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Abr 18

Léxico: «visuoespacial»

Não me perguntem a mim

 

      «O seu filho tem oito inteligências», escreve Vanda Oliveira na revista Prevenir (p. 94 e ss.). Uma delas é a inteligência visuoespacial, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora – vimo-lo aqui – se recusa a reconhecer. Não percebo.

 

[Texto 9096]

Helder Guégués às 23:05 | comentar | favorito
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Léxico: «alterador endócrino»

Depois será tarde

 

    «De acordo com o relatório Linhas de Orientação sobre a Contaminação de Alimentos, da Direção-Geral da Saúde (DGS), os alteradores endócrinos “são compostos estranhos ao organismo, mas que ‘imitam’ as nossas hormonas, interferindo em diversas vias de atuação das mesmas, como seja na sua síntese, degradação e excreção ou mesmo, ligando-se ao(s) seu(s) recetor(es) e levando a uma ativação ou inibição das vias de sinalização celular”» («Isto “mexe” com as suas hormonas», Rita Alves, Prevenir, Maio de 2018, p. 31).

      Não está nos dicionários, e por isso não se surpreendam se um dia destes alguém achar que tem de dizer endocrine disruptor para se fazer entender.

 

[Texto 9095] 

Helder Guégués às 22:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «massambala»

Investigando melhor...

 

      A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura convidou os países da África Subsariana a recorrerem às negligenciadas culturas tradicionais para lutar contra as mudanças climáticas, que ameaçam terras aráveis e culturas de milho. «Devem adoptar e promover a cultura do sorgo, massambala, mandioca e legumes indígenas pela sua resistência à seca», aconselha Wilson Ronno, responsável da agência da ONU de luta contra a fome.

      Sim, massambala está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «BOTÂNICA gramínea originária da África, de aspecto parecido com o do milho, cujo fruto é utilizado na alimentação sob a forma de farinha, e de que se extrai uma bebida alcoólica conhecida por macau». É parecida com o milho, é o que se diz, mas não devia registar-se que é uma variedade de sorgo, o quinto cereal mais cultivado em todo o mundo? E falta o nome científico – Sorghum caffrorum, Beauv. –, e já vimos a importância que esta informação tem. Pelo que vi, o macau tem outro nome no planalto de Benguela, quimbombo, mas sobre este o dicionário da Porto Editora apenas diz que é uma «espécie de cerveja; garapa; ualua». E à «ualua» nem sequer a voltamos a ver no dicionário, pois só acolhe as grafias uâlua e uálua. Ou seja, há sempre muito para corrigir e melhorar.

 

[Texto 9094]

Helder Guégués às 22:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «artoplastia»

Por uma letrinha

 

      «Através de uma nova técnica (Superpath), desenvolvida nos Estados Unidos, o serviço de ortopedia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra iniciou um novo programa, em doentes selecionados, de artoplastias totais da anca» («Técnica pouco invasiva para substituição da anca», Prevenir, Maio de 2018, p. 14).

     O mais próximo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora consegue fazer é uma autoplastia.

 

[Texto 9093]

Helder Guégués às 18:36 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «caldudo»

À míngua

 

      «Chouriço, farinheiro e morcela, assim como umas fatias de queijo de ovelha e de cabra são bons para anteceder uma boa sopa de abóbora ou um caldudo de castanha, seguidos de uma feijoca guisada com carne de porco ou trutas pescadas no viveiro local» («A vila na montanha», Alexandra Salgueiro, «Sexta»/Correio da Manhã, 20-26.04.2018, p. 36).

      Hum, parece que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não é muito forte em regionalismos beirões. Merece, por isso, um calduço.

 

[Texto 9092]

Helder Guégués às 13:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um mistério e... uma taqueira

Esse ou nenhum

 

      «[El Chupa Cabra, em Setúbal] Não é um restaurante mexicano, é uma taqueria. O esclarecimento é feito pelo proprietário. [...] Sem a definida intenção de competir com os restaurantes da zona ribeirinha, a taqueria só abre para jantares» («Tacos e nachos», Sofia Garcia, «Sexta»/Correio da Manhã, 20-26.04.2018, p. 42).

      Só serve tacos e nachos — em pás do lixo, não no prato. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não entraram mexicanices... ou sim? No verbete taco, topamos com este mistério: «regionalismo pequena refeição entre o almoço e o jantar». Não conheço. Mas voltando ao tipo de restaurante, porque não «taqueira», que é o nome do móvel onde se guardam os tacos de bilhar?

 

[Texto 9091]

Helder Guégués às 12:29 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «Larião»

Nem os dicionários

 

      «Se Antão Vaz, Síria, Manteúdo e Perrum são castas conhecidas (esta última com direito a um vinho varietal), já a Larião e a Diagalves são coisas desconhecidas por 99% dos consumidores» («Uvas raras. E sai mais um vinho de talha», Edgardo Pacheco, «Sexta»/Correio da Manhã, 20-26.04.2018, p. 43).

      No caso da casta Larião, até do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é desconhecida. Este dicionário, de qualquer maneira, regista o nome das outras castas com minúscula, como já pudemos ver noutra oportunidade: antão-vaz, síria, manteúdo, perrum e diagalves. Quanto à Larião, define-a assim o portal Infovini: «Casta de uva branca autorizada na região da Vidigueira, que também se encontra noutras regiões a sul do Tejo.» (Ah, sim no dicionário da Porto Editora também falta aquele específico sentido de varietal.)

 

[Texto 9090]

Helder Guégués às 12:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Abr 18

Ortografia: «carroçaria»

Saberá que existem dicionários?

 

      «A Rua da Centieira é a Alfama do Parque das Nações. Com prédios que não passam do primeiro andar, muitos em avançado estado de degradação, não se assemelha em nada às vias largas e modernas da freguesia herdeira da Expo 98. [...] Na esquina da rua, continua de pé a fachada da UTIC, a União de Transportes para Importação e Comércio. Só que, por detrás da fachada, a fábrica de carrocerias de autocarros foi substituída por um condomínio de luxo» («Uma rua do século XIX num bairro do século XXI», Rádio Renascença, 23.04.2018, 8h00).

      Carroceria é variante, sim, mas apenas usada no Brasil, onde, em contrapartida, quase não usam a nossa carroçaria. O jornalista não devia ignorar isto, mas enfim. O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves nem sequer regista aquela variante, que está mais próxima do étimo francês, carrosserie. Não foi apenas a rua que veio do século XIX, mas a própria grafia: no início do século XX, ainda Leite de Vasconcelos dizia que «centeeira» — que é actualmente a única grafia — era alentejanismo. Centeeira é, para quem não sabe, o terreno onde foi semeado centeio. E temos mais topónimos derivados de «centeio».

 

[Texto 9089]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | favorito
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