30
Set 18

Léxico: «mosquito-tigre»

Só separados, mosquito e tigre

 

      «O mosquito tigre, com o nome científico de Aedes albopictus, foi detetado em agosto em dois municípios da Extremadura, mas o alerta só foi dado esta quarta-feira pelo ministério de Saúde espanhol que não especificou as localidades» («Mosquito do vírus zika às portas de Portugal», Céu Neves, Diário de Notícias, 30.09.2018, 00h05).

      Não era apenas eu que não sabia isto, pois em zica o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz: «arbovírus do género Flavivirus, da família Flaviviridae, que se transmite pela picada de mosquitos do tipo Aedes». Ou seja, nada de mosquito-tigre (ou mosquito-tigre-asiático) em lado nenhum.

 

[Texto 10 027]

Helder Guégués às 08:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «interdepartamental»

Em coro: só num bilingue

 

      «Em nome do Senhor Ministro da Defesa Nacional e do Exército e no meu próprio exprimo o comum regozijo pelo programado acerto de colaboração interdepartamental concretizado no protocolo ora estabelecido» (Coordenadas Da Política Social, 1970/71, Baltazar Rebello de Souza. Lisboa: Editora Gráfica Portuguesa, 1971, p. 121).

      Descuido-me e ainda sou condecorado. Foge, barão. O propósito, porém, é só um, e completamente altruísta: lembrar que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se esqueceu de registar o adjectivo interdepartamental. E dá jeito, que mesmo agora o usei na revisão de um relatório de uma universidade. Só num bilingue, interdepartmental.

 

[Texto 10 026]

Helder Guégués às 08:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Set 18

Léxico: «adobe»

Também se pode melhorar

 

      Diga-se, já agora, que a definição de adobe nos nossos dicionários também é muito pobre. «Há vários anos que o departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro desenvolve investigação sobre arquitetura de terra, onde se inclui o adobe. [...] Em Portugal, eram usados sobretudo dois tipos de adobe: o de terra (feito com terra argilosa à qual era adicionada, muitas vezes, palha) e o de cal (composto por terra arenosa e cal). Enquanto o primeiro era mais frequente no Alentejo e no Algarve, o último era característico da Beira Litoral» («E se as casas voltassem a ser feitas de areia e cal? Arquitetos querem recuperar a tradição», Joana Capucho, Diário de Notícias, 29.09.2018, 14h36).

 

[Texto 10 025]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
29
Set 18

Léxico: «casa gandaresa»

Eles não sabem

 

      «Agora, as gentes da freguesia tentam recuperar a tradição, também como forma de inverter a tendência de demolição das casas típicas. Ao DN, Raul Almeida, presidente da Câmara Municipal de Mira, confirma que há um interesse cada vez maior na recuperação das casas gandaresas, feitas de adobe de areia e cal, seco ao sol: construções térreas, com pátio fechado, formadas pela sequência janela-porta-janela e um portão largo por onde entravam os carros de bois e o material agrícola» («E se as casas voltassem a ser feitas de areia e cal? Arquitetos querem recuperar a tradição», Joana Capucho, Diário de Notícias, 29.09.2018, 14h36).

      Casas gandaresas? Não procurem nos dicionários, percam tempo de outra forma qualquer.

 

[Texto 10 024] 

Helder Guégués às 17:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «adobeiro»

Para eles, estão extintos

 

      «Manuel Pereira, 62 anos, natural do Seixo, estima que já só estejam vivos três “adobeiros” na freguesia, mas nenhum no ativo. Um deles é o seu pai» («E se as casas voltassem a ser feitas de areia e cal? Arquitetos querem recuperar a tradição», Joana Capucho, Diário de Notícias, 29.09.2018, 14h36).

      Os nossos dicionários já os extinguiram, e por isso os jornalistas até envolvem a palavra no cordão sanitário das aspas, não vá o Diabo tecê-las.

