21
Jun 18

Léxico: «coligação negativa»

Em 2009 e em 2018

 

      «O debate começou com críticas do PS sobre a constitucionalidade das propostas, mas uma coligação negativa ditou que o imposto sobre os combustíveis vai mesmo baixar. Ao Expresso, especialista explica que o excesso de dinheiro que o Governo já angariou é a chave que abre as portas para a nova lei» («Esquerda dá a mão a PSD e CDS para reduzir imposto sobre os combustíveis», Mariana Lima Cunha, Expresso Diário, n.º 1203, 21.06.2018).

      Sim, ainda me lembro de o ter proposto para dicionarização, o que não aconteceu, mas é expressão cada vez mais usada, como se vê. Se houver dificuldade, veja-se se este excerto de um artigo de José Manuel Fernandes não ajuda a alinhavar uma definição: «Terceira perplexidade: não existindo maioria na Assembleia, o Governo tem de negociar com as oposições para conseguir equilíbrios entre os respectivos compromissos eleitorais. Quando tem sucesso, como sucedeu com a avaliação de professores, critica-se o partido da oposição que negoceia; quando, pelo contrário, o Governo vê ser aprovada uma proposta por toda a oposição, então lá vem a “coligação negativa”. É absurdo, mas é o discurso dominante» («O triunfo da “novilíngua” de um Governo sem maioria», Público, 4.12.2009, p. 39).

 

[Texto 9474]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «alugável»

Não pode ser

 

      «Sem ser preciso estar de acordo com a ideia de que tudo é alugável, ou que tudo se vende, é razoável aceitar estarmos em presença de um problema complexo, devido ao recuo do Estado, e para o qual não há respostas fáceis. Não por acaso, os museus já não dispensam pelo menos uma exposição anual capaz de atrair público em massa, e os preços das entradas estão cada vez mais elevados» («Lady B. rivaliza com Mona Lisa», Valdemar Cruz, Expresso Diário, n.º 1203, 21.06.2018).

      Pois é, não encontram alugável no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9473]

Helder Guégués às 21:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «extremófilo»

Mais um contributo

 

      «“Sendo os tapetes bacterianos organismos extremófilos, suportam grandes alterações das condições ambientais. Podem ser usados em várias aplicações, desde a farmacêutica até à biotecnologia. Há grande interesse biológico, não só geológico, mesmo que não tenham comunidades macroscópicas evidentes” [explica o biólogo marinho Emanuel Gonçalves]» («O Gigante ofereceu-nos um novo campo hidrotermal. Açores», Teresa Firmino, Público, 21.06.2018, p. 23).

      Extremófilo. Isto é contigo, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Já sabes, não há pensamento sem palavras.

 

[Texto 9472]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «macedónio»

Se foi ratificado

 

      «O Parlamento da Macedónia ratificou ontem o acordo alcançado com a Grécia que fixa Macedónia do Norte como a nova designação para o país. O diploma recebeu luz verde de todos os 69 deputados presentes» («Parlamento aprova mudança de nome da Macedónia», Público, 21.06.2018, p. 21).

      Parece-me inevitável que os lexicógrafos têm de alterar a definição de macedónio nos dicionários, e os editores de mapas-múndi também teriam algum trabalho, se o território da Macedónia não fosse mais pequeno do que o Alentejo.

 

[Texto 9471]

Helder Guégués às 19:49 | comentar | ver comentários (6) | favorito

Léxico: «reestabelecer»

Sem nervos

 

      «Com o Mateus sempre de vento em popa, a Sogrape torna-se uma estrela mundial do sector dos vinhos, começa a ser cobiçada e o pacto entre os accionistas treme. No começo dos anos 80, havia quem quisesse vender a companhia à multinacional Whitbread. O Governo de Sá Carneiro intervém e declara a Sogrape um activo estratégico do país. O consenso reestabelece-se» («Os legados do grande senhor do vinho português», Manuel Carvalho, Público, 21.06.2018, p. 18).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔. Aqui há uns dez anos, assisti a isto: uma professora de latim, nervosa, tão nervosa que até a voz lhe treme, dizia a uma colega que não existia a forma «rescrever», só «reescrever». Enfim, esperemos que pesque mais de Latim.

 

[Texto 9470]

Helder Guégués às 18:41 | comentar | favorito
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Léxico: «espreitada»

Não se importam?

 

      «Fernando Guedes, que até então acompanhara a produção, dera uma espreitada nos mercados e seguira de perto os investimentos em novas adegas da Sogrape (as empreitadas sempre o atraíram), sobe à administração» («Os legados do grande senhor do vinho português», Manuel Carvalho, Público, 21.06.2018, p. 18).

      Para mim, é claramente como olhada/olhadela, mas os modernos dicionaristas desfizeram-se dele. Francisco Solano Constâncio, no século XIX, regista-o.

 

[Texto 9469]

Helder Guégués às 17:13 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «comprometimento cognitivo»

E o resto descubra o leitor

 

     «“Nos últimos 20 anos, o tempo de comprometimento cognitivo diminuiu”, refere a investigadora [Carol Jagger, professora de Epidemiologia do Envelhecimento na Universidade de Newcastle, no Reino Unido]. “Não há muitos países com estes dados, mas os que os têm revelam que já não vivemos tanto tempo com comprometimento cognitivo e que a maior razão é o aumento da educação”» («E se os hospitais tivessem um serviço só para os mais velhos?», Ana Cristina Pereira, Público, 21.06.2018, p. 11).

