24
Abr 18

Sobre «nacho»

E não acaba

 

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, já não falta muito da cozinha tex-mex: temos os nachos, os tacos e os burritos. Depois de aqui ter falado de tacos e nachos, incluíram estas palavras, mas, no caso dos nachos, não concordo com a definição: «CULINÁRIA plural petisco de origem mexicana composto por pequenos pedaços de massa crocante, geralmente triangulares e feitos com farinha de milho, que se comem cobertos com queijo e/ou outros recheios». Dada a forma do nacho, não pode levar recheio — mas somente cobertura. E quanto ao mais, bem, fico a aguardar pelos termos jalapenho e pimenta-jalapenho, que, afinal, vejo por todo o lado, de lojas a livros. A última vez foi na obra As Delícias de Ella, de Ella Woodward (Alfragide: Lua de Papel, 2015), que já aqui citei a propósito do aportuguesamento «taíne».

 

[Texto 9105]

Helder Guégués às 23:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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As línguas do Paquistão

Precisa de revisão urgente

 

      Lê-se num texto de apoio da Infopédia sobre o Paquistão: «As línguas são principalmente regionais (punjabe, baloche e pushtu), mas a língua oficial é o urdu, embora também se fale inglês.» Pois bem, nem sequer uma, com estas grafias, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista pastó e panjábi, mas quanto a baloche nem rasto. Na verdade, e porque vem a talho de foice, diga-se que no Paquistão se falam outras línguas, como o sindi e o saricoli.

 

[Texto 9104] 

Helder Guégués às 22:17 | comentar | favorito

«Contabilização» por «contagem»

As melhoras

 

      «A contabilização do tempo de serviço militar obrigatório (que acabou definitivamente em 2004) passará a ter efeitos mais abrangentes do que até aqui, facilitando o acesso à reforma no regime geral de Segurança Social» («Serviço militar obrigatório facilita acesso à pensão», Raquel Martins, Público, 24.04.2018, p. 18).

      É o psitacismo jornalístico: um lembrou-se de dizer de forma diferente — e só por acaso errada —, e pouco depois já era uma legião. Que tristeza! Sempre se disse, e até as melhores cabeças concordavam que não havia nada para melhorar, «contagem de tempo de serviço», e agora, isto.

 

[Texto 9103]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Nome das doenças

Um erro persistente

 

      «Um novo estudo, publicado no Journal of American Medical Association, confirmou um tratamento que prolonga vida das crianças com Síndrome de Hutchinson-Gilford ou Progeria, uma doença rara que provoca envelhecimento precoce e morte prematura por doença cardíaca. [...] A acumulação de progerina no interior de uma célula é tipicamente observada no envelhecimento normal, mas a taxa de acumulação é altamente acelerada na Progeria, causando danos celulares progressivos, o que tem como resultado doença cardíaca aterosclerótica» («Estudo confirma tratamento que prolonga vida das crianças com Progeria», Carolina Rico, TSF, 24.04.2018, 16h40).

      Quando é que os jornalistas aprendem que o nome das doenças se grafa com minúscula? Só os nomes próprios que contenham é que se grafam com maiúscula: no caso, síndrome de Hutchinson-Gilford e progeria. Difícil? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista progeria e — para mim, escusadamente — até a forma acentuada brasileira, progéria. O que não regista é o nome da proteína associada, progerina.

 

[Texto 9102]

Helder Guégués às 18:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «passionista»

S. Paulo da Cruz não vai gostar

 

      Ontem, nas minhas leituras, vi referências a um monge trapista. Muito bem, já contribuímos, em Outubro de 2017, para que a sua definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora fosse substancialmente melhorada. Agora, é de um padre passionista que se fala. Desta vez, passionista nem sequer está no dicionário da Porto Editora. Ora, a Congregação da Paixão de Jesus Cristo é um instituto religioso internacional fundado em 1720 e já está em Portugal desde 7 de Outubro de 1931.

 

[Texto 9101]

Helder Guégués às 16:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «espurco» e «lanfranhudo»

Boa safra

 

      Na emissão de ontem do programa A Tarde É Sua, na TVI, Joaquim Letria falou de algumas «palavras que desapareceram da língua portuguesa». Meteu um pouco os pés pelas mãos na definição de algumas, revelando assim que as não conhecia muito bem, deu uma ou outra silabada, mas o balanço é positivo: de todas as que referiu, há duas desconhecidas do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a saber, espurco, porco, sórdido, imundo, e lanfranhudo (ou lafranhudo), desajeitado, mal-amanhado. Estão ambas em certo vocabulário brasileiro aqui muito citado...

