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Jul 18

Léxico: «vazar»

Deixar escapar

 

      «Ouso meter-me nisto pela urgência e gravidade do espantoso caso. Este assunto tem meses e meses. Um antigo ministro, enquanto ministro, recebeu 500 mil euros de uma empresa privada, ou não. Digo “ou não” porque a Justiça, que vazou a informação para o público, ainda não conseguiu constituir arguido o referido ministro (ou melhor, conseguiu e, depois, desconseguiu), quanto mais levá-lo a tribunal, julgá-lo, inocentá-lo ou condená-lo» («Não há urgência maior do que esta pergunta simples», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 22.07.2018, 7h00).

      Tinha-o por brasileirismo: deixar chegar qualquer segredo ou informação sigilosa ao conhecimento de outrem ou do público. Agora vejo-o no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que só regista essa acepção («tornar-se conhecida (informação sigilosa)») como verbo intransitivo. Quando é que isto aconteceu? Têm a certeza de que precisamos desse sentido do verbo?

 

[Texto 9687]

Helder Guégués às 08:04 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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Léxico: «mortório»

A nenhuma

 

      «Por outro lado, os produtores do Douro têm feito um esforço considerável para tratar oliveiras em sistema de bordadura (ou mortórios), colher as azeitonas quase sempre em modo manual e transportável para lagares competentes, num processo que — contas feitas — atira o preço de um litro de azeite para valores que assustam os responsáveis financeiros de empresas que têm no vinho DOC Douro e no Vinho do Porto a sua atividade principal» («Outra novidade do Douro», Edgardo Pacheco, «Domingo»/Correio da Manhã, 22.07.2018, p. 39).

      Se isto estiver correcto, a que acepção de mortório no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora corresponde? A nenhuma.

 

[Texto 9686]

Helder Guégués às 08:02 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «montenegrino/são-marinense»

Assim é que não

 

      «Montenegro é um país nos Balcãs com cerca de 640 mil habitantes, que conquistou a independência da Sérvia em 2006. Num comunicado de resposta a Trump, o governo lembrou que Montenegro foi o único país que “não foi palco de combates durante a desintegração da ex-Jugoslávia”, na década de 1990, que fez cerca de 130 mil mortos» («Porque é que Trump diz que a III Guerra Mundial vai começar no Montenegro?», Susana Salvador, Diário de Notícias, 21.07.2018, 7h00).

      Montenegrino, diz-nos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «relativo ou pertencente ao Montenegro, país do sudeste [sic] da Europa». Podia ser mais e melhor. Mas comparemos com a definição de outro adjectivo, são-marinense: «relativo ou pertencente a San Marino (Itália), ou o que é seu natural ou habitante». São Marino é tão independente como o Montenegro, tem de ter uma definição semelhante, com a mesma estrutura.

 

[Texto 9685]

 

Actualização às 11h58

 

Trago aqui para a frente o que o leitor João G. Pais deixou nos comentários: em português pleno, diz-se São Marinho. De facto, «São Marino» é um escusado híbrido, pelo que devemos corrigir os dicionários. Devemos corrigir-nos a nós próprios.

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar

Os equívocos do AO90

Isto não é uma gralha

 

      «A isto chamam os anglossaxónicos “self-hatred”, o ódio de si próprio, de que fala gente da mesma tribo dos Tavares a propósito dos judeus que criticam a ocupação israelita da Palestina, ou dos homens que denunciam a dominação masculina, ou dos ocidentais que criticam o papel histórico do Ocidente, isto é, de tudo aquilo que o reacionarismo cultural diz hoje ser uma “moda” estrangeirada adotada por uma “intelligentsia ociosa” nacional» («O “homem branco autoflagelado”», Manuel Loff, Público, 21.07.2018, p. 53).

      Querem seguir as regras mal-alinhavadas do Acordo Ortográfico de 1990 — fogem do reaccionarismo, mas caem nos braços do errorismo. Qual era exactamente o problema da anterior ortografia, que já me esqueci?

 

[Texto 9684]

Helder Guégués às 07:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Confusões dos jornalistas (coitados)

Merece aspas: vai ser «julgado»

 

      «O teatro em que a personagem Manuel Pinho deverá, agora, assumir um papel principal é outro e tem martelos e batinas. Não tem transmissão televisiva e os interlocutores não são deputados. São juízes, advogados, testemunhas. E a bonomia de Pinho não lhe valerá de muito» («A figura. Manuel Pinho», Pedro Ferreira Esteves, Público, 21.07.2018, p. 23).

      Batinas... Hum, estou a ver: Manuel Pinho vai ser julgado na sala para simulação de audiências de tribunais da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

 

[Texto 9683]

Helder Guégués às 07:54 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «opinião publicada»

Opiniões

 

      «E ele [Manuel Pinho] aproveitou para relembrar a total sensação de impunidade que foi marcando a sua vida política alegadamente ao serviço da causa pública. Os deputados reclamaram, a opinião publicada criticou, os contribuintes (alguns) zangaram-se» («A figura. Manuel Pinho», Pedro Ferreira Esteves, Público, 21.07.2018, p. 23).

      Opinião pública já o zé-povinho sabe, ou julga saber, o que é; opinião publicada ainda nem os dicionários se preocuparam em registar.

 

[Texto 9682]

Helder Guégués às 07:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «paleogenético»

Nenhum sabe

 

      «Este estudo — serão feitas datações por radiocarbono e análises paleogenéticas, entre outras — permitirá ainda saber se as populações ali residentes eram daquele território ou se chegam do Norte com a Ordem de Santiago, que tipo de relação de parentesco tinham aquelas pessoas, de que é que se alimentavam ou de que doenças morriam» («“Neste cemitério já se tratavam os recém-nascidos com dignidade”», Lucinda Canelas, Público, 21.07.2018, p. 19).

      Paleogenético — mais uma palavra esquecida de todos os dicionários. Vai-se percebendo porque é que gabam a extensão do léxico da língua inglesa.

 

[Texto 9681]

Helder Guégués às 07:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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25
Jul 18

Os animais e a política

O sucessor

 

      «“Se comem em chibo, não comem em bode”, João Oliveira, líder parlamentar do PCP alertando que se estava a votar um texto final que continha uma proposta (do BE) já chumbada» («As frases», Público, 21.07.2018, p. 8).

      A falar desta maneira, está bem encaminhado para substituir Jerónimo de Sousa. Eu só o conhecia do Grande Livro dos Provérbios de José Pedro Machado: «Quem o come em chibo não o come em bode» (Lisboa: Editorial Notícias, 1996, p. 511).

 

[Texto 9680]

Helder Guégués às 07:47 | comentar | favorito | partilhar
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