04
Jun 18

Léxico: «astrocronologia»

Outra nova

 

      «No estudo [publicado hoje no boletim da Academia Nacional das Ciências dos Estados Unidos] descreve-se um método estatístico que liga a astronomia teórica com observação geológica, a astrocronologia, para investigar o passado da Terra, reconstituir a história do sistema solar e compreender alterações climáticas ancestrais registadas na rocha» («Afastamento progressivo da Lua determina dias mais longos na Terra», Rádio Renascença, 4.06.2018, 21h19).

      Não está, provavelmente, em nenhum dicionário de língua portuguesa. E, contudo, o jornalista tinha de traduzir o que está no original, astrochronology.

 

[Texto 9345]

Helder Guégués às 22:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tardoz do tecto»

Será muito útil

 

       «Começa hoje a parte mais dura, que é tirar as telhas antigas, começar a limpar o tardoz do teto e colocar as telhas em que as pessoas escreveram e em que podem ainda escrever ao longo do próximo mês e meio», responde o P.e Edgar Clara a propósito das obras na Igreja de S. Cristóvão, na Mouraria, onde é pároco («“As Igrejas não existem para estar fechadas”», Ângela Roque, Rádio Renascença, 4.06.2018, 18h44).

      Há muito que conhecia a palavra e o conceito, mas nunca tinha pensado que se aplicasse a um tecto, mas faz sentido. É a terceira acepção do termo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «superfície de um elemento construtivo (muro, etc.) voltada para o interior». Se quiserem mesmo ajudar os falantes, acrescentem «tecto»: superfície de um elemento construtivo (muro, tecto, etc.) voltada para o interior».

 

[Texto 9344]

Helder Guégués às 22:37 | comentar | favorito

«Trolha/colher de pedreiro»

Ninguém

 

      «Lembro-me de perguntar ao meu tio António: “O que é um trolha?” Andava ainda na escola primária e estávamos ambos na Sociedade Nacional de Belas Artes [sic], perto da minha casa, a admirar um quadro ainda por acabar. Lembro-me de o tio António me dizer: “Fixa este nome, Júlio Pomar, que é o de um grande pintor”. E ali ficámos quedos, durante longos minutos, com o meu tio a explicar-me o uso das cores e a violência da geometria naquele retrato da sagrada família de um pedreiro. Trolha, a pá metálica de forma triangular e cabo de madeira, que serve para aplicar, espalhar e alisar o cimento. Uma palavra agressiva para uma tarefa de conciliação material. O apetrecho dera, afinal, o nome ao trabalhador, mas o artista pusera o acento nos pés e nas mãos» («Pomar», Jorge Calado, Expresso, 2.06.2018).

      Posso estar enganado, mas essa «pá metálica de forma triangular e cabo de madeira, que serve para aplicar, espalhar e alisar o cimento» sempre eu a conheci como colher de pedreiro. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora limita-se a dizer que colher também é o «utensílio utilizado pelos pedreiros ou trolhas», o que, sem o descrever, não serve para muito e, no caso, não serve mesmo para nada. A «pequena tábua, com uma pegadeira na parte inferior, onde o operário traz a argamassa que vai aplicando», para usar de novo uma definição do dicionário da Porto Editora, é que tem, para mim e para aquele dicionário, o nome de trolha. Mais facilmente confundiria uma trolha com uma talocha. Seja como for, não há ninguém à face da Terra, por muito inteligente, culto, informado, cuidadoso que seja, que possa prescindir de revisão. Ninguém. Bem vejo que por essa Internet fora não falta quem diga que aquela «pá metálica de forma triangular e cabo de madeira, que serve para aplicar, espalhar e alisar o cimento» tem o nome de trolha, mas falar de outiva é a especialidade de muita gente.

 

[Texto 9343]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «carta-portulano»

Outro mistério

 

      «Muitas outras cartas náuticas deste tipo, a que se convencionou chamar cartas-portulanos, são hoje conhecidas. Tal designação, sugerida pelo historiador português Armando Cortesão, expressa a sua estreita relação com os roteiros náuticos da época, os portulanos, onde os pilotos registavam os rumos e as distâncias entre os portos do Mediterrâneo e do mar Negro» («O mistério da carta-portulano», Joaquim Alves Gaspar [historiador de ciência], Público, 4.06.2018, p. 23).

      Carta-portulano. Vejo-a, com hífen e sem hífen, em muitas e muitas obras sobre as navegações — porque está ausente dos dicionários?

