03
Jun 18

Léxico: «palangana»

Do malegueiro à palangana

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que palangana é uma «espécie de bacia pouco funda em que se serviam os assados» ou uma «tigela grande». É, sim, mas não regista a principal acepção, única no Dicionário de Cerâmica: «Recipiente com forma idêntica à de uma tijela [sic], mas de maiores dimensões, com tampa e destinado ao transporte de produtos alimentares a bordo de embarcações» (Celestino M. Domingues. Casal de Cambra: Caldeidoscópio, 2006, p. 145). (O pior é a tigela avariada. Só tem uma grafia, esta. Não é que os dicionários não afunilem: acaso algum regista um termo que se vê em muitos livros de História — malegueiro, o que faz málegas ou tigelas, sinónimo de oleiro? Já temos sorte que o dicionário da Porto Editora registe malgueiro.)

 

[Texto 9336]

Helder Guégués às 19:24 | comentar | favorito
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Coisas da Mordóvia

Aumentar, corrigir

 

       «A pequena cidade de Saransk (315 mil habitantes), onde Portugal vai defrontar o Irão de Carlos Queiroz no dia 25, saltou para a ribalta em 2013, quando o ator francês Gérard Depardieu, zangado com o Fisco francês, recebeu a cidadania russa por ordem expressa de Vladimir Putin e escolheu a capital da Mordóvia para viver» («Ilustre amigo Depardieu», Rogério Chambel, Correio da Manhã, 3.06.2018, p. 28).

      Mordóvia, país onde se fala o mordoviano ou mordeviniano, língua urálica do ramo fénico do Volga. Os seus dialectos, ensina-nos a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é o mocxa, no Sul, e o eérzia, no Norte. De tudo isto, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista mordoviano. Depois, quando for preciso, lá temos um tradutor a atamancar. Ah, sim, já me esquecia: o dicionário da Porto Editora diz-nos que mordoviano é o «relativo à República da Mordóvia, pertencente à Federação Russa, ou a seu natural ou habitante» — queria dizer Federação da Rússia.

 

[Texto 9335]

Helder Guégués às 18:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Gabriel, o Pensador

E porquê assim?

 

      «Gabriel O Pensador, Crazy Town e Miguel Araújo são alguns dos nomes que integram o cartaz musical das Festas da Praia, que decorrem de 3 a 12 de agosto, na Praia da Vitória, nos Açores» («Gabriel O Pensador vai atuar nas Festas da Praia da Vitória», Correio da Manhã, 3.06.2018, p. 41).

      Não estou a ver porque se há-de grafar dessa forma e não como fazemos com qualquer cognome — Catarina, a Grande. Vá, prescinda-se do itálico, Gabriel, o Pensador. Com aquela vogal maiúscula ali no meio, é muito estranho. Ainda alguém um dia pensará que se tratava do Sr. Gabriel O. Pensador.

 

[Texto 9334]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | favorito

«Tratar-se de», mais uma triste vez

Voltemos ao básico

 

      «Fonte oficial da PSP disse ao semanário ‘Sol’ que na origem do problema esteve uma correção errada feita à prova escrita. Tratam-se de testes (conhecimentos profissionais e cultura geral), corrigidos informaticamente, com recurso a chaves introduzidas pela PSP. Durante esse processo, adianta a mesma fonte, terá ocorrido um erro» («Erros no curso de chefes da PSP», Miguel Curado, Correio da Manhã, 3.06.2018, p. 14).

      Tanta espertalhice, mas com a gramática elementar é que não atinam. Miguel Curado, tratar-se é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular. Percebe? «Trata-se de testes».

 

[Texto 9333]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um dia soalheiro

Afinal, tudo na mesma

 

      «Era um objetivo antigo para um grupo de ex-militares e militares na reforma, alimentado por longas conversas em convívios de companhias nas unidades de paraquedistas. O dia finalmente chegou, solarengo, para este grupo de veteranos das missões de paz na Bósnia-Herzegovina» («Honra e emoção. Veteranos portugueses homenageiam militares mortos na Bósnia», José Pedro Frazão, Rádio Renascença, 2.06.2018, 23h59).

      Há sempre quem, nos momentos decisivos, não está presente, ou está distraído, ou tem o aparelho auditivo desligado. Será possível, José Pedro Frazão, que nunca tenha ouvido ou lido que, nesta acepção, é soalheiro que se diz? Será possível? E é pena os seus colegas deixarem-no espalhar-se assim ao comprido.

 

 [Texto 9332]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito
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03
Jun 18

N, quantidade indefinida

Andam enganados

 

      «Vejo ene gente a fazer ou a dizer isto ou aquilo», leio de quando em quando. E é assim que o escrevem, «ene». Que n é, em matemática, o símbolo de número inteiro indeterminado, toda a gente sabe. Se o usarmos coloquialmente, porque temos de lhe dar nova e quase irreconhecível roupagem? Não, não temos. E, de facto, nesta acepção coloquial, é ainda n que os dicionários o grafam. Sobre parecer-me uma forma pretensiosa de nos exprimirmos nada direi, porque o mundo é composto de variedade e assim é que é bom.

 

[Texto 9331]

Helder Guégués às 10:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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