19
Abr 18

Reino de eSwatini?...

E o gentílico?

 

      «O Rei da Suazilândia, Mswati III, anunciou esta quinta-feira que quer mudar o nome do país para Reino de eSwatini. [...] Durante o discurso, o monarca referiu que o país iria regressar ao seu nome original “antes de ser colonizado pelos britânicos” (a Suazilândia é independente desde 1968) para evitar confusões: “Sempre que vamos ao estrangeiro, as pessoas referem-se a nós como Suíça”» («Suazilândia muda de nome para não se confundir “com a Suíça”», Rádio Renascença, 19.04.2018, 19h07).

      Os mais obedientes, porventura em todo o mundo, serão os jornalistas portugueses. Basta ver como até se pelam por dizer «Mumbai». Agora, vão passar a vasculhar notícias sobre esse tal Reino de eSwatini só para se mostrarem informados. Esta é uma mudança que tinha necessariamente de esperar pelo século XXI: vejam aquele e minúsculo. Agora há muita coisa assim, é a electrificação do mundo. Audi e-tron.

 

[Texto 9083]

Helder Guégués às 23:52 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «supercarregador»

Enquanto é tempo

 

      «Na visão de Klaus Zellmer, CEO da Porsche América do Norte, esta rede de supercarregadores é peça-chave fundamental para os consumidores olharem para o tempo de carga de um elétrico como alternativa razoável aos veículos com motores de combustão interna» («Porsche já aceita encomendas para o seu elétrico Mission E», Motor 24, 19.04.2018).

     Estás a ver? Descuida-te, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e não tarda teremos aí uma geração a dizer supercharger.

 

[Texto 9082]

Helder Guégués às 23:22 | comentar | favorito
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Como escrevem (alguns) professores

E persigno-me

 

      Noutra aba está um professor, com cara de bebe-água (apanha, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), que escreve: «Com o passar do tempo creio que acabamos por cair em rotinas e perdemos, ou melhor, esquece-mo-nos que escrever, até pode ser divertido.» Pobres criancinhas! Revoltem-se, e terão aqui um denodado paladino.

 

[Texto 9081]

Helder Guégués às 23:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «engonhice»

Perto: «enzonice»

 

      Alguém está aqui (numa das doze abas do navegador) a falar da engonhice quanto aos carros eléctricos, quando está provadíssima a sua superioridade em comparação com os veículos de motor térmico. Verdade. «Maria da Fonte (brusca) Tá! Tá! Tá! Deixe-se de engonhices» (Verdes São os Campos: Lendas Teatralizadas do Vale do Minho, António Torrado. Porto: Campo das Letras, 2002, p. 78). Isso mesmo, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, desengonha.

 

[Texto 9080]

Helder Guégués às 23:00 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «desvalor»

O que for

 

      «O Tribunal da Relação de Guimarães suspendeu a pena de um jovem condenado a seis anos de prisão por agredir à facada a ex-namorada por ciúme, motivo que, “embora reprovável, não pode ser qualificado como fútil”, refere o acórdão. [...] O Tribunal da Relação de Guimarães considerou ter havido uma vontade “ostensiva” do arguido de matar a ex-namorada, mas sublinhou que o motivo [ciúmes], embora seja “muito reprovável, não pode ser qualificado como fútil, isto é, irrelevante ou insignificante, ou como torpe, ou seja, vil e abjeto”. [...] Diz ainda que, em julgamento, o arguido não se mostrou sinceramente arrependido nem demonstrou ter interiorizado devidamente o desvalor da sua conduta, uma vez que, admitindo a prática dos factos objetivos, não assumiu a intenção de atentar contra a vida da assistente» («Relação suspende pena de tentativa de homicídio. Alega que que ciúme não é fútil», TSF, 19.04.2018, 20h14).

    Que ideia, os ciúmes serem considerados motivo fútil! Agora reparem: esta concreta acepção de desvalor não está em alguns dicionários, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; aqui, desvalor é falta ou ausência de valor. Anote-se, corrija-se, acrescente-se.

