18
Jun 18

NOx?

Duas perguntas

 

      «O truque era um software que enganava os controles das emissões de dióxido de nitrogénio (NOx)» («Uma decisão inesperada: protagonista da Audi sofre punição severa», Abílio Ferreira, Expresso Diário, n.º 1200, 18.06.2018).

      A primeira pergunta é sobre qual a razão de os dicionários, entre os quais se inclui o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registarem dióxido de carbono, mas não dióxido de nitrogénio. Que se fala mais do primeiro já nós sabemos, mas, nos últimos tempos, as referências ao segundo têm-se multiplicado. A segunda pergunta talvez seja de resposta mais fácil: o símbolo de dióxido de nitrogénio é mesmo NOx?

 

[Texto 9443]

Helder Guégués às 20:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Como se escreve por aí

O Céu e o Inferno

 

      «CEO da Audi detido devido a escândalo de emissões» (TSF, 18.06.2018, 11h15). «Esta segunda-feira, durante o romper do sol em Munique, a polícia deteve Rupert Stadler, o presidente executivo da Audi, uma marca do universo Volkswagen (99,5%)» («Uma decisão inesperada: protagonista da Audi sofre punição severa», Abílio Ferreira, Expresso Diário, n.º 1200, 18.06.2018).

 

[Texto 9442]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | favorito
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Cem vezes: «Pirenéus»

Trema!

 

      «Tinha-se apaixonado por um dos críticos, com quem iniciara uma ativa troca de cartas: Joaquim de Vasconcelos, mais velho dois anos, admirador da cultura germânica e que também se deixou arrebatar, dispondo-se a ir ao seu encontro com tanta determinação que, na falta de comboios, parados devido à terceira guerra carlista, atravessou os Pirinéus a cavalo» («Carolina Michaelis [sic], uma alemã apaixonada por Portugal», Anabela Natário, Expresso Diário, n.º 1200, 18.06.2018).

      A meu ver, quem escreve sobre Carolina Michaëlis não devia dar um erro ortográfico daquele calibre. Anabela Natário, é Pirenéus. Há por ali outras gralhas e descuidos, mas, no todo, é interessante. Eu, por exemplo, não sabia isto: «Carolina tinha cinco irmãos, entre os quais Henriette, lexicógrafa, autora dos primeiros dicionários Michaelis, apelido da família pelo qual Carolina ficará conhecida.»

 

[Texto 9441]

Helder Guégués às 20:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Trazer a uso»

Olha o rifoneiro português

 

      Como eu ia dizendo, precisada de reedição: «Muitas vezes, tratava-se de armas usadas e pareciam ser um presente prático, para trazer ao uso» (Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto. Lisboa: Quetzal, reimpressão de Janeiro de 2017, p. 211).

      Então não é «a uso» que se diz, que sempre se disse? Vestir a uso e comer a gosto, até se costuma dizer. Alfabeticamente, antes destoutro adágio, sem ligação, mas muito interessante: «Vi um homem que viu outro que viu o mar.» Isto fez-me lembrar a teoria, provavelmente já desmentida e confirmada dezenas de vezes, que diz que cada indivíduo no mundo está a seis graus de qualquer outra pessoa.  

 

[Texto 9440]

Helder Guégués às 17:01 | comentar | favorito
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Léxico: «figura de proa»

É o repositório natural

 

      «Um dos candidatos à liderança da maior distrital do PSD, a do Porto, Alberto Santos, não tem o apoio de figuras de proa do partido, nem avança grandes ideias para o novo ciclo político» («Apostar na “ruralidade do PSD”», Público, 16.06.2018, p. 17).

      Foi tão recente como no sábado: perguntaram-me, e não foi uma criança (mas não acrescento mais, ou chamar-me-ão mentiroso), o que eram «jovens turcos». Para ser rigososo: a pessoa não me perguntou nada, olhou-me com cara de ponto de interrogação. Por isso, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, trata de registar isto tudo, porque é natural que quem não sabe recorra aos dicionários.

 

[Texto 9439]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Debate instrutório»

Um retoque

 

      «Para amanhã está marcado o início do debate de instrução, uma espécie de pré-julgamento em que se avalia se há indícios suficientes para levar o caso à barra ou se, pelo contrário, o processo é arquivado. Foi a defesa do presidente da junta que requereu a abertura da instrução, em Maio, depois de o Ministério Público ter deduzido a acusação» («Autarca de Carnide arrisca pena de prisão no caso dos parquímetros», João Pedro Pincha, Público, 18.06.2018, p. 15).

      Parece-me uma boa explicação do que é o debate instrutório — é este o nome que sempre vi e que a lei, nomeadamente o Código de Processo Penal, usa. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se a seguinte definição: «debate oral realizado perante o juiz, no âmbito de um processo-crime e durante a fase de instrução, com a finalidade de se discutir se subsistem ou não elementos no processo que justifiquem a submissão do arguido a julgamento». Eu diria, porque o diz a lei, «debate oral e contraditório».

 

[Texto 9438]

Helder Guégués às 14:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «sorvete»

Revejam a receita

 

      Finalmente, estamos com temperaturas mais altas do que na Rússia. Por isso é que, como sobremesa, comi sorvete de limão. Só não gosto da receita do sorvete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «doce que se congela, geralmente preparado com água, açúcar e polpa de fruta». Não é o que leio na generalidade dos dicionários e em livros de culinária, nos quais é referido quase sempre o leite.

