08
Jun 18

«Costa a costa»

Vá, desifeniza

 

      «Comemorações do 10 de junho nos Estados Unidos juntam primeiro-ministro e presidente da República. Marcelo regressa no dia 11. Chefe de governo fica uma semana, num costa-a-costa com ida e volta» («10 de junho nos EUA. Costa-a-costa de Costa e Marcelo dá afetos em Boston», Hugo Neutel, TSF, 8.06.2018, 6h00).

      Com hífenes? Nem pensar, é uma locução: costa a costa. Não a encontro em nenhum verbete do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas no dicionário de Morais, por exemplo, está no verbete costa: «Correr a costa; ir ao longo, perto della: e assim navegar costa a costa; sem se empegar, nem emmarar.» Ah, e vejo que o dicionário da Porto Editora também deu sumiço ao verbo emarar-se, infelizmente.

 

[Texto 9374]

Helder Guégués às 11:55 | comentar | favorito

Léxico: «cérebro»

Usemo-lo

 

      «As abelhas são apresentadas como um bom modelo para a investigação sobre a aprendizagem nos insetos, tendo trabalhos anteriores concluído que podem aprender conceitos abstratos como a semelhança e a diferença, apesar do seu cérebro ter menos de um milhão de neurónios (células) – por comparação, o cérebro humano tem 86 mil milhões de neurónios» («Abelhas compreendem o conceito de zero», Rádio Renascença, 8.06.2018, 00h07).

      Se os dicionários gerais indicassem o número de neurónios do cérebro humano, então sim, mereciam ainda mais o nome de tira-teimas. Não exageremos, contudo: não pode estar tudo nos dicionários. Vejamos, porém, um aspecto que pode ser melhorado ou corrigido. Cérebro, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «órgão situado na parte anterior e superior do encéfalo, e que é a sede das funções psíquicas e nervosas e da atividade intelectual». Hum... Agora comparem com a definição do Dicionário da Real Academia Espanhola: «Uno de los centros nerviosos constitutivos del encéfalo, existente en todos los vertebrados y situado en la parte anterior y superior de la cavidad craneal.» Estão a ver as diferenças?

 

[Texto 9373]

Helder Guégués às 11:29 | comentar | favorito

Léxico: «tartaruga-marinha-comum»

Tomem lá outra

 

      «Acrescenta [a organização ambientalista internacional WWF] que “20% dos peixes de consumo quotidiano têm microplásticos nos seus estômagos e 80% das tartarugas-marinhas-comuns (Caretta caretta), cujos juvenis têm zonas de alimentação nos Açores, comem lixo, na sua maioria plástico”» («95% dos resíduos no Mediterrâneo são de plástico», Rádio Renascença, 8.06.2018, 7h15).

      Ou tartaruga-comum. É a espécie mais observada em Portugal, sobretudo nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, e só depois seguida da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), e, no entanto, só esta última o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, e ainda assim sem o nome científico.

 

[Texto 9372]

Helder Guégués às 11:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «lahar»

Na imprensa, é a primeira vez

 

      «As equipas de resgate e os populares foram apanhados de surpresa pelas novas erupções, que ocorreram depois de as autoridades terem anunciado que a atividade do vulcão tinha diminuído. Desta vez, as explosões foram acompanhadas pela formação de ‘lahars’, torrentes de água, cinzas e outros sedimentos vulcânicos que descem a encosta a grande velocidade» («Novas erupções causam o pânico», Rita F. Batista, Correio da Manhã, 7.06.2018, p. 34).

      Isso mesmo, os lahars, palavra javanesa, são os depósitos resultantes das escoadas de lama e de detritos nas erupções vulcânicas.

 

[Texto 9371]

Helder Guégués às 11:25 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «militarizar»

O melhor é um galego

 

      «A comunidade islâmica de Moçambique já reconheceu a existência de núcleos radicalizados e as autoridades fecharam algumas mesquitas depois dos primeiros ataques, mas há quem diga que a verdadeira causa dos conflitos tenha sido a existência de recursos naturais na zona e que a violência tenha sido provocada para poder militarizar a zona» («Centenas de refugiados chegam a ilhas de Moçambique após ataques», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 7.06.2018, 18h00).

      Talvez a melhor definição seja a do dicionário da Junta da Galiza: «Someter a normas militares a unha persoa física ou xuridicamente.» Ou será antes o da Real Academia Galega, que diz que é «someter [un estado, país, rexión etc.] á forza militar»? Em todo o caso, não é nenhum português.

 

[Texto 9370]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Jun 18

Léxico: «aquafaba»

É só isso?

 

      «E já que falamos em doces, fica aqui uma dica: a água de cozer o grão — aquafaba — quando bem batida, fica com uma textura semelhante às claras em castelo e pode, por isso, substituir o uso de ovos em algumas receitas, como na mousse de chocolate» («Quando a proteína vem do grão, das amêndoas e dos espinafres», Marta Cerqueira, MAGG, 5.06.2018, 9h04).

      Como é que só hoje é que eu conheci este termo? Até agora, sempre disse e ouvi «água de cozer o feijão», «água de cozer o grão», e lá me governei. Mas não apenas eu: Vítor Sobral e Maria de Lourdes Modesto, por exemplo, nos seus livros de culinária, também não o usaram. Mas eis que os English Oxford Living Dictionaries esclarecem a questão: «Coined in 2015 from Latin aqua ‘water’ + faba ‘bean’.» E, contudo, em português também temos palavras começadas por aqua-, como sabem.

 

[Texto 9369]

Helder Guégués às 11:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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