09
Jul 18

Léxico: «subpeso»

Temos de ter os dois

 

      Também na SIC Notícias, um médico, a propósito das condições físicas das crianças retiradas da gruta na Tailândia, falou de subpeso. Ora, subpeso não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — que, todavia, acolhe sobrepeso, embora não em todas as suas acepções.

 

[Texto 9586]

Helder Guégués às 22:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «espeleomergulhador»

Todos os dias, a toda a hora

 

      Na SIC Notícias, nas últimas duas horas, ouvi várias vezes a palavra espeleomergulhador, e, aliás, foram entrevistados pelo menos dois espeleomergulhadores portugueses. Nos dicionários, contudo, nada. Há espeleomergulhadores, e, logo, praticam espeleomergulho, as palavras usam-se (em rodapé apareceu escrito «espeleo-mergulhador»), mas o falante comum fica desamparado. Quando é que isto muda?

 

[Texto 9585]

Helder Guégués às 21:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Os Romanovs, finalmente

Um exemplo louvável

 

      É apenas um título, mas revisores, tradutores, editores e demais jornalistas deviam pôr aqui os olhos: «Mansão que acolheu cativeiro dos Romanovs é agora museu» (Nuno Galopim, Expresso, n.º 2384, 7.07.2018).

 

[Texto 9584]

Helder Guégués às 21:44 | comentar | favorito
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Léxico: «bioficção»

Sem escolha

 

      «Este foi um exercício algo difícil e arrojado. É uma bioficção. Para abordar um tema tão complexo e que passa tanto por esta ideia do cativeiro, de estar refém de um grupo durante este tempo, achei que teria de sentir na pele tudo isto, de algum modo. Não seria suficiente fazer um narrador omnisciente. Então decidi pôr-me no centro da ação e ser uma das personagens. Isso ajudou-me a centrar e a olhar de dentro, em vez de estar a olhar de fora» [afirma Nuno Camarneiro]» («O risco de escrever sobre a atualidade na ficção de Nuno Camarneiro», Maria João Costa, Rádio Renascença, 9.07.2018, 15h27).

      Foi Alain Buisine, na Revue des Sciences Humaines, em 1991, quem propôs este termo para designar o género de ficção literária que toma uma forma biográfica, seja narrativa de vida de uma personagem imaginária, seja como vida imaginária de uma personagem real. Vejo-o de quando em quando por aí. Um dia vai para os dicionários — tem de ir, ou o falante não saberá do que se trata. Talvez, se houvesse um dicionário bom e um dicionário mau, propusesse «bioficção» para este último, como se faz com os activos tóxicos. Como só há um, não temos alternativa.

 

[Texto 9583]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | favorito
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Léxico: «emocionalidade»

Parece que faz falta

 

      «“Os pais [das crianças na gruta] estão com níveis de emocionalidade elevados. Provavelmente mais intensos do que os dos adolescentes. Todos os estudos mostram que os pais ficam mais perturbados do que as crianças. Isso deve ser contido para não ser contagiante e não perturbar o regresso à normalidade. Deve evitar-se que fiquem hipervigilantes” [afirma Ângela Maia, vice-presidente da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, especializada em situações adversas e stress pós-traumático]» («Tailândia. Como tratar os sobreviventes da gruta? Devem ir à escola e jogar futebol», David Mandim, Diário de Notícias, 9.07.2018, 7h00).

      Emocionalidade. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9582]

Helder Guégués às 14:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «rolador»

Não cabem?

 

      «“Estar debaixo de água e respirar por algo que nos colocam na boca – um rolador neste caso – não é algo que façamos todos os dias ou estejamos predispostos na nossa condição a fazê-lo. Os equipamentos que as crianças vão usar (segundo o que foi veiculado) facilitam essa adaptação. Porque além de os protegerem do meio ambiente também permitem que a respiração seja efetuada pelo nariz e pela boca, dá-lhes uma respiração mais natural ao invés de um rolador tradicional em que a pessoa tem de fazer força para inspirar e expirar”, explica aquele especialista [Alexandre Oliveira, tenente no Destacamento de Mergulhadores Número 2 da Marinha]» («Equipamento especial de mergulho vai ser grande ajuda no resgate», Teresa Alves, TSF, 8.07.2018, 11h08).

      Se isto estiver certo, junta-se a regulador, que nenhum dicionário acolhe. Serão então mais dois que não cabem nos dicionários. Perdem os falantes, perdemos todos.

