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Jun 18

«Tweeterizável»!!!

Horror

 

      «Se Erdogan, Putin e Xi Jinping atacaram a regra de George Washington (limite de mandatos), os líderes africanos têm seguido a tendência oposta. Não se fala desta tendência porque é uma boa notícia, porque é um processo histórico sem momentos de sangue televisionado ou tweeterizável – o motivo central da permanente e abissal diferença entre a realidade e a perceção da realidade» («E se África for o futuro?», Henrique Raposo, Expresso Diário, 11.06.2018).

      Depois do «desganguesterizar», creio que estou preparado para tudo. «Tweeterizável» é mesmo uma coisa bárbara, concordarão comigo. A ter de escrever algo semelhante, mas com uma feição portuguesa, não será «tuitável»?

 

[Texto 9393]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «chive»

Agora somos mais finos

 

      A primeira vichyssoise de Anthony Bourdain, comida a bordo do Queen Mary, a caminho da Europa: «Lembro-me de tudo dessa experiência: a maneira como o nosso empregado a serviu de uma terrina prateada para a minha taça, o morder nos minúsculos pedaços de chalotas picadas que ele pescou com a colher e usou como decoração, o sabor rico e cremoso do alho-porro e da batata, o choque de prazer e a surpresa quando percebi que estava fria» (Cozinha Confidencial – Aventuras no submundo da restauração, Anthony Bourdain. Tradução de José Couto Nogueira. Alfragide: Livros d’Hoje, 2011, p. 22).

      Em chalotas, o tradutor achou que tinha de explicar do que se tratava numa nota de rodapé: «Embora a palavra não exista nos dicionários, o termo chalota tem sido usado livremente como tradução de challot, uma cebola arroxeada, geralmente mais pequena do que a cebola branca. (N. do T.)» Não sei onde foi desencantar aquele «challot», pois em francês é échalote, e no original, que é o que mais interessa no caso, está chives, que se traduz por «cebolinho» (Allium schoenoprasum). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista chalota (desde quando?), mas não o nome científico (Allium oschaninii e Allium ascalonicum), o que não ajuda nada: «BOTÂNICA planta herbácea, da família das Liliáceas, de bolbo pequeno, cultivada em Portugal». Sim, talvez em 2010, quando terá sido traduzido, ainda «chalota» não estava nos dicionários, mas isso não ia impedir nenhum erro. E quem é que, actualmente, se atrevia a traduzir leek por «alho-porro»? Agora, a começar pelos cozinheiros, todos somos mais finos.

 

[Texto 9392]

Helder Guégués às 18:51 | comentar | ver comentários (4) | favorito

Como se explica a gramática

O problema da esquerda e da direita

 

      Segundo o Acordo Ortográfico de 1990, escreve-se «infra-estrutura» ou «infraestrutura»? É uma pergunta do Jogo da Língua do passado dia 5. «E a regra é muito simples: sempre que juntamos a uma palavra principal um determinado prefixo — um prefixo é um elemento, um radical, um elemento que juntamos à direita da palavra principal — sempre que esse elemento, sempre que esse prefixo, termina numa vogal diferente da vogal que começa a palavra principal e quando articulamos não há qualquer problema de leitura, então não precisamos de hífen.» Isto de à direita e à esquerda é muito prático — mas apenas na escrita (e se não formos disléxicos). Na oralidade, tem obrigação de o saber quem anda nisto há anos, é um erro crasso recorrer a tal forma de explicação.

 

[Texto 9391]

Helder Guégués às 15:45 | comentar | favorito
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«Preferir», mais uma vez

Nem daqui a duzentos anos

 

      «Marcelo prefere acordos difíceis em vez de ruturas» (Diana Ramos, Correio da Manhã, 11.06.2018, p. 22). Ontem, na televisão, também ouvi esta construção errada. Diana Ramos, preferir constrói-se com a preposição a e não com a locução do que nem em vez de. Aprenda, divulgue.

 

[Texto 9390]

Helder Guégués às 12:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O RGPD e o ensino

O fim da transparência

 

      «A Universidade de Lisboa decidiu acabar com a afixação públicas das pautas de avaliação. A partir de agora, os alunos só terão acesso às suas notas. A mudança, revelada à Renascença por alunos da instituição, deve-se à entrada em vigor do novo Regulamento Geral de Proteção de Dados. A situação está a gerar polémica e muitas dúvidas. “Atenta um bocado contra a transparência da avaliação”, diz uma aluna. [...] Do ponto de vista legal, o advogado João Ferreira Pinto, especialista em proteção de dados pessoais, não vê para razão [sic] para que as notas deixem de ser afixadas publicamente. “O regulamento em vigor não proíbe propriamente o comportamento A ou o comportamento B, dá orientações e princípios. Um dos princípios é precisamente o princípio da transparência e da finalidade”, explica o advogado, acrescentando que “a questão relacionada em concreto com afixação pública de pautas de avaliação em estabelecimentos de ensino” tem uma “finalidade que é criar também uma equidade e uma transparência relativamente aos critérios de avaliação dos alunos”. “Não me parece que haja assim à partida a ofensa de qualquer um dos critérios que o próprio regulamento europeu de proteção de dados cria”, diz» («Polémica na Universidade de Lisboa. Cada aluno só tem acesso à sua nota», Rádio Renascença, 11.06.2018, 10h58).

      Pensei que isto só acontecia em escolas menos esclarecidas. Consultei a Deco sobre esta questão e a desalentadora resposta — com que não concordo, pois lera previamente o Regulamento Geral de Protecção de Dados — foi, resumindo, que as escolas privadas fazem o que entenderem, desde que o regulamento seja cumprido e os encarregados de educação sejam previamente avisados, e, quanto aos estabelecimentos de ensino públicos, já existia, desde 2016, uma deliberação (1495/2016) «no sentido de as escolas adoptarem as medidas de segurança técnicas necessárias e adequadas para garantir que apenas acedem às classificações de cada aluno o correspondente encarregado de educação (sejam as pautas físicas ou virtuais)». A questão é que, se se vai além do que o regulamento exige ou recomenda, não está a ser cumprido. É a opacidade completa. Agora sim, a corrupção tem todas as condições para alastrar de forma assustadora no ensino.

 

[Texto 9389] 

Helder Guégués às 11:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Jun 18

Léxico: «rojoneador»

Agora sem dúvidas

 

      «Diego Ventura fez história este sábado em Las Ventas, Madrid, ao cortar duas orelhas e um rabo pela primeira vez em 46 anos. O cavaleiro, de 35, nascido em Lisboa, tornou-se assim no primeiro rejoneador (toureiro a cavalo, que deve o seu nome ao rojão que utiliza para matar o toiro) a conseguir tal feito, tendo ainda cortado mais três orelhas na emblemática praça de touros» («Faz história ao cortar duas orelhas e um rabo», Catarina Figueiredo e Sónia Dias, Correio da Manhã, 11.06.2018, p. 39).

      A tradução de rejoneador já por aqui passou em 2012. Bem, agora é mais claro: já Cândido de Figueiredo registara rojoneador, o que rojoneia, isto é, nas touradas, mata com rojão. Muito estranho é rojoneador não estar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem rejoneador no Dicionário de Espanhol-Português também da Porto Editora. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9388]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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