18
Ago 18

«Nossa Senhora dos Aflitos»

A crase em crise

 

      Em questões linguísticas, boa parte do tempo e dos neurónios dos Brasileiros é dedicada à magna questão da crase. Hoje, porém, também eu vou escrever quatro linhas sobre o assunto. «Sempre que dou o “enter” final na compra de uma viagem da Ryanair, começo logo a rezar à Nossa Senhora dos Aflitos» («Uma aventura gelada no Terminal 2», Edgardo Pacheco, «Sexta»/Correio da Manhã, 17-23.08.2018, p. 29).

      Um pequeno inquérito: levante o dedo quem, do lado de cá do Atlântico (só portugueses, porque, se for ali à Baixa de Cascais, enxameada de compatriotas de Lula da Silva, fica logo falseado), diz da mesma maneira. Obrigado. Não precisa de selo.

 

[Texto 9812]

Helder Guégués às 17:06 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,

«Especulatório»?

O mal está feito

 

      «A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) considera que qualquer conclusão sobre a evolução da qualidade das águas balneares durante a época de 2018 será “extemporânea e especulatória”» («“Extemporâneo e especulatório” falar de qualidade de águas balneares», Rádio Renascença, 17.08.2018, 15h33).

       Dona APA, «especulatório», ao que sei, só se emprega no Brasil. Porque não usa, de futuro, o sinónimo «especulativo», este comprovadamente português? Fica a sugestão. Antes de partir: a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista especulatória, que define como a «intrepretação dos fenómenos da Natureza, no ocultismo». O mal está feito: com esta notícia da RR, alguns ouvintes vão passar a usar indiferentemente «especulativo» e «especulatório».

 

[Texto 9811]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | favorito
Etiquetas:

Léxico: «fachadismo»

É só fachada

 

      José Alberto Rio Fernandes, presidente da Associação Portuguesa de Geógrafos: «O fachadismo é uma expressão, enfim, um neologismo, é uma palavra, diria, criada recentemente, e tem a ver [sic] com a ideia de intervenções urbanas, intervenções de arquitectura, sobretudo, em que é mantida a fachada, mas tudo o resto é profundamente alterado» («Fachadismo. Rentabilidade ou lugares com memória?», Francisco Graça, V Digital, 18.08.2018, 13h00).

      Não tão recente, que há mais de trinta anos que o ouço por aí. Parece-me perfeito. Não dizemos também «é só fachada» para significar que determinada realidade é apenas aparência? Assim como também temos a locução de fachada.

 

[Texto 9810]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Choque e injustiça

Também temos pena

 

      Morreu o ex-secretário-geral das Nações Unidas (um jornalista ignorante poria logo aqui uma vírgula) Kofi Annan. Temos muita pena, todas as vidas e todas as mortes nos merecem respeito, mas há comentários que ultrapassam tudo o que julgamos razoável. O ex-presidente da República Jorge Sampaio, segundo tenho ouvido na rádio ao longo da manhã, afirmou que o desaparecimento súbito de Kofi Annan deixa um «sentimento de choque e injustiça». Isto não é manifestamente desajustado? Apesar de tudo, o ex-secretário-geral das Nações Unidas tinha 80 anos e não foi assassinado pelo Estado Islâmico. Não compreendo.

 

[Texto 9809]

Helder Guégués às 14:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

«Marcas de cães»

Temos pena

 

      «Durante anos não tive nenhuma fé nessa maluqueira, mas hoje estou convencido de que da globalização nos restou pelo menos o consolo de ficar na terra com quase todas as marcas de cães que existem no mundo, desde rottweiler a dobermann e pit bull, passando por labradores, são-bernardos e outros, incluindo até um enorme bicho trazido da Sibéria que vive todo o ano dobrado ao peso do seu longo e pesado e inútil cobertor de pelos. [...] Experimente dar-lhe cavala, sugeri à senhora, nós devemos ser o país que tem mais diferentes marcas de cães, mas todos eles têm em comum alimentarem-se à base de cavala e papas de milho» («Animais de hábitos», Germano Almeida, Diário de Notícias, 12.08.2018, 6h07).

      A brincar, em casa — e sobretudo porque desajoujado do peso do Prémio Camões —, eu também digo «marcas de cães». E se Germano Almeida não está a brincar (como até a repetição indicia), se achar que é assim mesmo que se diz? Tem um problema, e nós temos pena. (E porque está desajoujado no VOLP da Academia Brasileira de Letras e não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora?)

 

[Texto 9808]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Dos teus egrégios avôs»

É essa a questão

 

      Estava a tomar o pequeno-almoço quando um vago conhecido, nem sequer leitor do blogue (ao que suponho, mas nunca se sabe), me pergunta se, no hino, não devia ser «dos teus egrégios avôs». Devia. Já vimos aqui que o plural é sempre do nome masculino. Liberdade de Henrique Lopes de Mendonça (rima falsa?), ou também ele viveu numa época em que já era assim? Melhor: alguma vez se disse «avôs» em vez de «avós»? É isto que importa investigar. Talvez sirva para tese de doutoramento.

 

[Texto 9807]

Helder Guégués às 13:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

«Um tal de», outra vez

Temos o nosso

 

      «Em 1682, um tal de João Rodrigues Canilhas teve consigo uma criança durante mais de um mês e só então foi queixar-se às autoridades, dizendo não ter meios para a sustentar e, obviamente, negociando com sucesso o pagamento de uma quantia mensal de setecentos réis» («O passado é um lugar estranho», António Araújo, Diário de Notícias, 12.08.2018, 6h05).

      Está mal, António Araújo: em Portugal, dizemos um tal. No Brasil é que se diz «um tal de». Ora, o Diário de Notícias é um jornal português, nós, seus leitores, somos portugueses, e o próprio autor do texto é português.

 

[Texto 9806]

Helder Guégués às 10:21 | comentar | ver comentários (3) | favorito
18
Ago 18

Léxico: «personalista»

Isso é que não se sabe

 

      «O novo partido do ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes vai chamar-se Aliança e a recolha de assinaturas para se constituir formalmente arranca na próxima semana, avança este sábado o semanário Expresso. De acordo com declarações de Pedro Santana ao Expresso, o futuro partido será “personalista, liberalista e solidário. Europeísta, mas sem dogmas, sem seguir qualquer cartilha e que contesta a receita macroeconómica de Bruxelas”» («Novo partido de Santana Lopes vai chamar-se Aliança», Rádio Renascença, 18.08.2018, 8h59).

      Personalista em que sentido? Talvez o nome do partido precise de vir sempre acompanhado de um asterisco. Se se chamasse, como se chegou a aventar, PSL, ainda seria mais personalista, e nesse caso dispensaria o asterisco...

 

[Texto 9805]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: