03
Abr 18

Ortografia: «connosco»

Nunca o saberei

 

      «E, finalmente, é difícil falar quando caminhamos três quilómetros apenas para darmos conosco no meio do desfile do Dia dos Fundadores em Roseville, na Virgínia» (As Miúdas de Gallagher: Juro Dizer a Verdade, Toda a Verdade e nem sempre a Verdade, Ally Carter. Tradução de Rita Figueiredo e revisão de Joana Ambulate. Amadora: Booksmile, 2014, p. 215).

      A criancinha, que é quem está a ler este livro, diz-me que aparece pelo menos mais um «connosco» avariado. E foi revisto... Aliás, provavelmente, a culpa é toda da revisora: pode a tradutora ter escrito bem e a revisora errogiu, como diz a criancinha. Ou podem — azar é azar — ambas ignorar que o vocábulo «connosco» não foi (nem havia motivo para tal) alterado com o Acordo Ortográfico de 1990. E, se tem este erro, tem de ter outros e muito mais graves. Nunca o saberei. A não ser que me obriguem.

 

[Texto 9004]

Helder Guégués às 22:47 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «sítio/local»

Não admira assim

 

      «O historiador de arte José António Falcão foi escolhido para fazer parte do Comité Científico Internacional para os Lugares de Religião e Ritual (PRERICO), com sede em Paris, foi hoje divulgado pela associação Pedra Angular. [...] O PRERICO tem como missão a investigação na área dos rituais, monumentos e locais de índole religiosa no mundo, tradições e crenças locais, as heranças religiosas e locais sagrados, incluindo seu significado intangível» («Historiador José António Falcão escolhido para comité internacional sobre religião», Diário de Notícias, 2.04.2018, 16h10).

      Tem razão o meu amigo Rui Almeida: nesta acepção de lugar assinalado por acontecimento notável, é sítio e não local o termo usado habitualmente. Contudo, vejam se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, tem esta acepção no verbete «sítio». Pois, não tem.

 

[Texto 9003]

Helder Guégués às 22:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar

Léxico: «botulínico»

Mas se tem «botulina»...

 

    Ora vejam: «Em causa estarão tratamentos de aplicação de compostos antienvelhecimento como o ácido hialurónico e a toxina botulínica — mais conhecido como “botox”» («Dono de clínica estética investigado», Público, 3.04.2018, p. 9).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramos botox e botulina — mas não botulínico. Que distracção...

 

[Texto 9002]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «esquema vacinal»

Porque há quem não sabe

 

    «Dos 86 casos de sarampo confirmados até ontem pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), apenas 19 não estavam vacinados ou não tinham o esquema vacinal completo (desde a década de 1990 que são aconselhadas duas doses). A vacina tem perdido eficácia? Deve o Programa Nacional de Vacinação ser alterado?» («Este surto de sarampo “não tem as características de um surto clássico”», Ana Maia e Margarida David Cardoso, Público, 3.04.2018, p. 9).

      É locução com algumas décadas, pelo que pode ir para os dicionários — porque há certamente falantes que não sabem o que significa. Esquema vacinal: que vacinas e em que idade. Tão-só.

 

[Texto 9001]

Helder Guégués às 21:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «corre-mesa»

E assim chegámos ao 9000

 

      Corre-caminhos, corre-corre, corre-vai-di-lo, dizes tu, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu acrescento corre-mesa, que vejo agora em várias lojas. E nas traduções, pois em inglês table runner existe desde o século XIX? Tomem a definição do Collins: «a long strip of cloth that is put down the middle of the table, lengthways, to decorate it and to protect the surface from dishes, etc.».

 

[Texto 9000]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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Léxico: «cardenha»

Não são todas iguais

 

      «A fundação das cardenhas terá ocorrido no século IX, embora não haja certezas quanto à época em que começaram a surgir no alto das serras estes pequenos e toscos abrigos de pastores — com um primeiro andar para habitação e o rés-do-chão para albergar os animais — e onde só falta a porta redonda de madeira para imaginarmos de lá sair Frodo ou o tio Bilbo Baggins e o seu poderoso anel» («A paradisíaca aldeia portuguesa onde apenas vive uma pessoa», Vortex Magazine, 1.04.2018).

      A aldeia é Val de Poldros, Monção. Para começar, esta forma apocopada de «vale» devia estar em todos os dicionários. Cardenha, cardenho, cardanha — estão todos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e noutros dicionários. A definição é que difere. Lê-se no dicionário da Porto Editora: «regionalismo casa térrea onde os jornaleiros dormem; cardenho». Para jornaleiros, para pastores, para trabalhadores serranos que nos tempos vinhateiros desciam do lado da Estrela para vender o seu trabalho. Casa térrea ou primeiro andar para habitação e o rés-do-chão para albergar os animais. Em suma, há-de haver elementos em comum, como tratar-se de uma edificação tosca, pequena, de pedra, e destinada a trabalhadores.

 

[Texto 8999]

Helder Guégués às 14:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar

Léxico: «esperante»

Incluir quando é preciso

 

      «O homem», disse também Anselmo Borges, «é um ser esperante.» Pois, pois é, e vamos ter de esperar que os dicionários, que há cem anos tinham o vocábulo, o voltem a registar.

 

[Texto 8998]

Helder Guégués às 13:19 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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03
Abr 18

«Santa unção»

Corrigir quando é preciso

 

      Ontem, no programa A Vida, na Antena 1, Anselmo Borges lembrou, e bem, que na Igreja Católica já não se usa a palavra extrema-unção, mas sim a locução santa unção. Ora, sendo assim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem de o referir precisamente no verbete de «extrema-unção».

 

[Texto 8997]

Helder Guégués às 13:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar