29
Abr 18

Léxico: «abafador/batedor»

Não as abafem

 

      «“Há dois militares com extintores dorsais com 20 litros de água e dois militares com abafadores e batedores. Os extintores visam diminuir a intensidade da chama, atuando através da água. Os outros dois militares tiram oxigénio ao fogo para o extinguir”, explica [o capitão João Fernandes, o director do curso do Grupo de Intervenção Protecção e Socorro]. E assim foi» («Os duros exames físicos e psicológicos para salvar o país das chamas», João Carlos Malta, Rádio Renascença, 27.04.2018, 16h11).

      E abafador nos dicionários, encontramo-lo? Nada. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não está. Em que consiste? É uma ferramenta, usada para o combate directo ao fogo apagando-o por abafamento, constituída por uma lâmina (flap) de borracha compacta, com duas lonas internas, e com cabo de madeira com cerca de 1,5 m. O batedor, também desconhecido dos dicionários, mas não dos bombeiros, serve para o mesmo fim, e é muito semelhante a uma pá.

 

[Texto 9121]

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29
Abr 18

Léxico: «frotista»

Mais do que isso

 

      «Assim, a Ford expõe neste certame uma Transit Custom híbrida Plug-in (PHEV), furgão atualmente envolvido num programa de testes para frotistas, com a duração de 12 meses, a decorrer em Londres, no Reino Unido» («Ford quer melhorar ambiente nas cidades com nova Transit Plug-in», Motor 24, 27.04.2018, 10h18).

      É claro que frotista não significa apenas, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «relativo a frota (de veículos, navios, etc.)».

 

[Texto 9120]

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28
Abr 18

Léxico: «acosso»

Derivado regressivo

 

      «“Aguentei 34-35 dias de exposição permanente. O que aconteceu hoje [ontem] ultrapassa uma linha vermelha. Não quero causar mais danos à minha família e é por eles que tomo esta decisão”, afirmou Cifuentes em conferência de imprensa, na qual disse ter sido vítima de uma “campanha de acosso e derrube” que ultrapassou o plano político para se tornar num “ataque pessoal”» («Vídeo de furto faz cair Cristina Cifuentes», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 26.04.2018, p. 29).

       Também é nosso. Está nos principais dicionários e vocabulários — mas não no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9119]

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28
Abr 18

Léxico: «visionarismo»

Mas é assim

 

      «O visionarismo de Ricardo Jorge, diretor-geral da Saúde durante a “gripe espanhola” de 1918, está espelhado nas medidas de combate a esta pandemia e que permanecem atuais cem anos depois» («Medidas de Ricardo Jorge continuam atuais cem anos depois da gripe espanhola», Rádio Renascença, 27.04.2018, 9h51).

      Custa a crer que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe o termo visionarismo.

 

[Texto 9118]

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27
Abr 18

Léxico: «caboz-de-duas-pintas»

Um caboz mais pequeno

 

      «O caboz-de-duas-pintas (Gobiusculus flavescens) distribui-se nas zonas costeiras desde Portugal até à Noruega. Como precisa de um lugar para se esconder, em Portugal encontramo-lo em recifes rochosos e, nos países nórdicos, em florestas de kelp. [...] Mede entre três e cinco centímetros já no estado adulto» («O que nos diz o caboz sobre os oceanos mais ácidos do futuro?», Teresa Serafim, Público, 27.04.2018, p. 29).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista o termo caboz. Faltam as duas pintas.

 

[Texto 9117]

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27
Abr 18

Léxico: «roque/roca»

Outros nomes de frade

 

      «O cogumelo Macrolepiota procera, vulgarmente conhecido, entre outros nomes, por “frade” (a designação mais frequente), “gasalho”, “roque”, “marifusa”, “o da calcinha”, “púcara”, “roca”, “tortulho”, “é o cogumelo silvestre comestível mais consumido em Portugal e está presente na dieta alimentar de uma grande parte da população rural”, assinala Gravito Henriques [especialista em micologia e autor de diversos artigos e publicações sobre cogumelos]. [...] O Macrolepiota procera tem um chapéu ovóide achatado, cutícula acinzentada, seca e rachada em escamas grossas e castanhas, dispostas em círculos concêntricos, de separação fácil entre chapéu e o pé. As folhas brancas, largas, muito apertadas, com células lamelares, deixam espaço ao redor do pé. Tem haste recta, oca e fibrosa, bulbosa na base e coberta de flocos castanhos. Há um anel duplo na parte superior, que se move sem deixar rasto e é de cor escura. Carne elástica branca, quando cortada, levemente torrada com tons de cor-de-rosa» («Há um falso “frade” venenoso que engana os amantes de cogumelos», Carlos Dias, Público, 27.04.2018, p. 18).

      Com excepção de roca e roque, todos os restantes sinónimos de frade estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «O da calcinha» é meramente descritivo, não conta. A descrição, digna de um micólogo, tem a maior importância, é mesmo serviço público, tendo em conta o número e gravidade das intoxicações com uma espécie semelhante, a Macrolepiota venenata.

 

[Texto 9116]

Helder Guégués às 08:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Abr 18

Léxico: «coligação negativa»

Ainda no século passado

 

      «Travadas, no Parlamento, as resoluções de PCP, BE, PSD e CDS sobre o Programa de Estabilidade, Pedro Silva Pereira sublinha a “inexistência de qualquer coligação negativa no parlamento entre os partidos da esquerda e os partidos da direita que possa pôr em causa tanto Programa de Estabilidade, como a estabilidade governativa”» («“Não existe uma coligação negativa entre esquerda e direita”», Judith Menezes e Sousa, TSF, 26.04.2018, 20h29).

      Há quem pense que a expressão nasceu no mesmo dia da gerigonça, mas isso é apenas porque estão mal informados: «A coligação negativa do PS e do CDS não deixou passar o programa do Governo do Eng.º Nobre da Costa» (Luís Salgado de Matos, «Significado e consequências da eleição do presidente por sufrágio universal — o caso português», in Análise Social, vol. XIX (76), 1983-2.º, p. 253). E não será muito difícil ir mais para trás. Tem de ir para os dicionários, ou o pobre falante vai meter os pés pelas mãos.

 

[Texto 9115]

Helder Guégués às 22:14 | comentar | favorito
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26
Abr 18

Léxico: «corrediça»

Também ausente

 

      «Para o perito, o ferimento na mão de Ana Saltão “não reúne características para que inequivocamente” se diga que foi provocado pela passagem da corrediça da Glock com que, alegadamente, foram feitos os disparos. “Não é uma lesão típica (...) parece-me mais de contacto com superfície sobreaquecida”, disse [Agostinho dos Santos, médico-legista do Porto]» («Marido estava convencido da culpa de Ana Saltão», Ana Margalho, Diário de Coimbra, 19.06.2014, p. 5).

      Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nas pistolas, a caixa é substituída por uma manga, a corrediça, que envolve o cano e a culatra.

 

[Texto 9114]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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