16
Abr 18

Léxico: «interoperabilidade»

Mas não é assim

 

      «A possibilidade de “duplo uso” de equipamentos e sistemas, o reforço da interoperabilidade e mais investimento no domínio “ciberdefesa” são as prioridades definidas pelo ministro da Defesa Nacional na revisão da Lei de Programação Militar (LPM)» («Duplo uso, interoperabilidade e “ciberdefesa” são prioridades para investimento», TSF, 16.04.2018, 21h18).

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-a, mas restringe-a ao domínio da informática: «característica que possibilita a ligação e o funcionamento em conjunto de vários computadores». Faz mal, porque não é assim. Já existia interoperabilidade antes do advento da informática.

 

[Texto 9064]

Helder Guégués às 23:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «ciberactividade»

Usado e desprezado

 

      «“Os alvos desta ciberatividade maliciosa são, principalmente, os governos e organizações do setor privado, os fornecedores de infraestruturas cruciais e os fornecedores de serviços de Internet”, refere o comunicado conjunto» («Estados Unidos e Reino Unido alertam para “atividade cibernética maliciosa” na Rússia», Rádio Renascença, 16.04.2018, 21h27).

      Vejo-o um pouco por todo o lado, jornais, livros, teses, mas em nenhum dicionário lhe deram guarida até hoje. Curioso... No caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, até lhe falta dar guarida à expressão dar guarida.

 

[Texto 9063]

Helder Guégués às 22:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «codícia»

Uma forma de inveja

 

      «As destruições levadas a cabo pela codícia dos soldados franceses provocaram chagas ainda hoje bem abertas. Duas das casas nobres de Frariz, a dos Quintelas e dos Penalvas, haviam sido queimadas da mesma forma que a dos Magalhães e Monizes de Amarante» (Espingardas e Música Clássica, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Caminho, 1995, p. 33).

      Daria vinte abonações, se fosse necessário. Sim, o étimo é castelhano, mas agora é tão nossa como uma tortilha, e, contudo, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9062]

Helder Guégués às 20:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «regante»

Anda esquecido, mas não de todos

 

      «São boas notícias para os agricultores. Depois das chuvas de março e abril, e repostas as reservas hídricas, a Associação de Regantes e Beneficiários do Caia confirma que estão asseguradas as culturas de Primavera/Verão dentro do perímetro de rega da barragem do Caia» («Barragem do Caia. Já há água para as culturas Primavera/Verão», Rosário Silva, Rádio Renascença, 16.04.2018, 11h02).

      Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é todo teu. Anda esquecido, mas não de todos: podemos vê-lo no VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo.

 

[Texto 9061]

Helder Guégués às 11:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «pão tigre»

Mas lembra a girafa

 

      «“Porque é que o pão tigre se chama pão tigre? Ele devia chamar-se pão girafa”» (De Clone a Clown – A Arte de Ter (e Vender) Ideias Criativas, Vítor Briga. Lisboa: Vida Económica, 2012, p. 61).

    Comi agora mesmo, no reforço da manhã, um destes pãezinhos mosqueados, na verdade mais parecidos com a pelagem de uma girafa. Ultimamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ficou bem fornecido de pães, mas não tem este.

 

[Texto 9060]

Helder Guégués às 11:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «mabeco»

Paupérrimo

 

      «Este cão selvagem de orelha arredondada, manchas castanhas, pretas, brancas e alaranjadas e com uma cauda que termina num tufo branco é uma espécie em risco. Só existem 6600 em África, de acordo com União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais» («Primeiro o leopardo, agora os mabecos. Vida selvagem está de volta à Gorongosa», Sara de Melo Rocha, TSF, 16.04.2018, 8h56).

      Falta, entre outras coisas, o nome científico do mabeco, Lycaon pictus, mas não deixa de ser uma descrição muito mais rica do que a de muitos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, lê-se: «Angola ZOOLOGIA animal carnívoro selvagem semelhante ao cão». E, evidentemente, a referência apenas a Angola é errada. Também não estaria mal se registasse, no verbete, todos os sinónimos de «mabeco».

 

[Texto 9059]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Abr 18

Léxico: «bel canto»

Como pode ser?!

 

      «A estreia de I Capuleti e i Montecchi foi um sucesso, tornando a obra a mais notável ópera sobre Romeu e Julieta do [sic] era do bel canto», lê-se no sítio do Teatro Nacional de São Carlos, onde esta ópera está por estes dias a ser representada. De novo a história trágica dos Montéquios e dos Capuletos. E quanto aos dicionários? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora deve ser dos poucos dicionários no mundo inteiro que não regista bel canto. Por mim, registá-lo-ia não apenas, e obrigatoriamente, como estrangeirismo, bel canto, mas até na sua forma aportuguesada, bel-canto. A justificação para esta última vou buscá-la à analogia com bel-prazer, por exemplo, em que o adjectivo «belo» também nos surge apocopado. Por vezes, parece que temos tudo, menos vontade de fazer melhor do que os outros.

 

[Texto 9058]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,