30
Mar 18
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Mar 18

Léxico: «casa de fresco»

Um país sem emenda

 

      «Quem mandou erguer a torre, e mais dois edifícios singulares na cidade — Ermida do Senhor do Bonfim e um solar para habitação — foi o juiz-desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel. A iniciativa, diz Horta Correia, “representou uma afirmação de poder”. A construção foi confiada ao mestre pedreiro e escultor Diogo Tavares. Já no século XX, em 1919, a família Ramalho Ortigão desenvolveu um projecto urbanístico nesta quinta, em cujo solo agrícola plantaram casas. A torre, que terá sido uma “casa de fresco” para o juiz gozar da brisa marítima, nos dias quentes de Verão, foi depois usada como celeiro» («Caiu o tecto do edifício que imita a Torre dos Ventos de Atenas», Idálio Revez, Público, 30.03.2018, p. 18).

      Deixam ruir edifícios emblemáticos, únicos, tudo pela ganância, como deixam fora dos dicionários vocábulos e expressões por simples incúria.

 

[Texto 8983]

Helder Guégués às 20:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mar 18

Léxico: «draisiana/dresina»

Já são nossas

 

      «— Conto ir, minha amiga, desde que não me mandem subir para cima da draisiana» (A Marquesa de Alorna — Do Cativeiro de Chelas à Corte de Viena, Maria João Lopo de Carvalho. Alfragide: Oficina do Livro, 6.ª ed., 2012, p. 597).

      Pois é, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem draisiana nem dresina, e estão ambas, por exemplo, no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 8982]

Helder Guégués às 21:16 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Mar 18

Léxico: «cachafrito»

Um pouco de memória

 

      «Nos restaurantes da vila e das redondezas surgem na ementa pratos regionais com designações que remetem para a origem de tais pitéus: cachafrito, carne de cabrito frita na frigideira; sarapatel, à base de sangue de cabrito ou de borrego cozido, das fessuras [sic], as miudezas do animal, pão alentejano e ervas aromáticas ou perna de borrego assada no forno» («Páscoa saborosa em Castelo de Vide», António Catarino, TSF, 28.03.2018, 13h07).

      Mais uma que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista. O cachafrito é típico do Alto Alentejo. Há-o de várias carnes, mas o que eu conheço bem é o de coelho. No fundo, era uma forma de conservar a carne por muito tempo, pois consistia em guardar o coelho cozido e levemente temperado com cebola num pote de banha. Na altura de se usar, tirava-se da banha e era frito. Havia pessoas que o punham em latas que mandavam soldar a um latoeiro para enviar por correio para o estrangeiro, para um filho ou alguém da família. Provavelmente, também o faziam durante a Guerra do Ultramar. Ainda é pitéu, como se vê, que se pode encontrar em alguns restaurantes, mas falta guardá-lo nos dicionários.

 

[Texto 8981]

Helder Guégués às 17:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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28
Mar 18

Tradução: «colomba»

Começa aí o caminho

 

    Mas porque não melhoram os dicionários bilingues, santo Deus? «Papa. A Páscoa “não acaba com o folar, os ovos e as festas, começa aí o caminho”» (Rádio Renascença, 28.03.2018, 12h49). Quem é que, minimamente curioso, não vai logo, logo querer saber que palavra italiana foi traduzida por «folar»? O Papa Francisco disse hoje que o Tríduo não acaba «con la colomba, con le uova, con le feste». Contudo, o Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora diz-nos que colomba significa «pomba», e nada mais. Mas não, colomba também é o «dolce la cui forma richiama quella d’una colomba ad ali spiegate: è fatto di pan dolce e viene preparato (anche industrialmente) soprattutto in occasione della Pasqua» (in Treccani).

