30
Abr 18

Léxico: «menino-bem»

Sendo assim, qual a dúvida?

 

      «Por fim, surge, em corpo inteiro, Alda, rivalizando, nos passos caprichosos e de uma ousadia por vezes descabelada (impressão de estar à beira do transe dionisíaco), com um moço muito mais novo (tipo de menino-bem, cedo déluré, sem casaco)» (Despedidas de Verão, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Livraria Bertrand, s/d [1967], p. 91).

      Paradoxalmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora usa-o, mas não o conhece. No verbete bau-bau, lá está: «menino bem». Todavia, regista um termo semelhante em tudo, e regista-o com hífen, precisamente como Urbano Tavares Rodrigues fez: menino-bonito.

 

[Texto 9129]

Helder Guégués às 16:38 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «garotio»

Conhecido de outros

 

      «Cristina, assediada pelo garotio, distribui prata e cobres, até que se lhe acaba o recheio do porta-moedas, que ela volta do avesso, demonstrativamente» (Despedidas de Verão, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Livraria Bertrand, s/d [1967], p. 86).

      Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, enriquece-te, tu és capaz.

 

[Texto 9128]

Helder Guégués às 16:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «subgente»

Vai dar jeito

 

      «Subgente nacional, com ar aflito ou espantado» (Despedidas de Verão, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Livraria Bertrand, s/d [1967], p. 57). Os dicionários só têm «subagente» e «subgerente»... E, no entanto... «Aquela subgente... (O Chico Miguel usava muito esta expressão. Ele não considerava os pides como pessoas vulgares. Referia-se-lhes como essa subgente, seres inferiores que se vendem como rafeiros aos da grande burguesia e aos latifundiários, e andam aqui a torturar os presos que, em princípio, deviam ser os seus semelhantes. Eu pensava muitas vezes nisso. Na estátua, observava os verdugos, e fazia-me extrema confusão vê-los, por exemplo, de aliança de casamento» (Escrito na Cela, Fernando Miguel Bernardes. Lisboa: Edições Avante!, 1982, p. 95).

 

[Texto 9127]

Helder Guégués às 16:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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«Correr o trinco»

Estaremos a dizer o mesmo?

 

      «Cristina reconhece a voz de Rodrigo e vai ela própria correr o trinco» (Despedidas de Verão, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Livraria Bertrand, s/d [1967], p. 24).

      Já uma vez, a propósito de um estore, demonstrei que isto não está correcto. Ou estará? Não conhecem o contexto, mas não há muito para saber: Cristina, a protagonista, espera Rodrigo, o seu amante com idade para ser seu filho, e corre a abrir-lhe a porta. Devia ser a criada a fazê-lo, mas ela antecipa-se-lhe. Temos duas acepções, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que se adequam: «mover, fazendo deslizar», e «fazer entrar (ferrolho)». Se optarmos pela primeira, está tudo bem. Aliás, estaria sempre tudo bem, pois quer se fosse a fechar, quer fosse a abrir uma porta, estava a mover-se, fazendo deslizar, o trinco. Contudo, somos levados a pensar que se trata da segunda acepção, o que sucede pela presença da palavra «ferrolho». Ora bem, vejamos agora com a mesma expressão noutra obra, mas que possamos comprovar. Como? Optando por uma tradução. «Depois de entrar e de correr o trinco, aproximo-me da outra porta em bicos de pés e encosto o ouvido à madeira» (A Herdeira Acidental, Vikas Swarup. Tradução de Elsa T. S. Vieira. Alfragide: Asa, 2013). E aqui, trancou-se ou destrancou-se a porta? Porque a expressão é a mesma. «Once I am inside the room, with the door securely locked, I tiptoe to the other door and put my ear against it, trying to listen in.»

 

[Texto 9126]

Helder Guégués às 16:10 | comentar | favorito | partilhar
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Como se fala por aí

Antes surdo

 

      Na secção de lácteos do supermercado, um velhote de olhos písceos diz para outro: «A patroa disse para levar só os que não têm “làtose”.»

 

[Texto 9125]

Helder Guégués às 15:57 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «mitema»

Temos de saber o que significa

 

      «Não podia talvez ceder ao desejo de introduzir o sonho na realidade (desde muito novo me seduz a magia de um cinema que seja efectivamente, como o queria Ado Kyrov, expressão do conteúdo latente da vida), mas não pus de lado a tentação de procurar, pelo menos, uma síntese entre a subjectividade e um realismo empenhado, que, sem renegar a psicologia objectiva, o propósito de desfibrar os mitos e mitemas da nossa terra, da nossa gente, da nossa própria fala, atendesse à necessidade de integrar na cidade, que é como quem diz, nos outros, na massa colectiva, os paroxismos da emoção» (Despedidas de Verão, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Livraria Bertrand, s/d [1967], pp. 10-11).

      Vejo-o em vários dicionários. «In structuralist anthropology and literary criticism: each of a set of fundamental generic units of narrative structure (typically involving a relationship between a character, an event, and a theme) from which myths are thought to be constructed» (in English Oxford Living Dictionaries).

 

[Texto 9124] 

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «arrife»

Ciência dos incêndios florestais

 

      Lembrar-se-ão de que fui eu que sugeri a inclusão (e, mais tarde, a correcção) do termo estradão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ora, deste termo vamos, naturalmente, para aceiro e, por analogia, a arrife, que é semelhante ao aceiro, mas mais estreito e, normalmente, perpendicular àquele, e que faz parte também da compartimentação da mata. Há, no dicionário da Porto Editora, uma acepção de «arrife» relativa à mata, mas que não apenas não é a mesma, como nem sequer se percebe muito bem: «aberta em linha recta feita no arvoredo pelo desbaste dos ramos». Não temos de ser todos especialistas em dendrocaustologia (apanha-o, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), a ciência que se ocupa das múltiplas facetas de que se reveste o estudo dos incêndios florestais, mas convém registar todos os termos relacionados.

 

[Texto 9123]

Helder Guégués às 10:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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30
Abr 18

Léxico: «pinga-lume»

Ferramenta de ignição

 

      Ah, mas faltam tantas palavras nos dicionários! Neste domínio do combate aos incêndios florestais, qual é o dicionário que regista, por exemplo, o termo pinga-lume? Que eu saiba, nenhum. Consiste num depósito cilíndrico de metal leve e com elevada resistência a altas temperaturas, do tamanho de um extintor, que possui um tubo por onde é deitado o combustível (mistura de gasolina e gasóleo, um litro no mínimo) que depois, por meio do contacto com um queimador, provoca a combustão. Tem pega e um canal de saída da chama. É especialmente concebido para ataques indirectos pela criação de linhas de defesa e contrafogo.

 

[Texto 9122]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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