 

[Texto 9100]

Helder Guégués às 15:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bicho-pau»

Qual bicho-papão

 

      «Um mosquito gigante com 11,15 centímetros de envergadura foi descoberto por entomólogos na província chinesa de Sichuan, noticiou esta terça-feira a agência oficial chinesa Xinhua. [...] O mosquito pertence à espécie “holorusia mikado”, descoberta em 1876 pelo entomólogo britânico John Obadiah Westwood [1805–1893] durante uma investigação no Japão e que não excede oito centímetros de envergadura. [...] A mesma zona é também o habitat do maior inseto do mundo, o bicho-pau, um inseto pegajoso de 62,4 centímetros de comprimento que foi encontrado em 2014 e também pode ser visto no Museu dos Insetos da China Ocidental» («Foi descoberto o maior mosquito do mundo. Tem 11,15 centímetros», Rádio Renascença, 24.04.2018, 12h56).

      Quanto ao Holorusia mikado, pouco sabemos, mas já no que respeita ao bicho-pau, o que se pode dizer é que o encontramos em vários dicionários e vocabulários (entre os quais o VOLP da Academia Brasileira de Letras), mas não no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9099]

Helder Guégués às 13:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Axolote», uns retoques

Corrigir, melhorar, aumentar

 

      Em Janeiro, sugeri a inclusão do vocábulo axolote no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e agora temos uma definição muito boa. Só que, como sucede quase sempre e com tudo, pode ser melhorada, e os dados deste artigo de hoje na Rádio Renascença são um bom contributo: «Cientistas descobriram que a axolote, uma espécie de salamandra originária do México em perigo de extinção, partilha muitas semelhanças genéticas com os humanos, mas, ao contrário das pessoas, tem uma maior capacidade para reparar lesões no corpo. [...] Ao contrário das pessoas, que “têm uma capacidade muito limitada” para regenerar tecidos, algumas espécies de animais como a salamandra mexicana, ou axolote, possuem “a notável capacidade para regenerar os membros, o tecido cardíaco e, até mesmo, a medula espinal após lesão”, segundo a coordenadora do estudo, Karen Echeverri. [...] Nativa de lagos perto da Cidade do México, a axolote ou salamandra mexicana, contrariamente à maioria dos anfíbios, não completa a metamorfose, pelo que tem o aspeto de uma larva mesmo no estado adulto» («Pode uma salamandra ajudar a desenvolver tratamentos para lesões na coluna?», Rádio Renascença, 24.04.2018, 9h11). O dicionário da Porto Editora diz-nos que o axolote é um batráquio urodelo neoténico, mas eu tenho dúvidas em relação a ser neoténico, pois, como se lê no artigo, «contrariamente à maioria dos anfíbios, não completa a metamorfose». Se não completa, não há atraso. Por outro lado, ao que parece, o habitat do axolote é apenas o lago Xochimilco, a 20 quilómetros da Cidade do México.

 

[Texto 9098]

Helder Guégués às 11:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
24
Abr 18

Desgraçado verbo «haver»

Contra a gramática

 

      «Corto Maltese, o marinheiro das mil aventuras, Sandokan, o pirata conhecido como Tigre da Malásia, ou Sindbad, o herói das sete viagens e das mil e uma noites, são alguns dos vizinhos do náufrago Robinson Crusoé. Estes aventureiros dos mares e da imaginação juntaram-se há 20 anos, nas ruas do Parque das Nações, por escolha de José Sarmento de Matos, o olisipógrafo que batizou as 199 ruas nascidas no bairro herdeiro da Expo 98. [...] A regra determina que, na mesma cidade, não podem haver duas ruas com o mesmo nome e Sarmento de Matos respeitou o princípio, com uma exceção» («Sarmento de Matos, o padrinho da Expo», Dina Soares, Rádio Renascença, 24.04.2018, 8h00).

      Não tinha ideia de que o Parque das Nações tivesse tantas ruas. Quanto ao verbo «haver»... Bem, disto tinha ideia: a pedido de várias pessoas incompetentes, o melhor é admitir-se tudo, e então já não nos preocupamos.

 

[Texto 9097]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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