07
Ago 18

Léxico: «despacho»

Um guia desorientado

 

      «Tudo aqui diz respeito a juiz, a juízo», perorava, despachado, o senhor engenheiro, que se candidatou duas vezes a guia, certamente a troco de bom dinheiro. «Veja, o orago é Nossa Senhora do Bom Despacho, e aqui à nossa frente temos a antiga cadeia.» Mal sabe o empertigado que aqui na invocação se trata do bom despacho das almas. Despachei-o, judiciosamente.

 

[Texto 9728]

Helder Guégués às 23:53 | comentar | favorito
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Léxico: «pleonasmo»

A propósito de pleonasmo

 

      Interessante. Pleonasmo deixou de ser a «superfluidade de termos, que às vezes têm emprego legítimo, para dar mais força à expressão», como era para Cândido de Figueiredo, para passar a ser o «recurso estilístico que consiste em usar intencionalmente palavras e expressões repetitivas e redundantes para tornar uma ideia mais expressiva (ex.: hemorragia de sangue, etc.)», segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não se andou demasiado depressa?

 

[Texto 9727]

Helder Guégués às 23:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «apoiador»

Dois óbices de peso

 

      «Centenas de apoiadores do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, munidos de bandeiras se reuniram ontem no centro de Caracas para defender o líder de esquerda depois de ataques de drones que o governo classificou como uma tentativa de assassinato» («Maduro convoca apoiadores», Metro São Paulo, 7.08.2018, p. 7).

      Isso nunca podia acontecer em Portugal: não temos um Nicolás Maduro e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem apoiador.

 

[Texto 9726]

Helder Guégués às 21:20 | comentar | favorito
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Políticos: simpleza e esperteza

Pleonasmo nos olhos

 

      «Político tão esperto quanto simplório, Benedito Valadares era governador de Minas quando encontrou na antessala de Getúlio Vargas o ministro da Educação, Gustavo Capanema, que estranhou seus óculos escuros.

      – É uma conjuntivite nos olhos – explicou Valadares.

      – Benedito, isso é um pleonasmo! – reagiu o ministro, professoral.

      Valadares ignorou a observação e entrou para falar com Vargas. O presidente também estranhou os óculos escuros. Ele reagiu:

      – Presidente, o médico lá em Minas disse que era uma conjuntivite nos olhos, mas o Capanema, que quer ser mais sabido que os médicos, me disse que é um pleonasmo!...» («Pleonasmo nos olhos», Cláudio Humberto, Metro São Paulo, 7.08.2018, p. 5).

 

[Texto 9725]

Helder Guégués às 21:08 | comentar | favorito
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Léxico: «feminicídio/femicídio»

Esperamos mais

 

      «O MP-PR (Ministério Público do Paraná) denunciou ontem o professor universitário Luís Felipe Manvailer, de 32 anos, por feminicídio (homicídio em razão da condição do sexo feminino da vítima). Ele é suspeito de ter matado a própria mulher, a advogada Tatiane Siptzner, 29 anos, na madrugada de 22 de julho, em Guarapuava (PR)» («MP-PR denuncia por feminicídio marido de mulher morta após queda», Metro São Paulo, 7.08.2018, p. 3).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define assim feminicídio: «assassínio de mulher ou rapariga, em razão do seu sexo». Nos tempos que correm, muito me admira que não digam «em razão do seu género». (Falha noutro aspecto: femicídio remete para feminicídio, mas este não remete para aquele. Errado.) «O femicídio é descrito como um crime cometido por homens contra mulheres, seja individualmente seja em grupos. Possui características misóginas, de repulsa contra as mulheres. Algumas autoras defendem, inclusive, o uso da expressão generocídio, evidenciando um caráter de extermínio de pessoas de um grupo de gênero pelo outro, como no genocídio» (Pasinato, W. (2011). «“Femicídios” e as mortes de mulheres no Brasil». Cad. Pagu, Campinas, n.º 37, Dezembro de 2011, p. 230).

 

[Texto 9724]

Helder Guégués às 21:01 | comentar | ver comentários (7) | favorito

Léxico: «cornicabra»

Seria muito fácil

 

      Breva, porém, pode ser outra manifestação de bilinguismo numa região fronteiriça. Precisava de tempo para o saber. Ocorre-me outro caso: crê-se, geralmente, que a azeitona da variedade cornicabra é apenas espanhola. Não é, e, assim, também a palavra o não é. Lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «BOTÂNICA variedade de oliveira». Muitíssimo incompleto. Não queria que descrevessem cientificamente este cultivar, mas pelo menos que se dissesse que, embora originário de Toledo, está disseminado na Beira Alta e em Trás-os-Montes, e que designa não apenas a oliveira, como a própria azeitona. Já ficávamos a saber um pouco mais.

 

[Texto 9723]

Helder Guégués às 18:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «bebra/breba/bêbera»

Temos, e melhor

 

      Há-de porque ali estamos em pleno Douro Internacional, mas o Sr. César não tem razão. «Sabe o que são brevas?» Dito assim, secamente, eu não sabia. «Quando vim para cá, um dia um vizinho deu-me duas brevas. São os primeiros frutos da figueira; só depois é que dá figos.» E tinha até uma explicação etimológica: seria «breva» porque era mais «breve». Não é assim. Breva vem do termo latino bifer, «que dá fruto duas vezes ao ano». Breva < bifera < bifer. O termo, porém, é castelhano: «Primer fruto que anualmente da la higuera breval, y que es mayor que el higo», lemos no dicionário da Real Academia Espanhola. Ora, nós temos bebra e bêbera (e, por um fenómeno assaz conhecido, breba, que não vejo nos dicionários), com o mesmo étimo, e até o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora a regista: «variedade de figo preto, grande, comprido e com polpa vermelha, produzido pela abebereira». À higuera breval dos nossos vizinhos corresponde a nossa bebereira ou abebereira. À variedade silvestre de figueira damos o nome, com a mesma etimologia, de baforeira. Ontem, na aldeia do Juízo (recomendo ambos), falaram-me em figos lampos e em figos vindimos, mas isto já eu conhecia há muito.

 

[Texto 9722]

Helder Guégués às 18:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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07
Ago 18

Léxico: «bombardeira»

Não é bem assim

 

      Vários dias em Castelo Rodrigo dão para ver muito. Por exemplo, vi que as bombardeiras (cruzetadas, neste caso) não correspondem à definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «abertura no parapeito para aplicar a bombarda; canhoneira». Ora, no castelo onde podemos ver também o palácio de Cristóvão de Moura (que talvez, afinal, não fosse traidor), as várias bombardeiras localizam-se em diversos pontos da muralha, e não nos merlões. Definição mais correcta é a da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o que já vimos de outras vezes: «Espaço entre ameias, abertura em muro de fortaleza, portinhola, etc., por onde passa a boca da bombarda».

 

[Texto 9721]

Helder Guégués às 17:51 | comentar | favorito