 

[Texto 10 023]

Helder Guégués às 16:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «ajuntada»

Ou rogada

 

      «Quando se aproximava o casamento, os pais dos noivos marcavam um dia para uma “ajuntada” de amigos. De forma voluntária, rapazes e raparigas, novos e velhos, disponibilizavam-se para fazer o material de construção para a casa dos noivos. Escavavam uma cova num terreno de “areia gorda” e extraíam a quantidade necessária, que, misturada com “cal viva” e água, daria origem ao adobe. Foi assim que nasceram muitas das casas que ainda se mantêm de pé – algumas recuperadas, outras em ruínas – na freguesia do Seixo, no concelho de Mira, onde neste sábado haverá uma recriação da sua produção, numa iniciativa apoiada pela Universidade de Aveiro (UA)» («E se as casas voltassem a ser feitas de areia e cal? Arquitetos querem recuperar a tradição», Joana Capucho, Diário de Notícias, 29.09.2018, 14h36).

      Caramba, Joana Capucho, tantas aspas! Ajuntada, diz-nos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o nome que se dá ao conjunto de «pessoas convidadas para fazer um serviço agrícola gratuitamente». Não apenas um serviço agrícola; é sinónimo de rogada, também registado naquele dicionário: «acto de rogar (vizinhos e amigos para cooperarem num serviço gratuitamente)». Há ainda um termo que designa uma realidade semelhante, também regionalismo, mas que o dicionário da Porto Editora não considera assim, que é retada: «serviço que se presta em troca de outro recebido».

 

[Texto 10 022]

Helder Guégués às 16:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «unilateralismo»

Ultrapassado, mas precisamos dele

 

      «“Há duas visões do mundo. Nós pensamos que a visão que se concentra sobre o unilateralismo está errada e cremos que ela será ultrapassada. Para isso precisamos de falar muito uns com os outros”, referiu o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em declarações divulgadas no sábado pelo serviço de notícias ONU News» («Portugal considera que o unilateralismo está errado e ultrapassado, diz Santos Silva», Rádio Renascença, 29.09.2018, 14h45).

      Tão ultrapassado, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem sequer acolhe unilateralismo. Pois, mas está mal. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 10 021]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «uvada»

E por aí fora

 

      Uvada, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «conserva de uvas». Não confundo dicionários com manuais de culinária ou de doçaria, mas há sempre um meio-termo entre a pobreza absoluta e a exuberância de pormenores. «A uvada faz-se nas regiões vinhateiras e consiste na redução de mosto de uva ao lume até ficar bem concentrado» («Recuperar a uvada», Edgardo Pacheco, «Sexta»/Correio da Manhã, 28.9-4.10.2018, p. 33). E, muito a propósito, devo dizer que não percebo porque não estão dicionarizados termos semelhantes. Se os dicionários registam uvada, pessegada, goiabada, marmelada, por exemplo, desconhecem figada, maçanada, e outras. Não, perada conhecem, o leitor é que provavelmente a está a ver pela primeira vez.

 

[Texto 10 020] 

Helder Guégués às 15:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
29
Set 18

Léxico: «samba»

Também dançam

 

      «O samba não é mais do que a fase antecedente de uma síncope. Normalmente, é acompanhada com pequenos espasmos e perdas de coordernação devido ao estímulo já existente do dióxido de carbono resultante do esforço físico e do facto das [sic] reservas de oxigénio estarem escassas. Ocorre com mais frequência nas competições de apneia, e raramente na prática da pesca submarina» («Conceitos de apneia», Vítor Oliveira, monitor da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas, Pesca Submarina, n.º 15, 2011,  p. 56).

      Não é a dança brasileira de origem africana, embora o nome tenha origem nesta. Os lexicógrafos desconhecem esta acepção de samba, que, pelo que vejo, até em Espanha se usa.

 

[Texto 10 019]

Helder Guégués às 14:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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