19
Jun 18

Siniša Mihajlović, daqui não levas nada

Isso seria pedir muito

 

      «Chama-se Sinisa Mihajlovic, um sérvio com passado brilhante como jogador e muito itinerante como treinador» («Sporting escolhe o sérvio nacionalista do pé-canhão para suceder a Jesus», Marco Vaza, Público, 19.06.2018, p. 45).

      Curiosamente, na fotografia que ilustra o artigo, vê-se o novo treinador do Sporting a mostrar a camisola do clube e o seu apelido aparece grafado com o cáracter especial do alfabeto latino sérvio, Mihajlović. Porque é Siniša Mihajlović. A nossa imprensa é que não é dada a tais apuros. Sim, é verdade: esse apuro tinha de começar com a língua portuguesa. 

 

[Texto 9453] 

Helder Guégués às 13:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «axião»

Ainda é melhor

 

      «Voltemos, pois, ao que o físico português [João Rosa] tem investigado nos buracos negros. Quando rodam muito rapidamente, os buracos negros primordiais podem criar à sua volta uma nuvem de umas partículas (também ainda) hipotéticas — os axiões. A existência destas partículas começou por ser proposta no final da década de 70. Depois, em 1983, avançou-se que os axiões poderiam constituir a matéria escura que não conseguimos detectar, que, por sua vez, já tinha sido proposta pela primeira vez em 1933, pelo físico Fritz Zwicky» («Físico português avança para explicação para 2 grandes mistérios do Universo», Teresa Firmino, Público, 19.06.2018, p. 26).

       Até hoje, sempre vi áxion — mas dou as boas-vindas a mais este aportuguesamento. Quase de certeza não se encontra em nenhum dicionário.

 

[Texto 9452]

Helder Guégués às 12:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «malabar»

Calado seria melhor

 

      Olhem-me para este: «Nas jornadas parlamentares do PSD, que decorrem na Guarda, o economista [Daniel Bessa, antigo ministro] disse que a medida é só para quem acredita em vacas que voam e compara o primeiro-ministro, António Costa, a um “malabar”» («Daniel Bessa compara António Costa a um “malabar”», Rádio Renascença, 18.06.2018, 21h59).

      Isto é alguma piada racista contra António Costa, de ascendência indiana? Malabar é, como se sabe, referente à costa ocidental da Índia, ou ao povo que a habita. O próprio jornalista se viu obrigado a interpretar: «Malabar é um adjetivo utilizado para descrever algo relativo a malabarismos, espetáculo em que se fazem habilidades de equilíbrio e acrobacias e é também uma região da Índia.» Salvo melhor — mas improvável — opinião, Daniel Bessa perdeu aqui uma boa oportunidade de estar calado.

 

[Texto 9451]

Helder Guégués às 12:17 | comentar | favorito
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Léxico: «lateral-direito/lateral-esquerdo»

Ainda não!?

 

      «Valência e Juventus estão muito perto de chegar a acordo para a transferência do lateral-direito português. Espanhóis pedem 40 milhões de euros, italianos oferecem 35 mais variáveis» («João Cancelo próximo da Juventus por 40 milhões de euros», Rádio Renascença, 19.06.2018, 10h27).

      E eu que pensava que o o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já registava isto tudo. Não, lateral-esquerdo e lateral-direito ainda não entraram.

 

[Texto 9450]

Helder Guégués às 11:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Por que motivo/razão/diabo/carga de água...»

Entalados estão os leitores

 

      «O líder parlamentar do PSD quer saber porque razão o governo não vai pagar a totalidade do tempo de serviço dos professores» («Professores entalados», Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 19.06.2018, p. 48). Vá outra vez, nós somos capazes, senhor director executivo: «O líder parlamentar do PSD quer saber por que razão o Governo não vai pagar a totalidade do tempo de serviço dos professores.»

