15
Jul 18

Léxico: «carolíngio»

Eu não digo?

 

      Por exemplo: a criancinha veio perguntar-me o que significa «ferrabrás». Respondi-lhe. Naturalmente, aproveitei para ver como está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Está bem. Não: está quase bem. Um olho clínico, míope ou não, detecta logo um erro: «Do francês Fier-à-bras, nome de um herói sarraceno de uma canção de gesta do ciclo carolíngeo». Já de costas e a afastar-se, a criancinha ainda me lança esta: «Pensava que se dizia “farrabrás”.» Que se responde a isto?

 

[Texto 9633]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Léxico: «alta-cozinha»

Boas escolhas

 

      «Seguiu-se o livro Kitchen Confidential, em que [Anthony Bourdain] ousou revelar os bastidores de violência, sexo e drogas no mundo da alta-cozinha» («O homem que viveu sem receitas», S. C., Visão, 14.06.2018, p. 32).

      Pois bem, nunca antes deparara com ela, mas, quando já temos alta-costura (embora o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora hesite, pois regista-o com hífen e sem hífen — os dicionários também precisam de revisores, tanto quanto sei e vejo), alta-definição, alta-fidelidade, entre outras, não custa nada abrir a porta a esta. Fica então assim: antes alta-cozinha do que qualquer palavra alienígena.

 

[Texto 9632]

Helder Guégués às 19:05 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Abaixo a «turné/tournée» — viva a «digressão»

Más escolhas

 

      «Papa pediu este domingo aos peregrinos católicos que tenham uma postura simples e não sejam “divas em turné”. Na habitual mensagem do Angelus, no Vaticano, Francisco apelou aos missionários que adotem um estilo que “consiste na pobreza de meios”, um recado que também parece dirigido para dentro da própria Igreja» («Papa: peregrinos não devem ser “divas em turné”», Diário de Notícias, 15.07.2018, 15h11).

      Já não é mau que se use a forma aportuguesada e não o termo francês — mas não havia necessidade. Temos, por exemplo, e até, a meu ver, mais bonita, a palavra «digressão».

 

[Texto 9631]

Helder Guégués às 16:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Abusar da gramática

Pois evolui — e também se corrompe

 

      «Sim, a velhinha abusada foi a rainha Isabel II e o grandalhão grosseiro foi o presidente Donald Trump. No entanto, não deveríamos deixar que as nossas opiniões políticas toldassem o nosso aviso. Eu, por exemplo, republicano dos quatro costados, não me deixei levar pela minha natural antipatia pelas rainhas. Distanciei-me das minhas convicções profundas e de toda a cena concluí ter-se passado o que se segue, sem tomar partido» («A velhinha abusada e o grandalhão grosseiro», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 15.07.2018, 7h00).

      Cá estamos nós em pleno pântano das áreas críticas da língua portuguesa, a construção passiva de verbos que não são transitivos directos — e não havia necessidade.

 

[Texto 9630]

Helder Guégués às 16:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Mais léxico da espeleologia

E tantos outros

 

      Mais: no Boletim Informativo n.º 6, de Março deste ano, da Federação Portuguesa de Espeleologia, são divulgados os resultados espeleométricos das cavidades exploradas e estudadas projecto a projecto. No Projecto Valongo, diz-se que foram georreferenciadas 79 cavidades (sanjas, cortas e poços), das quais 16 foram topografadas. Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, isto é contigo.

 

[Texto 9629]

Helder Guégués às 16:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «histoplasmose»

Lá e cá

 

      «Uma das doenças é a histoplasmose, infeção pulmonar provocada pela inalação de esporos do fungo Histoplasma capsulatum, que se desenvolve nos excrementos dos morcegos e ataca pessoas de saúde frágil» («A fórmula de uma missão de sucesso», Helena Bento, Expresso, n.º 2385, 14.07.2018).

      Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a histoplasmose é a «enfermidade endémica no continente americano e em África, provocada pela inalação de esporos do fungo Histoplasma capsulatum, e que se manifesta por doença pulmonar, disseminando-se eventualmente para outros órgãos». A definição tem de ser corrigida, pois como está redigida leva-nos, erradamente, a crer que é uma doença que apenas naqueles continentes se pode contrair, isto quando é tão possível ali como em alguma das 1500 grutas, algares, lapas ou outras cavidades geológicas cadastradas pela Federação Portuguesa de Espeleologia (FPE) em Portugal.

 

[Texto 9628]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Chorar compulsivamente», outra vez

Aprendem? Não parece

 

      Na sua coluna «Excitações», na edição de hoje do Correio da Manhã, Alexandre Pais cita o cirurgião Eduardo Barroso: «Peseiro fez-me chorar compulsivamente.» Tudo para poder comentar: «E não te admires muito se a choradeira continuar...» Com tanta escolha, tinha logo de trazer uma citação com um erro colossal como este, e esta é a hipótese mais benigna, porque, sendo jornalista, não é improvável que o erro seja de Alexandre Pais. Vou citar um textinho meu com mais de quatro anos: «Um erro que vejo de seis em seis meses (vá lá): alguém que desaba num “choro compulsivo”... Enfim, há de tudo neste mundo. Mas não: é choro convulsivo (convulsive crying, para a legião de anglófonos que nos segue). E sabiam que “ranho”, que vem do árabe, significa precisamente “choro convulsivo”? Porque o choro violento leva à emissão de abundantes secreções nasais, pois claro.» Excitam-se, mas não aprendem.

 

[Texto 9627]

Helder Guégués às 10:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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15
Jul 18

«Extracto»/«estrato», de novo

É camada, cambada

 

      «Como esses muros estavam num extrato superior ao da necrópole cristã, os investigadores pensaram que pertenceriam à ermida, mas encontraram mais corpos do “cemitério medieval cristão, que teve uma utilização até ao século XV ou XVI” e agora precisam de “perceber quais são as áreas de distribuição deste cemitério” [em Cacela Velha]» («Bairro islâmico troca voltas a arqueólogos no Algarve», Lusa/P. F., Correio da Manhã, 15.07.2018, p. 51).

      Coitados, já antes tinham dificuldade em distinguir, quanto mais agora com a porcaria do Acordo Ortográfico de 1990. P. F., p. f., nestas férias gaste alguns minutos a perceber as diferenças entre extra(c)to e estrato.

 

[Texto 9626] 

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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