 

[Texto 9079]

Helder Guégués às 22:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «hambúrguer»

Isso era dantes — ou nunca foi

 

      Como está enganado o leitor J. C. — não há tal preconceito. Quando hoje comia as minhas alentejaníssimas migas de espargos com lombinhos de porco — eu, quase vegetariano — lembrei-me de quê? Do hambúrguer de salmão que comera ontem ao almoço. E já os comi de legumes. Ora, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assevera que hambúrguer é o «bife de carne picada, geralmente redondo, que se come frito ou grelhado, servido no pão ou em prato». Bife? Pouco tem, quando tem, alguma coisa que ver com bife, e agora, fica provado, já leva outros ingredientes principais que não são carne. Por vezes, nem carne nem peixe — são legumes, já o disse.

 

[Texto 9078]

Helder Guégués às 22:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «laterorrinia»

Perdem o norte e o sul

 

      «Património Mundial da UNESCO desde 1981, a Grande Barreira de Coral estende-se ao longo de cerca de 2.400 [sic] quilómetros, na costa Leste da Austrália, e é o maior complexo de recifes de coral do mundo» («Grande Barreira de Coral da Austrália sofreu um “colapso catastrófico”», Miguel Videira, TSF, 19.04.2018, 10h52).

      Ainda recentemente me vi na divertida contingência de ter de explicar a um tradutor por que motivo lhe corrigira «fachada Sul» para «fachada sul». Lá mandei dizer que «sul» era ali adjectivo, e que, se em vez de «sul», estivesse «degradada», ou «azulejada», ou «barroca», seria, tinha de convir, ainda com minúscula que grafaria a palavra. Ainda hoje deve estar a torcer o nariz (ia usar o termo laterorrinia, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o conhece). Espero que com Miguel Videira não seja assim. Em relação aos Estados Unidos da América é que, por vezes, se grafa Costa Leste e Costa Oeste, mas nada que se possa ter por convenção ou tradição.

 

[Texto 9077]

Helder Guégués às 15:37 | comentar | favorito
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A cultura no Brasil

A bestialização da política

 

     Eu não andava a insistir para que se dicionarizasse o vocábulo judicialização, o que, em boa hora, a Porto Editora, por sugestão minha, fez? Lá surge no artigo, que citarei de seguida, do correspondente da TSF no Brasil, João Almeida Moreira, sobre esse país que inventámos, e daí ser como é: «Conhecida pela falta de cultura dos seus tribunos, houve discursos patéticos, repletos de imprecisões e erros de português documentados pelos jornais. Até que surgiu André Lazaroni (MDB), o secretário estadual da Cultura, que, a julgar pelo cargo que ocupa, iria acrescentar algo de mais erudito ao debate. E começou bem ao citar um dramaturgo alemão do século passado: “Ai do povo que precisa de heróis”, disparou aludindo à judicialização da política local. “Como dizia”, prosseguiu, “o dramaturgo Bertoldo Brecha.” Ora Bertoldo Brecha, como meio Brasil sabe, era personagem cómica de um programa do humorista Chico Anysio com nome inspirado em Bertolt Brecht (1898-1956), o autor da tal frase. Alertado para a gafe por um deputado, não se mostrou muito convencido. Para o homem forte da cultura do Rio, onde os poderosos são tão hábeis a descobrir brechas na lei, Brecht é Brecha e ponto final» («Chico Anysio supera Brecht na Assembleia do Rio de Janeiro», TSF, 19.04.2018, 9h52).

 

[Texto 9076]

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Abr 18

Léxico: «deixar da mão»

Ignorar o próprio, adoptar o alheio

 

      «José Sócrates abandonado. Advogado deixa Sócrates na mão», titulava no sábado a revista VIP, na sua edição electrónica. Só há um problema. (Ou dois: ser tudo mentira, mas disso não curamos aqui.) A expressão é brasileira, não portuguesa, e significa não ajudar, abandonar. Vamos, portanto, esquecê-la, e oxalá outrotanto aconteça ao infeliz jornalista. Mas temos uma expressão semelhante e que não vejo nos dicionários, ou, pelo menos, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: deixar da mão, largar, não incomodar, não maçar. Os Alentejanos herdaram-na dos clássicos, e o resto do País desconhece-a quase por completo. (Ah, sim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também desconhece outrotanto.) Continuamos a desprezar o que é nosso.

 

[Texto 9075]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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