 

[Texto 9342] 

Helder Guégués às 15:46 | comentar | favorito
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Léxico: «intercardeal»

Apareceu(-me) hoje

 

      «Por exemplo, no facto de os nomes dos lugares costeiros (os únicos normalmente representados) estarem escritos para dentro da linha de costa e perpendicularmente a esta, a fim de deixar livres as áreas marítimas; e também, na representação de uma densa trama de linhas, sobreposta à representação cartográfica, cujas orientações relativamente ao Norte se encontram codificadas através de cores: preto para os pontos cardeais e intercardeais (norte, nordeste, este, sudeste, sul, etc.), verde para os pontos colaterais (nor-nordeste, és-nordeste, etc.) e vermelho para os restantes» («O mistério da carta-portulano», Joaquim Alves Gaspar [historiador de ciência], Público, 4.06.2018, p. 23).

      Tanto quanto me lembro, é a primeira vez que deparo com o vocábulo intercardeal.

 

[Texto 9341]

Helder Guégués às 14:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «megafauna»

Não apareceu hoje

 

      «Além de censos sobre o estado de saúde das espécies e da colocação de câmaras de profundidade e câmaras com isco para avaliação dos ecossistemas marinhos, as intervenções a realizar passam ainda pelo uso de câmaras com isco em zonas de mar aberto, para avaliar a ocorrência de megafauna e de outras espécies e ainda a marcação de megafauna marinha com transmissores de rádio e satélite utilizando equipamento não-invasivo» («A expedição Blue Azores andará por mares pouco explorados», Márcio Berenguer, Público, 4.06.2018, p. 22).

      Megafauna no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Não está, como não está em muitos outros dicionários. E não se pode dizer que seja um conceito assim tão recente.

 

[Texto 9340]

Helder Guégués às 12:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «mixovírus»

Pode dizer-se mais e melhor

 

      «O estudo de João Cúcio Frada aponta para 60.474 mortos atribuíveis à gripe pneumónica de 1918 em Portugal, por ação de uma estirpe do mixovírus A altamente patogénica, associada a complicações respiratórias bacterianas secundárias, com 3.175 óbitos no distrito de Leiria» («Um século depois da pneumónica, risco de novo surto de infeções aumenta», Cláudio Garcia, TSF, 4.06.2018, 9h23).

      Decerto, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: mixovírus é a «família de vírus ribonucleicos, a que pertence o vírus da gripe». Eu percebo, sim, mas a definição até pode parecer incorrecta. Veja-se a definição do glossário dos Médicos de Portugal: «Mixovírus s. m. (fr. myxovirus; ing. myxovirus). Qualquer vírus de um grupo de vírus com ARN, de simetria helicoidal e rodeados por um envólucro, que têm afinidade especial para os mucopolissacáridos e as glicoproteínas. O grupo divide-se em duas famílias: os Orthomyxoviridae, que agrupam os vírus da gripe, e os Paramyxoviridae, que compreendem nomeadamente o vírus da papeira e o vírus do sarampo.»

 

[Texto 9339]

Helder Guégués às 10:27 | comentar | favorito

Léxico: «desinvestimento»

É geral

 

      «A pandemia mais letal na história da Humanidade matou 60 milhões de pessoas em todo o mundo. Diretor de Pneumologia do Centro Hospitalar de Leiria alerta para o risco do desinvestimento em saúde em Portugal perante a resistência das infeções no século XXI» («Um século depois da pneumónica, risco de novo surto de infeções aumenta», Cláudio Garcia, TSF, 4.06.2018, 9h23).

     Ou seja, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem de corrigir a definição de desinvestimento: «ECONOMIA operação de estratégia económica que consiste na supressão de investimento em estruturas parciais ou totais de uma empresa». Exactamente, não se verifica apenas nas empresas, mas também no Estado.

 

[Texto 9338]

Helder Guégués às 10:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
04
Jun 18

Léxico: «calhandra-do-raso»

Para a colecção

 

      «É uma das aves mais ameaçadas do mundo. Em 2004 já só existiam 50 calhandras-do-raso em todo o mundo, após vários anos de seca consecutiva. As aves são endémicas do ilhéu do Raso, em Cabo Verde, e viviam num espaço de 7 Km2 [sic], até há poucas semanas» («Para garantir sobrevivência, calhandras-do-raso têm nova casa em Cabo Verde», Sara de Melo Rocha, TSF, 4.06.2018, 8h53).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem calhandras, mas não esta calhandra-do-raso ou laverca-do-raso (Alauda razae).

 

[Texto 9337] 

Helder Guégués às 10:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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