é uma entidade extinta em 2005, tendo sido criada na mesma data a ERC, ou será a Erque?

 

[Texto 8913]

Helder Guégués às 08:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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