 

[Texto 9437]

Helder Guégués às 14:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «morangueiro-silvestre»

É completar

 

      «“O extrato de folhas de morangueiro silvestre (Fragaria vesca), em especial uma fração purificada rica em elagitanina, apresenta elevado potencial para combater infeções provocadas por Helicobacter pylori (H. pylori), uma bactéria que está associada a múltiplas patologias gástricas e alguns tipos de cancro do estômago”, afirma, numa nota enviada à agência Lusa, a Universidade de Coimbra (UC), baseada nos resultados preliminares de um estudo desenvolvido na instituição» («Morango silvestre, a nova “arma” contra infeções e cancro do estômago», Rádio Renascença, 18.06.2018, 11h51, itálicos meus).

      Morangueiro já tu tens, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, falta o resto.

 

[Texto 9436]

Helder Guégués às 13:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Por que motivo/razão/diabo/carga de água...»

Pode ser por isso

 

      Será que Rui Rio pode vencer António Costa nas próximas eleições? «Sim. Se até Passos Coelho, atacado por toda a esquerda, obteve mais de 200 mil votos do que António Costa, porque motivo não há de Rui Rio conseguir vencer o líder da geringonça? Tudo é possível em política, como se vê», é a fezada de Edgar Nascimento, editor de Sociedade do Correio da Manhã (18.06.2018, p. 2).

      Talvez em política tudo seja possível, mas na língua não é assim, não se pode escrever «porque motivo», é erro. Quando, perante qualquer erro mais crasso, perguntamos porque não o corrigiu o editor, nunca equacionamos que o editor pode saber tanto como o jornalista. Pobres leitores.

 

[Texto 9435]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Zelo nominal»?

Outro zelo

 

      «Parece que a história de Portugal se tornou um tema da actualidade. Tudo começou com a proposta de criar um Museu dos Descobrimentos em Lisboa. Um impressionante conjunto de historiadores e intelectuais manifestou-se contra o vocábulo “Descobrimentos”, por não ser justo para com os povos “descobertos” pelos portugueses, tanto mais que, no contacto com eles, os portugueses nem sempre foram exemplares. Julgo que há aqui excesso de zelo nominal, tão típico dos dias de hoje, em que as palavras são vistas como essências e não como convenções para comunicar. Nós queremos uma palavra que descreva o conjunto de acções resultantes das viagens dos portugueses a partir do século XV» («Descobrir tudo», Luciano Amaral, Correio da Manhã, 18.06.2018, p. 2).

      É só a mim que aquele «zelo nominal» não convence? Comentem, não se acanhem.

 

[Texto 9434]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «xeicado»

Atenção aos pares

 

      «Assim, o xeicado de Moçambique teria sido fundado por Moussa e Hassan, ambos naturais de Kilwa, que se teriam inicialmente instalado no Zanzibar devido à instabilidade vivida na sua cidade natal» (Moçambique, Teresa Cotrim e Pedro Ramada Curto. Alfragide: Caderno, 2011, p. 239).

      Xeicado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista xecado — mas faz mal, pois acolhe o par xeque/xeique.

 

[Texto 9433]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «toróide»

Uma lista de verificação

 

      «Apresentados em toroides do tamanho dos pneus de emergência de alguns carros modernos, custam uma pequena fortuna (nunca menos de €500 por um queijo de 40 kg, dependendo das suas características), mas depois de os provar é difícil dar o dinheiro por mal-empregado. O sabor lembra o do emental de supermercado mas está para este como um Rolls-Royce para um utilitário de gama baixa» («Sabores e segredos das montanhas do Jura», Rui Cardoso, «Revista E»/Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      O adjectivo, toroidal, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e vimo-lo aqui, toróide é que, estranhamente, não o encontramos lá. Como é que isto pode acontecer? Talvez precisem de uma lista de verificação, como operadores de uma máquina ou processo complexos.

 

[Texto 9432]

Helder Guégués às 08:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve por aí

Já está ocupado

 

      «Ainda assim, foi Mariana quem optou por recorrer ao ensino complementar, fora da escola, onde despende três horas por semana em sessões de apoio a português e matemática. O recurso a explicações é um hábito comum entre os alunos do ensino secundário e a procura aumenta com a aproximação dos exames nacionais» («Aulas depois das aulas», Joana Gonçalves, João Diogo Correia e Rita Carvalho, «Revista E»/Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      Neste caso, foram tão infelizes como na «pobreza desafiada». «Ensino complementar» é há muito um conceito solidificado, não podem usar as mesmas palavras para pretender dizer uma coisa completamente diferente. Era muito simples.

 

[Texto 9431]

Helder Guégués às 07:18 | comentar | favorito
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18
Jun 18

Como se traduz por aí

Paciência desafiada

 

      «Um exemplo de sucesso que Pasi Sahlberg, educador, que escreveu “Lições Finlandesas: o que pode o mundo aprender com a mudança educacional na Finlândia?”, considera estar relacionado não só com os professores, mas com todo o ambiente escolar. “A liberdade para ensinar sem os constrangimentos de um currículo estandardizado e sem a pressão de testes estandardizados; a forte liderança de diretores que conhecem a sala de aula através de anos de experiência como professores; uma cultura profissional de colaboração; e o apoio em casas não desafiadas pela pobreza”, cita o jornal britânico “The Telegraph”» («Aulas depois das aulas», Joana Gonçalves, João Diogo Correia e Rita Carvalho, «Revista E»/Expresso, n.º 2381, 16.06.2018).

      Sei lá se é a pior tradução de unchallenged — só sei que não se percebe. Sim, o que é isso de «casas não desafiadas pela pobreza»? To challenge é polissémico, menos preguiça e lá mais para o fim do verbete do dicionário bilingue encontravam a tradução adequada.

 

[Texto 9430]

Helder Guégués às 00:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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