 

[Texto 9581]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O pobre verbo «cair»

Mais um regresso ao básico

 

      «Um comunista pode ir a um privado? Claro que pode. Mas enquanto permanecerem no seu gueto ideológico, os comunistas vão continuar a ser presas fáceis da sua ideologia e das redes sociais – que não devem ser desvalorizadas. Jerónimo de Sousa[,] que tanto gosta de recorrer aos adágios populares[,] não devia ignorar aquele que diz: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço. Os mitos também caiem assim, parecem reais mas vamos percebendo que não passam de meras ilusões» («Um comunista pode ir a um hospital privado?», Bernardo Ferrão, Expresso Diário, 6.07.2018).

      Erro crasso. Bernardo Ferrão, «caiem» existe, não fique triste, mas é uma forma do verbo «caiar». Atenção à pontuação.

 

[Texto 9580]

Helder Guégués às 11:50 | comentar | favorito
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Léxico: «ismaili»

E agora tirem este

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista — mas não devia, não devia — o vocábulo ismaili, sinónimo de ismaelita. Como nunca direi que com o mal dos outros posso eu bem, tenho de acrescentar e prevenir que o VOLP da Academia Brasileira de Letras ainda está pior, que regista «ismailianismo», «ismailianista», «ismailianístico», «ismailiano», «ismailismo» e «ismailita». Impressionante. Viram bem: só não acolhe «ismaili». Diga-se, todavia, que começadas por «ismaeli-» são oito os vocábulos que regista. Reflictam nisto.

 

[Texto 9579]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | favorito

Léxico: «druso»

Falemos dos drusos

 

      «São um ramo minoritário do já minoritário xiismo, e o mais liberal» («Milionário e líder religioso, quem é o príncipe Aga Khan, o homem que os ismaelitas seguem?», Lina Santos, Diário de Notícias, 6.07.2018, 16h52).

      Então, o que se pode dizer dos drusos, que se separaram dos ismaelitas? Para Cândido de Figueiredo: «Drusos, m. pl. Seita religiosa, originária do Líbano, e em cuja moral o ignorante é destinado aos mesmos castigos que o criminoso.» No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «ETNOGRAFIA povo da Ásia Menor, vizinho da Síria». No Aulete: «1. Hist. Ref. ou pertencente à seita maometana extremista, fundada no Líbano no sec. XI; 2. Seguidor dessa seita». No Sacconi: «druso adj. e s. m. (o) Que ou aquele que é seguidor de uma seita islâmica do Líbano e da Síria, caracterizada pelo monoteísmo e pela crença de que al-Hakim (985-1021), califa ismaelita, é a encarnação de Deus. ⁜ Os drusos têm suas próprias estruturas e formam uma comunidade fechada. A maior parte de sua doutrina constitui segredo. Massacraram os cristãos, no séc. XIX, e lutaram contra o controle francês da Síria e do Líbano, entre 1925 e 1926, tendo considerável influência na implantação da república no Líbano. || Deriva de nome próprio: Ismaili al-Darazi, fundador da seita, morto em 1019.» José Pedro Machado, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa: «Druso, adj. Relativo ou pertencente aos Drusos. || S. m. Indivíduo desta nação. || No pl. Povo da Ásia Menor, junto da Síria. || Seita religiosa originária do Líbano, e em cuja moral o ignorante é destinado aos mesmos castigos que o criminoso.» Creio que é suficiente, os lexicógrafos ficam aqui com material suficiente para reflexão.

 

[Texto 9578]

Helder Guégués às 11:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «afótico»

Toma mais um

 

      «Disse ainda que “as fotos recolhidas pelo ROV Luso ao largo da Ribeira Brava revelam a diversidade de formas e de cores destes corais descobertos nestas zonas totalmente desprovidas de luz (afótica), bem como os complexos ecossistemas que estes ostentam em seu redor”, afirmou [Rui Caldeira, director do Observatório Oceânico da Madeira (OOM)]» («Descoberta inédita de corais profundos nos mares da Madeira», Rádio Renascença, 6.07.2018, 15h33).

      Afótico. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9577]

Helder Guégués às 11:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Jul 18

Léxico: «cardsharing»

Uma pena acrescentada à pena

 

      «“No decurso das buscas realizadas foram recolhidas informações e apreendidos documentos e outros objetos relacionados com a prática de factos, que consistiam na distribuição e receção ilícita de sinal de internet e pacotes de televisão, através de equipamentos adulterados, fenómeno criminal conhecido por ‘cardsharing’”, lê-se no comunicado» («Detidas 16 pessoas em flagrante delito por “piratearem” sinal de televisão e internet», Rádio Renascença, 6.07.2018, 12h22).

      Agora, o pobre cidadão já não tem contra si apenas o hermetismo jurídico, mas também a própria língua em que o acusam. Se todos os acusados fossem culpados, estaria muito bem, era mais uma pena acrescentada à pena, mas não é assim.

 

[Texto 9576]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | favorito
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