 

[Texto 9449]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | favorito
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Léxico: «figueira-benjamim»

Mártires são os leitores

 

      «Os oito exemplares são um conjunto de quatro Phytolacca dioica (bela-sombra), outro conjunto de dois Metrosideros excelsa (árvore de fogo), na zona norte do jardim, e, na zona central, dois exemplares isolados, um de Ficus benjamina (figueira benjamim) e outro de Taxus baccata (teixo)» («Árvores classificadas no Mártires da Pátria», Edgar Nacimento, Correio da Manhã, 19.06.2018, p. 26, itálicos meus).

      Nada mau, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas não regista figueira-benjamim. Quanto ao Correio da Manhã, não deviam saber que, de acordo com as regras do Acordo Ortográfico de 1990, que se apressaram a seguir e nunca dominarão, os nomes compostos das espécies botânicas e zoológicas se grafam com hífen? Bela-sombra, árvore-do-fogo e figueira-benjamim.

 

[Texto 9448]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «haxe»

Não percebo

 

      «Rusga por “haxe” trama ladrão» (J. C. R., Correio da Manhã, 19.06.2018, p. 17). É a redução de haxixe — o que nem toda a gente saberá. Estou a pensar numa criança que encontre a palavra num texto, num estrangeiro que está a aprender a nossa língua, etc. Vejo-a em livros de autores portugueses e em traduções, e por isso estranho que não vá para os dicionários.

 

[Texto 9447]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Petromax → petromax

Temos de ser uns para os outros

 

      «Mas estou certa [de] que à vítima não compete dar o primeiro passo, enfrentar a burocracia, procurar ajuda ou sequer comprar um Petromax» («As vítimas de Pedrógão», Fernanda Cachão, Correio da Manhã, 19.06.2018, p. 2).

      Fernanda Cachão, é petromax, minúscula, porque ocorreu aqui o mesmo fenómeno (derivação imprópria) que em Gillettegilete, por exemplo. Estou certo de que fica grata. (Também a aconselhava a mudar a fotografia que tem na página da Internet do Correio da Manhã, porque faz lembrar o esgar do busto de Ronaldo que estava no Aeroporto da Madeira, mas não o faço, podia levar a mal.)

 

[Texto 9446]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | favorito
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Yuans e wons — o normal

Os monges e as ovelhas

 

      «Os estrangeiros não têm autorização para possuir ou usar wons. Qualquer estrangeiro de visita ao país só pode usar euros ou yuan chineses» (Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto. Lisboa: Quetzal, reimpressão de Janeiro de 2017, p. 120).

      Quer dizer, «won» tem plural, mas «yuan» não, é isso? Revejam-me lá essa teoria, que está errada. Melhor: espero que não seja teoria nenhuma, espero que seja uma gralha como há muitas outras no livro. Ia invocar São Romualdo, abade, de quem hoje se celebra a memória litúrgica, mas lembrei-me de que é o pai dos monges camaldulenses, e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista — oh! — camaldulense. Já basta as ovelhas saloias não serem admitidas ao seu redil.

 

[Texto 9445] 

Helder Guégués às 07:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Jun 18

«Mantém» por «mantêm»

Que estranho...

 

      «Os poucos partidos da esquerda extrema que mantém [sic] relações com a Coreia do Norte acabam sempre por relativizar esse aspecto que, na minha perspectiva, é nitidamente o mais determinante da ideologia do país» (Dentro do Segredo: Uma Viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto. Lisboa: Quetzal, reimpressão de Janeiro de 2017, p. 120).

      E para quê daquela maneira se existe e está consolidado o uso do termo «extrema-esquerda»? Ou um conceito político também já é passível de literatizar desta forma? Bem, o resultado não se recomenda. «Mantém» por «mantêm» é outro erro imperdoável, mais um a revelar que, afinal, o livro precisa mais do que de reimpressões.

 

[Texto 9444]

Helder Guégués às 07:44 | comentar | favorito
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