13
Ago 18

Léxico: «manta morta»

Mas regista «manta de retalhos»

 

      «Foram três décadas de constante acumulação de manta morta, que atingiu cerca de metro e meio de altura de folhagens secas e ramos podres, segundo explica o presidente da Câmara de Marvão e também técnico florestal. Luís Vitorino admite que tudo era bem diferente quando havia pastorícia na serra [«do Sapoio — que se eleva a 860 metros de altitude em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede»]» («A noite em que os castanheiros ajudaram os bombeiros em Marvão», Roberto Dores, Diário de Notícias, 12.08.2018, 19h02).

      Surpreende que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe manta morta, um conceito que até as criancinhas têm de aprender ainda muito pequeninas e podemos encontrar em textos de apoio da Infopédia.

 

[Texto 9773]

Helder Guégués às 07:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «casticeira»

Queremos todas as variantes

 

      «“Só tínhamos um carro ligeiro que conseguia ir à zona das casticeiras onde lavrava o fogo”, prossegue, admitindo que se as árvores fossem “resinosas” também teria de haver desbaste para abrir alas à passagem de viaturas. Mas nunca teriam a mesma resistência ao fogo. As folhosas sim. “O castanheiro é que fez o fogo mais lento, ajudando a que a cauda do incêndio não se transformasse na frente”, diz [José Paulo Alexandre, comandante dos bombeiros de Marvão]» («A noite em que os castanheiros ajudaram os bombeiros em Marvão», Roberto Dores, Diário de Notícias, 12.08.2018, 19h02).

      Mais uma infausta vez, parece mentira. Casticeira. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔. Caramba, até no Genuswechsel im Portugiesischen, de Albrecht Pabst, se lê o par casticeira/castinceira.

  

[Texto 9772]

Helder Guégués às 07:53 | comentar | favorito
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Léxico: «enfitar»

Mas vendo bem

 

      «Enfitando-se mais naqueles gritos, pareceu-lhe que eram de gente» (Anátema, in Obras Completas, vol. 8, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 52). É certo que, pelo menos nesta edição, o verbo está grafado em itálico, mas faz mal o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em registar que enfitar é apenas «olhar atentamente». Não é, e o Aulete viu-o bem: «fixar a vista, a atenção; afirmar». Pode sempre fazer-se melhor.

 

[Texto 9771]

Helder Guégués às 07:51 | comentar | ver comentários (6) | favorito

Revisão e uma receita de puré de batata

E nota-se muito, diga-se

 

      «Cozinheiro francês, foi premiado com 31 estrelas Michelin, e era o chefe com mais galardões destes no mundo. Em 1990 foi considerado o cozinheiro do século pelo guia “Gault Millaut”. Era um perfeccionista, que impunha uma disciplina militar nas cozinhas que liderava e a sua receita mais famosa talvez seja a de puré de batata, feita com uma quantidade inacreditável de batata: 250 gramas para um quilo de batatas, fora o leite gordo» («In Memoriam. Joel Robuchon», José Cutileiro, Expresso, 12.08.2018).

      Como alentejano que é, quase de certeza José Cutileiro sabe cozinhar, mas, aqui, não com ingredientes, mas com palavras, foi completamente desastrado, e o revisor não ajudou nada, não por inépcia, mas por outra razão — não há revisor, não há revisão. (E o trema, pá?) Não: o chefe Joël Robuchon por cada quilograma de batata juntava 250 g de manteiga ­— fora o leite gordo, como lembra José Cutileiro. Muito bem, por outro lado, o uso dos termos «cozinheiro» e «chefe». Contudo, porque o leitor não merece só coisas boas, lá nos atirou com o «liderava». Três estrelas em cinco. Ah, sim, eu sei que puré é galicismo, mas tão arraigado, que já ninguém sabe como se dizia em português lídimo. Como era? Mudámos o género, de la purée passou a o puré.

