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Jul 18

Léxico: «brilhantez»

«Queria pesquisar “brilhante”?»

 

      «João Domingues passa primeiro teste em Praga com brilhantez» (Rádio Renascença, 23.07.2018, 17h13). E os lexicógrafos deixam? Alguns não deixam. Brilhantez. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9695]

Helder Guégués às 12:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «trompa alpina»

Não era preciso

 

      «O instrumento típico dos Alpes Suíços (que tem semelhanças com uma corneta gigante) denominado “alphorn”, reuniu centenas de artistas que deram um concerto no topo das montanhas» («Concerto nos Alpes Suíços», Correio da Manhã, 23.07.2018, p. 48).

      Não é preciso tentar descortinar semelhanças nem inventar nada: trata-se da trompa alpina, com um tubo recto com até 4 metros de extensão que se expande gradualmente e, junto da campana, se curva para cima.

 

[Texto 9694]

Helder Guégués às 12:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «gramelogia»

Nem um só

 

      «William Oughtred, um professor privado de matemática, modificou esta ideia e desenhou um instrumento em forma de disco com escalas circulares dando-lhe o nome de “círculos de proporção” (circles of proportion). Instrumento esse que um certo Richard Delamain plagiou publicando-o antes de Oughtred em 1630, com título Grammelogia. [...] Curiosamente refere-se aos círculos de proporção por “gramelogia” seguindo o neologismo cunhado pelo plagiador Delamain. Quem espalhou a boa notícia dos logaritmos em Lisboa, traduzindo do Inglês [sic] para castelhano, foi o padre Inácio Stafford. E, por incrível que pareça, não é de excluir que um dos instrumentos outrora utilizados pelo próprio Stafford seja precisamente a “gramelogia” conservada numa das mais importantes colecções científicas de Lisboa, no MUHNAC [Museu Nacional de História Natural e da Ciência]» («Os tesouros escondidos de um matemático inglês em Lisboa», Samuel Gessner, Público, 23.07.2018, p. 19).

      Em suma, gramelogia é o nome ibérico do instrumento inventado por William Oughtred (1574-1660). Infelizmente, nem sequer num só dicionário encontrei o vocábulo, o que é sintomático do descaso em que se têm as nossas coisas. Vamos longe, vamos.

 

[Texto 9693]

Helder Guégués às 07:36 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «monoglota»

Isso era dantes

 

      «Monoglota irrecuperável, o general Artur da Costa e Silva sempre tentava “traduzir” por conta própria. Certa vez, presidente da República, ele fez uma escala na Tailândia, durante viagem internacional. Na recepção oferecida pelo governo local, aproximou-se de um grupo de diplomatas, que conversava em inglês sobre os “problemas comuns” aos dois países. Ele ouviu “problems”, mas entendeu “products”, e meteu o bedelho: — Yes, yes, abacaxi, manga, mamão...» («Era um abacaxi», Cláudio Humberto, Metro São Paulo, 23.07.2018, p. 4).

      Uma das poucas oportunidades de a vermos fora dos dicionários — até porque agora são todos poliglotas.

 

[Texto 9692]

Helder Guégués às 07:34 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «cateterismo»

Ou uma subentrada

 

      «O médico de [sic] Eduardo Barroso, que se encontra de férias no Algarve, sofreu um enfarte e foi internado neste sábado de urgência no Hospital de Faro (HF), notícia [sic] o “Público”. O mesmo jornal diz que após intervenção cirúrgica (cateterismo), o estado de saúde de Barroso não requer cuidados especiais» («Eduardo Barroso hospitalizado após enfarte», Rádio Renascença, 22.07.2018, 22h17).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que cateterismo é a «sondagem com cateter». Não concordo, sobretudo no caso do cateterismo cardíaco, em que o objectivo da intervenção médica não é somente o de estabelecer o diagnóstico, mas também o de tratar o doente.

 

[Texto 9691]

Helder Guégués às 07:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Léxico: «isocrático»

Se perceberem, digam

 

      Num texto, fala-se num regime isocrático — em que todos votam e em que todos os votos são iguais. Não consigo compreender como nenhum dos dicionários que consultei, e não foram poucos, o não acolhem. Há vários motivos para o fazer. Afinal, os nossos dicionários já registam o termo isocracia (igualdade política), a que se refere aquele regime isocrático com que iniciei este texto. Mais: também é o adjectivo relativo a Isócrates (436 a. C.-338 a. C.), orador e retórico ateniense contemporâneo de Platão, de grande influência na Antiguidade. Não podemos achar natural que os nossos dicionários fiquem coxos para sempre.

 

[Texto 9690]

Helder Guégués às 07:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «transferibilidade»

Quando menos se espera, faz falta

 

      «As restrições tradicionais à transferibilidade dos factores produtivos e das mercadorias dentro dos limites de todo o território nacional não podem deixar de traduzir-se num prejuízo para certas parcelas desse território — e em regra esse prejuízo recai sobre as colónias mais que sobre a metrópole, que é quem realmente traça a política económica a seguir nas relações com o Império Colonial» (A Unidade Económica entre a Metrópole e o Ultramar no Direito Português, Maria Helena Garcia da Fonseca. Lisboa: Gabinete de Investigações Económicas do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, 1961, p. 88).

      Transferibilidade. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔. E já a encontramos na Grande Enciclopédia Brasileira e Portuguesa.

 

[Texto 9689]

Helder Guégués às 07:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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26
Jul 18

Como se escreve nos jornais

Não é uma casualidade

 

      «Somam-se, também, várias discussões com jornalistas no Twitter, com o empresário a criticar a imprensa por se focar nas casualidades dos acidentes com carros da Tesla» («O castelo de cartas de Elon Musk está a cair», Karla Pequenino, Público, 22.07.2018, p. 13).

      Não é a nossa eventualidade ou acaso — é o inglês casualty, vítimas (feridos ou mortos) mal traduzido. Como é que um erro tão grosseiro e infantil surge num jornal? Há erros e erros e, para mim, deste calibre, num jornal ou num livro, só significa que os editores se fiam na Virgem e nos desprezam, a nós, leitores que pagam.

 

[Texto 9688]

Helder Guégués às 07:22 | comentar | favorito | partilhar
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