      Infelizmente, nem os jornalistas nem os dicionários colaboram, e não se encontra uma definição de comprometimento cognitivo. Diga-se, porém, que aprender todos os dias uma palavra nova no dicionário contribui para atrasar o comprometimento cognitivo.

 

[Texto 9468]

Helder Guégués às 16:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «ruibarbo»

Muito pobrezinho

 

      Ao almoço, como sobremesa, comi uma excelente compota de ruibarbo. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ruibarbo é apenas a «planta rizomatosa, da família das Poligonáceas, com aplicação medicinal». Quê, acham que preparei um enema com ruibarbo? E o nome científico? Ah, não me perguntem se era ruibarbo-comum, ruibarbo-silvestre, ruibarbo-inglês, ruibarbo-da-frança ou ruibarbo-da-china. Sei que era delicioso. É uma planta de uma beleza excepcional, não acham? A primeira vez que a vi fora dos dicionários foi, há dezassete anos, na boca de Hilda Xavier, que vocês, meus grandes coscuvilheiros, não sabem quem é.

 

[Texto 9467]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «heterofobia»

Outros tempos

 

      Ah, não sabia que o Aulete registava a palavra heterofobia. É bom estar-se preparado para tudo. Na última semana, o Governo iniciou uma acção de formação sobre as diferenças de orientação sexual para evitar a homofobia nas escolas. A secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade já veio dizer que «mais de 800 professores e professoras de todo o País» irão ter formação. Oito centenas em tantos milhares de professores (e professoras...), vai ser quase uma gota de água, ou, vá, um copo de água. Quem irá dar a formação? Talvez comissários, como aconteceu com o tal director de escola em relação à protecção de dados pessoais...

 

[Texto 9466]

Helder Guégués às 14:23 | comentar | favorito
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Léxico: «corto-perfurante»

Tadinhos

 

      «Refere o perito que “é devido a essa potencial confusão [entre vísceras abdominais e compressas — tadinhos dos médicos] que é necessário efetuar contagem de compressas e corto-perfurantes”» («Compressa esquecida na barriga de doente», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 21.06.2018, p. 28).

      Entretanto, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece tadinho, essa forma aferética tão nossa, e corto-perfurante, familiar a polícias, estudantes de Direito e de Medicina e, claro, jornalistas do Correio da Manhã.

 

[Texto 9465]

Helder Guégués às 12:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Como se escreve nos jornais

O que estava coberto dela

 

      «Segundo o segundo-comandante dos bombeiros da Mealhada, José Duarte, o óbito foi confirmado no local após vários minutos em manobras de reanimação realizadas pelo INEM e pelos bombeiros, que tiveram de utilizar material de desencarceramento para tirar a vítima debaixo do carro» («Morre atropelado pelo próprio carro no terraço de casa», M. F., Correio da Manhã, 21.06.2018, p. 19).

      Ó M. F., francamente!, «segundo o segundo-comandante»... Então os sinónimos só servem para encher os dicionários? Agora aqui com os meus contertúlios: já sei que falámos daquele «debaixo», mas nunca é suficiente. Morais, no verbete desalagar, escreve que é «tirar de debaixo d’água o que estava coberto della».

 

[Texto 9464]

Helder Guégués às 10:55 | comentar | favorito
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Léxico: «lampedusano»

Isto foi ontem

 

      A deputada socialista Isabel Santos é que não precisou que os dicionaristas portugueses legitimassem o vocábulo lampedusano para o usar: ela falou, em Lampedusa, com os lampedusanos. Isso e os cabelos grisalhos cheios de estilo fazem dela a figura do dia — de ontem, porque a figura de hoje, no meu mundo, poderá ser o tal director da escola, se conseguir fazê-lo compreender que à mulher de César não basta ser honesta.

 

[Texto 9463]

Helder Guégués às 07:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Puticlubs e casas de alterne

Ainda de manhã

 

      Envergonhado com o portunhol de Carlos Queiroz (mas porque não falam em português?), mudei para a RNE. No noticiário, falavam dos puticlubs — casas onde se exerce a prostituição —, locais a que em Portugal se dá habitualmente, pelo menos na imprensa, o nome de casa de alterne, e alterne, para quem não saiba, é castelhano do mais puro. O putismo ibérico. Na imprensa, digo bem, porque habitualmente se diz casa de putas, só um pouco menos fino do que clube de putas, puticlube, que não passa de eufemismo tonto e presumido.

 

[Texto 9462]

Helder Guégués às 07:09 | comentar | favorito
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21
Jun 18

Fragmentos da agenda

De manhã

 

      Carlos Queiroz a falar portunhol na Cadena SER e trovoada lá fora no primeiro dia de Verão, assim começa o dia. Às 9h30, reunião com o director da escola, que estará acolitado por vários assessores, na tentativa de o fazer compreender que tem de mandar afixar as pautas com as notas do 3.º período, pois a afixação pública, como a Universidade de Lisboa veio ontem reconhecer, é um mecanismo essencial para garantir a transparência dos processos de avaliação de competências e conhecimentos na escola, e que o Regulamento de Protecção de Dados Pessoais não é para aqui chamado. Continuo com o pulso direito aberto.

 

[Texto 9461]

Helder Guégués às 07:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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