 

[Texto 9770]

Helder Guégués às 07:47 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Que seja porteiro, então

Isso era dantes

 

      «Se no filme de Tavernier estávamos ante a determinação obscena de um canal de TV em busca de audiências, hoje temos ainda a concorrência de toda e qualquer pessoa. A ponto de a função de gate keeper (guarda-portão) que era a dos media clássicos parecer ter-se tornado inútil» («A morte em direto. Ponto de exclamação», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 12.08.2018, 6h18).

      É uma alusão (o que desculpa um pouco o inglês) à teoria de Kurt Lewin. «Kurt Lewin», lê-se no relatório de estágio para obtenção do grau de mestre em Jornalismo de Bruno Rafael Duarte Fernandes (Universidade da Beira Inteior, 2011), «foi o primeiro autor com preocupações sociais na área da comunicação de massas a indicar que a passagem de uma notícia por determinados canais de comunicação depende de “portões” (gates) que funcionam dentro desses mesmos canais de comunicação» (p. 5). Mas também esclarece, numa nota de rodapé à palavra gate, que o termo «tem sido traduzido para português também como “cancela” ou “barreira”». Ou seja, mais valia ter-se traduzido por «porteiro», por exemplo, porque «guarda-portão», além de pouco usado hoje em dia, não evoca, como o termo «porteiro», a ideia do poder que este tem, pelo menos na admissão a alguns locais, como nas discotecas.

 

[Texto 9769]

Helder Guégués às 07:43 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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13
Ago 18

Morgue, necrotério, tanatório... e dicionários

Depósito de cadáveres

 

      No passado mês de Julho, o partido Livre apresentou na 32.ª reunião da Assembleia Municipal de Lisboa a proposta de um tanatório municipal (há apenas um em todo o País, em Matosinhos, afirmam), «um espaço neutro do ponto de vista religioso, que possa servir as cerimónias fúnebres tanto de quem não tem religião, como de quem professa uma religião, maioritária ou não». O que é um tanatório? Demos a palavra ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «edifício onde são preparados os cadáveres para serem cremados ou sepultados». É isto que o Livre pretende? O Tanatório Municipal de Matosinhos é isto? Como se costuma dizer, depende do conceito. Passamos a fronteira, e o dicionário da Real Academia Espanhola garante que tanatorio é o «edificio en que son depositados los cadáveres durante las horas que preceden a su inhumación o cremación». Já é diferente. Depois temos, talvez também mal definidos, dois termos relacionados — ou apenas um, porque se trata de um galicismo e da tentativa de o substituir. Refiro-me a morgue e necrotério. Morgue é o termo francês para... necrotério, que inventámos (inventou-o um brasileiro, o visconde de Taunay) no século XIX. Por uma vez, parece que deu resultado, pelo menos no Brasil, porque cá — perto de uma das igrejas de Castelo Rodrigo, lá está, com entrada por uma porta larga, quase quadrada, de metal destoante, a morgue da vila — prefere-se o termo «morgue». É mais fino, pelos modos. E a definição destes termos? O dicionário da Porto Editora diz-nos que morgue é o «lugar onde se expõem cadáveres cuja identidade se pretende averiguar e onde se fazem autópsias judiciais, necrotério»; já necrotério é o «lugar onde são colocados cadáveres que vão ser sujeitos a autópsia ou cuja identidade se pretende averiguar; morgue». Se são sinónimos, como é que um é um edifício e o outro é um lugar? Para a Real Academia Espanhola, morgue é apenas o «depósito de cadáveres». É óbvio que os dicionários — não nós, falantes, mas os dicionários — só ficaram com um sentido, uma acepção do termo francês. Primeira acepção registada no Trèsor: «Salle où, dans un hôpital, une clinique, un hospice, reposent les morts avant l’inhumation ou les obsèques». Segunda acepção: «Lieu où les cadavres non identifiés sont exposés pour être reconnus. Synon. (à Paris) Institut médico-légal.» Apresenta-se aqui uma boa ocasião para os lexicógrafos repensarem na questão e corrigirem os dicionários.

 

[Texto 9768]

Helder Guégués às 07:35 | comentar | favorito