16
Jun 18

Léxico: «ovelha saloia»

Extintas nos dicionários

 

      «Na Retrosaria de Rosa Pomar, ilustradora feita empreendedora e investigadora da malha nacional, é possível comprar esta fibra natural como quem compra vinho, como se fosse castas: o fio Beiroa só é feito com lã proveniente da Beira Baixa, nomeadamente de ovelhas bordaleiras da serra da Estrela; a marca Cobertor é composta por lã de ovelhas churras nacionais; os novelos João têm na sua composição apenas lã de ovelhas da raça merino branco e merino preto, características do sul de Portugal, sobretudo do Alentejo; a marca Bucos é processada à mão e fiada em fuso manual por mulheres minhotas, a partir de lã de ovelhas da raça bordaleira de Entre-Douro-e-Minho; enquanto o mais recente fio Brusca, que começou a ser comercializado há uns dias, é feito em exclusivo com a fibra proveniente de ovelhas saloias — que, tal como o nome indica, já foram próprias da região de Lisboa, mas hoje já só se encontram em pouco número em alguns pontos do Alto Alentejo» («A lã das ovelhas bordaleiras e churras portuguesas já viaja pelo mundo», Joana Madeira Pereira, Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que não tem ovelhas destas.

 

[Texto 9424]

Helder Guégués às 16:57 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «policristalino»

Diamante em bruto

 

      «No ano em que festeja os 40, a Frezite, metalúrgica de ferramentas de corte e fornecedora das indústrias aeronáutica e automóvel, combina crescimento orgânico com aquisições. Primeiro, foi a instalação no polo da Trofa no fim de 2017 de uma terceira linha destinada ao fabrico de serras de alta precisão para novos materiais, como o diamante policristalino» («Frezite ambiciona faturar €100 milhões em 2025», Abílio Ferreira, Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9423]

Helder Guégués às 15:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «empresarialização»

Lamento, mas não

 

      «O modelo de empresarialização dos hospitais portugueses inicia-se experimentalmente na década de 90 com o Hospital do Barlavento Algarvio, o Hospital de São Sebastião e a Unidade Local de Saúde de Matosinhos» («Ministério das Finanças e o SNS, o dilema», Alexandre Lourenço, Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      Não, não encontramos o vocábulo empresarialização no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9422]

Helder Guégués às 15:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «filtragem»

Não é um fluido

 

      «Deter alguém por perigo de fuga quando é preso à chegada ao aeroporto de Lisboa é da mesma natureza do tratamento que tive. Repudio vivamente o mediatismo que rodeou a sua detenção porque é sinal da patologia de um sistema que assenta na manipulação da prova no estado inicial da investigação com ampla filtragem mediática que prejudica a defesa de qualquer pessoa [responde Paulo Pedroso]» («“Fui insultado muitas vezes na rua”», Miguel Santos Carrapatoso e Rui Gustavo, Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista este sentido figurado de filtragem, e faz muita falta, pois vejo que se está a impor um termo inglês para dizer o mesmo.

  

[Texto 9421]

Helder Guégués às 13:51 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «telenovelesco»

Mas é verdade

 

      «Os portugueses raramente são frontais. Mas sim, fui insultado muitas vezes. Não quero estar a alimentar o lado telenovelesco disto, mas posso adiantar que depois da sentença recebi nas redes sociais o que pode ser literalmente interpretado como uma ameaça de morte [responde Paulo Pedroso]» («“Fui insultado muitas vezes na rua”», Miguel Santos Carrapatoso e Rui Gustavo, Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      Quem diria que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista telenovelesco...

 

[Texto 9420]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

«Todos-os-caminhos»?

Invencionice escusada

 

      «É um SUV e não um todo-o-terreno. Mas, por mérito próprio, [o Jaguar I-Pace] pode ser considerado como um grande todos-os-caminhos» («Elétrico para todas as exigências», Rui Faria, «Sport»/Correio da Manhã, 16.06.2018, p. 17).

      Creio que foi no Correio da Manhã que já vi noutras ocasiões esta invencionice. Não basta «todo-o-terreno», como sempre se disse, também é preciso a cópia do inglês allroad? Francamente.

 

[Texto 9419]

Helder Guégués às 11:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «rícino»

Perde o leitor, como sempre

 

      «A polícia da cidade alemã de Colónia destacou um grande aparato policial para fazer buscas no prédio de um presumível suspeito de terrorismo que tinha em casa grande quantidade de ricina. Fontes oficiais dizem que a quantidade encontrada daria para fabricar mais de mil doses letais de pó venenoso. [...] A investigação a Seif foi iniciada depois de comprar na internet um milhar de sementes de mamona, planta de onde se extrai o veneno» («Polícia impede ataque biológico», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 16.06.2018, p. 36).

      Começa logo mal no título auxiliar, pois escrevem assim: «Mais de mil doses letais de rícina encontradas em Colónia.» Instala-se logo a dúvida no leitor, ou instala-se o erro, pois o falante mais desprevenido — quase todos — irá pensar que é indiferente. Começa mal e acaba mal: sementes de mamona é o mesmo que sementes de rícino. Ora, não seria melhor usarem-se apenas os termos «ricina» e «rícino»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora devia acrescentar o nome científico, Ricinus communis, no verbete de rícino, mantendo o de mamona, onde apenas faz uma remissão.

 

[Texto 9418]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Jun 18

Léxico: «tertúlio/contertúlio»

Menos nos dicionários

 

      «E envolvia-me na afabilidade com que me tratava o torrão natal. Adoçou-me a boca, elogiando-me, com excessivas palavras, um dos meus rapazes, seu contertúlio aí no Porto» (Ecos do País, João de Araújo Correia. Régua: Imprensa de Douro, 1969, p. 47). «Estão com ele os futuros tertúlios da Tebaida da Mãe-d’Água (padrinhos literários de Herculano)» (Vultos e Perfis: Quase que os vi viver, Vitorino Nemésio. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 77). Tertúlio e contertúlio estão em todo o lado — menos nos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acha que nos governamos muito bem apenas com tertuliante.

 

[Texto 9417]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,