 

[Texto 8980]

Helder Guégués às 23:29 | comentar | favorito

Léxico: «carquejeiro»

Redimam-se

 

      «Arminda Santos teve contacto com a vida das carquejeiras quase quatro décadas depois do seu desaparecimento. As horas de trabalho que passou, em tempos, junto à marginal do Douro, no Porto, confrontaram-na com uma realidade que já não existia, mas estava bem presente» («Carquejeiras, mulheres de ferro que o Porto não quer esquecer», Sónia Santos Silva, TSF, 28.03.2018, 20h46).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe carquejeiro, pudera, mas, carago!, que pobre homenagem: «aquele que apanha ou vende carqueja». Até pode acontecer, digo eu, que nem sequer houvesse carquejeiros, ou muito poucos, mas a lógica dos dicionários é esta, e quanto a isso não podemos fazer nada. Porque não registar que era profissão que se pode considerar própria da cidade do Porto? Como é que aquelas mulheres, mesmo grávidas, andavam, descalças ou com alpargatas, por calçadas íngremes debaixo de carretos com mais de 50 quilos? Sobre-humano. Tal como as carrejonas. Vá, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apura-te, ninguém levará a mal, bem pelo contrário.

 

[Texto 8979]

Helder Guégués às 23:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «lagostim-de-água-doce»

Só falta um Lvchi Venere

 

      Hoje comi uns bons lagostins-de-água-doce (Procambarus clarkii) vindos de Hubei, na China. Meu Deus, até já alimentos destes vêm da China! Está claro que o meu próximo automóvel eléctrico também há-de vir de lá. Para já, um só Lvchi Venere parece-me melhor do que meia dúzia de Teslas Model 3. Ah, sim, voltando ao crustáceo: infelizmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista um sinónimo, lagostim-vermelho-do-luisiana.

 

[Texto 8978]

Helder Guégués às 22:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Mar 18

Léxico: «sala de consumo assistido»

Para não haver quem não saiba

 

      «As salas de consumo assistido de Lisboa, conhecidas como salas de chuto, vão incluir cuidados de higiene, de alimentação e valências de enfermagem. O anúncio foi feito pelo vereador Ricardo Robles» («Lisboa. Salas de chuto vão ter cuidados de higiene, alimentação e rastreios», Rádio Renascença, 28.03.2018, 8h50).

      Todos ganharíamos se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista casa/sala de chuto («local apetrechado com as condições necessárias para os toxicodependentes se injectarem em segurança, obedecendo aos padrões de higiene e saúde pública»), acrescentasse esta forma oficial e eufemística.

 

[Texto 8977]

Helder Guégués às 22:16 | comentar | favorito
27
Mar 18
27
Mar 18

Léxico: «sorpasso»

Não nos deixemos ultrapassar

 

      «Vamos supor que o CDS consegue chegar aos resultados de 2011 ou mesmo um pouco mais – por exemplo, 750 mil votos. Mesmo com este resultado absolutamente otimista e sem nenhum fundamento nos estudos de opinião conhecidos, não há sorpasso nenhum (deixando o PSD próximo dos 1,2 milhões de votos, o pior resultado da sua história)» («Estado da direita (I): o sorpasso do CDS», Nuno Garoupa, Diário de Notícias, 27.03.2018, p. 2).

      Até podia estar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como estrangeirismo, evidentemente. E esta acepção não devia faltar no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora, mas falta. Não significa mais do que ultrapassagem, superação, mas usa-se em análise política e em economia. Nas eleições italianas de 1976, o Partido Comunista, conduzido por Enrico Berlinguer, parecia ter condições para se tornar a primeira força política e ultrapassar, superar — cá está o sorpasso, palavra que então se usou — a Democracia Cristã, que estava à frente dos destinos do país desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não chegou a acontecer, pelo menos nessas eleições, pois o PCI alcançou 34,37 % e a DC 38,71 % dos sufrágios, mas a palavra ficou. No âmbito económico, o termo também foi amplamente usado, em 1987, na imprensa italiana quando este país ultrapassou o PIB nominal do Reino Unido, e, dois anos depois, o rendimento per capita italiano ultrapassou o do Reino Unido.

 

[Texto 8976]

Helder Guégués às 23:04 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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