10
Jun 18

Léxico: «dona-elvira»

Sem poluição

 

      «Vi apenas a caminheta do correio, uma dona-elvira trangalhadanças e ferrogemebunda que substituíra a diligência e ficara a medir o ritmo do tempo em Gostofrio, onde a pergunta: “Já teria passado a carreira?, significava aproximadamente “Que horas serão?”» (Planalto de Gostofrio, Bento da Cruz. Lisboa: Editorial Notícias, 1992, p. 38).

      Vejo aqui em Cascais, com muita frequência, donas-elviras e, ingénuo, até pensei que a palavra estivesse nos dicionários. Muito bonitas, as donas-elviras, mas — e a poluição? Agora, depois de uma semana a conduzir um BMW i3, ainda fiquei mais sensível a este aspecto. Ah, o binário instantâneo dos carros eléctricos... Imagino um Jaguar I-Pace.

 

[Texto 9387]

Helder Guégués às 17:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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Léxico: «mariense»

Pedir pouco de cada vez

 

      Os biscoitos de orelha, feitos com massa lêveda, são um dos nossos mais típicos bolos, presença habitual nos lares marienses em ocasiões festivas. Enganam-se, não quero que biscoito de orelha vá para os dicionários — já me contentava que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passasse a registar o vocábulo mariense, relativo à ilha de Santa Maria, no arquipélago dos Açores.

 

[Texto 9386] 

Helder Guégués às 17:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «amaliano»

Factos alternativos

 

      Na passada quinta-feira, a fadista Helena Sarmento esteve no Viva a Música, de Armando Carvalhêda, na Antena 1. Sempre ouviu fado? «Sim, o meu pai [o escritor Joaquim Sarmento] era amaliano.» Muito bem, amaliano. Pior, Helena Sarmento, foi ter contribuído para um facto alternativo: «Amália nasceu no Fundão». Felizmente é advogada, e não biógrafa.

 

[Texto 9385]

Helder Guégués às 15:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Como se fala por aí

E não gaguejou

 

      Mário Machado apresentou ontem a sua candidatura à presidência da claque Juventude Leonina. Vamos ver se eu consigo escrever a palavra que ele usou (os jornalistas não foram capazes) na conferência de imprensa: pretende «desganguesterizar a Juventude Leonina, que neste momento é uma associação de malfeitores».

 

[Texto 9384]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «plastinação»

Mas podem melhorar

 

      «Chama-se plastinação. É uma técnica pioneira de vácuo, que consiste em preservar permanentemente exemplares anatómicos. Inventada em 1977 pelo médico alemão Dr. Gunther Von Hagens, consiste em substituir a água dos tecidos do corpo por plásticos reativos, como borracha de silicone e resinas de epoxi [sic] ou de poliéster» («Animal inside Out, viagem ao reino animal por debaixo da pele», José Cedovim Pinto, TSF, 10.06.2018, 12h18).

      Está em muitos dicionários, mas esta definição, em quase tantas palavras, é mais informativa, num registo quase enciclopédico. E mais: a etimologia que os dicionários registam, do inglês plastination, se não está errada, pode induzir em erro. Sendo o Dr. Gunther Von Hagens alemão, e dizendo-se nesta língua Plastination, virá mesmo do inglês? Fica a dúvida.

 

[Texto 9383]

Helder Guégués às 14:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

As várias espécies de caracóis

Conhecimento desprezado

 

      Em pouco tempo, o Correio da Manhã já veio duas vezes falar em caracóis. Na sexta-feira passada, um pequeno apontamento («Sexta», Paulo Forte, p. 33) dava a conhecer as quatro espécies distintas que se consomem em Portugal: Theba pisana, mais conhecida como caracol-mediterrâneo, Otala lactea, conhecida como caracoleta-riscada, Helix aspersa, conhecida como caracoleta-moura, e Helix cepae, conhecida como caracol-canário. Nem os dicionários dizem tanto. Caracol, diz-nos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «nome vulgar extensivo a diversos moluscos gastrópodes, pulmonados, da família dos Helicídeos, com duas antenas na cabeça e uma concha espiralada que serve de protecção ao corpo». De caracoleta, apenas nos diz que é o «caracol grande». Ora, já no início do século XX se podia ler na Gazeta das Aldeias: «Caracoleta-Moura – Nome dado no Algarve ao caracol da espécie Helix aspersa, Muller, muito vulgar nas hortas, vinhas e jardins, onde causa sensíveis danos.» Não nos podemos dar ao luxo de deixar sepultado no pó todo este conhecimento.

 

[Texto 9382]

Helder Guégués às 11:05 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «pára-arranca»

Acolham-no

 

      «O pára/arranca que faz parte do dia a dia dos moscovitas até nem fica muito caro» («Onde a água é mais cara que a gasolina», Octávio Lopes, Correio da Manhã, 10.06.2018, p. 28). No Verão passado, ainda a sabiam escrever: «Perdemos qualidade de vida com a situação atual. É muito resultante do pára-arranca dos carros e veículos pesados» («Condutores circulam a alta velocidade e causam acidentes», João Saramago, Correio da Manhã, 12.07.2017, p. 20). Não percebo porque é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista pára-arranca, que se vê até em obras literárias há anos. E nas traduções do inglês, para verter «stop-and-go driving». (Um elogio para o Correio da Manhã: apesar de tudo, lá têm o discernimento de não escrever «para-arranca».)

 

[Texto 9381]

Helder Guégués às 09:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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10
Jun 18

A televisão é pior

Mau português... Onde?

 

      Ontem, vi, na SIC, uma reportagem sobre os youtubers portugueses. Uma das preocupações dos pais das criancinhas que vêem os vídeos é o «mau português». Pois bem, a determinada altura, a repórter, Catarina Marques, perguntou a um rapazinho de 10 anos, Gonçalo Martins, se tinha telemóvel. Que sim. «E levas-o para a escola?» Fica provado que ver televisão ainda pode ser mais pernicioso.

 

   [Texto 9380]

Helder Guégués às 09:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1) | partilhar
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