05
Jun 18

Léxico: «sobrecapacidade»

Overcapaciteit

 

      «“Tem havido grandes investimentos ultimamente em centrais de reciclagem, o problema é que o material não chega aos tapetes. Em Portugal existe sobrecapacidade de reciclagem, porque a recolha não está a ser bem feita”, destaca [Pedro Colaço, presidente da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos]» («O plástico é mesmo mau para o ambiente? “A história está muito mal contada”», Rádio Renascença, 5.06.2018, 9h58).

       Pelos vistos, faz falta. Usa-se, até porque é uma forma de expressão mais breve. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Não está. Encontramo-lo, órfão e encolhido, no Dicionário de Neerlandês-Português da Porto Editora. Pois é...

 

[Texto 9348]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

A magna questão do plural

E um dicionário ajudava?

 

      «Até há bem pouco tempo, os portugueses tinham tendência para esconder o interesse nos produtos das Sex Shop. Ora por vergonha, ora por pudor, a maioria das vendas destas lojas era feita a partir [sic] da internet» («Artigos sexuais», Francisca Genésio, Correio da Manhã, 5.06.2018, p. 40).

      Sofre há muito desse problema de não saber pluralizar uma palavra, Francisca Genésio? E para que são as maiúsculas, pode saber-se? As melhoras.

 

[Texto 9347] 

Helder Guégués às 09:20 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
05
Jun 18

Léxico: «abebezado»

E, contudo, existe

 

      «Há quem diga que já é mais espanhol do que francês. Até podia ser possível, se pensarmos que Antoine deixou a sua terra, num dos condados mais tradicionais de França, com 13 anos, para rumar a Espanha, onde joga ainda hoje. Pode ter virado um matador em campo, sim, mas aquele ar de príncipe, aquele jeito ‘abebezado’ e apaixonado, isso nunca perdeu. E ainda bem!» («Este francês derrete-nos o coração», Luísa Jeremias, Correio da Manhã, 5.06.2018, p. 28).

      Ouço-o com alguma frequência, já o vi escrito mais de uma vez, até numa tradução (para verter «little-girl [voice]», «voz abebezada»), não percebo porque não o regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 9346]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
04
Jun 18

Léxico: «astrocronologia»

Outra nova

 

      «No estudo [publicado hoje no boletim da Academia Nacional das Ciências dos Estados Unidos] descreve-se um método estatístico que liga a astronomia teórica com observação geológica, a astrocronologia, para investigar o passado da Terra, reconstituir a história do sistema solar e compreender alterações climáticas ancestrais registadas na rocha» («Afastamento progressivo da Lua determina dias mais longos na Terra», Rádio Renascença, 4.06.2018, 21h19).

      Não está, provavelmente, em nenhum dicionário de língua portuguesa. E, contudo, o jornalista tinha de traduzir o que está no original, astrochronology.

 

[Texto 9345]

Helder Guégués às 22:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «tardoz do tecto»

Será muito útil

 

       «Começa hoje a parte mais dura, que é tirar as telhas antigas, começar a limpar o tardoz do teto e colocar as telhas em que as pessoas escreveram e em que podem ainda escrever ao longo do próximo mês e meio», responde o P.e Edgar Clara a propósito das obras na Igreja de S. Cristóvão, na Mouraria, onde é pároco («“As Igrejas não existem para estar fechadas”», Ângela Roque, Rádio Renascença, 4.06.2018, 18h44).

      Há muito que conhecia a palavra e o conceito, mas nunca tinha pensado que se aplicasse a um tecto, mas faz sentido. É a terceira acepção do termo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «superfície de um elemento construtivo (muro, etc.) voltada para o interior». Se quiserem mesmo ajudar os falantes, acrescentem «tecto»: superfície de um elemento construtivo (muro, tecto, etc.) voltada para o interior».

 

[Texto 9344]

Helder Guégués às 22:37 | comentar | favorito

«Trolha/colher de pedreiro»

Ninguém

 

      «Lembro-me de perguntar ao meu tio António: “O que é um trolha?” Andava ainda na escola primária e estávamos ambos na Sociedade Nacional de Belas Artes [sic], perto da minha casa, a admirar um quadro ainda por acabar. Lembro-me de o tio António me dizer: “Fixa este nome, Júlio Pomar, que é o de um grande pintor”. E ali ficámos quedos, durante longos minutos, com o meu tio a explicar-me o uso das cores e a violência da geometria naquele retrato da sagrada família de um pedreiro. Trolha, a pá metálica de forma triangular e cabo de madeira, que serve para aplicar, espalhar e alisar o cimento. Uma palavra agressiva para uma tarefa de conciliação material. O apetrecho dera, afinal, o nome ao trabalhador, mas o artista pusera o acento nos pés e nas mãos» («Pomar», Jorge Calado, Expresso, 2.06.2018).

      Posso estar enganado, mas essa «pá metálica de forma triangular e cabo de madeira, que serve para aplicar, espalhar e alisar o cimento» sempre eu a conheci como colher de pedreiro. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora limita-se a dizer que colher também é o «utensílio utilizado pelos pedreiros ou trolhas», o que, sem o descrever, não serve para muito e, no caso, não serve mesmo para nada. A «pequena tábua, com uma pegadeira na parte inferior, onde o operário traz a argamassa que vai aplicando», para usar de novo uma definição do dicionário da Porto Editora, é que tem, para mim e para aquele dicionário, o nome de trolha. Mais facilmente confundiria uma trolha com uma talocha. Seja como for, não há ninguém à face da Terra, por muito inteligente, culto, informado, cuidadoso que seja, que possa prescindir de revisão. Ninguém. Bem vejo que por essa Internet fora não falta quem diga que aquela «pá metálica de forma triangular e cabo de madeira, que serve para aplicar, espalhar e alisar o cimento» tem o nome de trolha, mas falar de outiva é a especialidade de muita gente.

 

[Texto 9343]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
04
Jun 18

Léxico: «carta-portulano»

Outro mistério

 

      «Muitas outras cartas náuticas deste tipo, a que se convencionou chamar cartas-portulanos, são hoje conhecidas. Tal designação, sugerida pelo historiador português Armando Cortesão, expressa a sua estreita relação com os roteiros náuticos da época, os portulanos, onde os pilotos registavam os rumos e as distâncias entre os portos do Mediterrâneo e do mar Negro» («O mistério da carta-portulano», Joaquim Alves Gaspar [historiador de ciência], Público, 4.06.2018, p. 23).

      Carta-portulano. Vejo-a, com hífen e sem hífen, em muitas e muitas obras sobre as navegações — porque está ausente dos dicionários?

 

[Texto 9342] 

Helder Guégués às 15:46 | comentar | favorito
Etiquetas: ,