03
Set 18

Ortografia: «dissensão»

É uma descensão, sim

 

      O termo inglês dissent, desensina o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, pode traduzir-se por «divergência, dissenção, dissidência». Na página 227 do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis (Alfragide: Casa das Letras, 50.ª ed., 2011), diz-se que «descensão é dif. de dissenção». Aqui, Ayala Monteiro dormitou como o bom Homero. Pois se vem do termo latino dissensione, qual a dúvida? E, contudo, podemos ver este erro em vários dicionários. Em dicionários, valha-me Deus!

 

[Texto 9852]

Helder Guégués às 17:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

«Papua-Nova Guiné» — uma coisa absurda?

Onde está a absurdidade?

 

      Pediram a minha opinião sobre este texto de Teresa Álvares, no Ciberdúvidas: «Faço um pedido aos jornalistas: não escrevam nem digam “Papua Nova Guiné”. Não é maneira de designar um país. Este disparate, creio que importado do jornalismo norte-americano, equivale a chamar à Holanda “Holandês Países-Baixos” ou à Grã-Bretanha “Inglês Reino Unido”, etc.

      Se quiserem gastar palavras em vão, digam Papuásia, Nova Guiné, ou Nova Guiné, Papuásia. Papuásia é o nome antigo, hoje substituído por Nova Guiné. Papua indica o indivíduo da etnia dos papuas, uma das que habitam este país da Oceânia.

      Compreendo que não queiram confundir Nova Guiné com Guiné. Mas, para o fazer, não é preciso escrever coisas absurdas» («Inglês Grã-Bretanha?», 24.07.1998).

      Nunca tinha dedicado um instante a semelhante questão — porque não via aí um problema. Para mim, era um dado adquirido que se tratava de dois territórios unidos, como Bósnia-Herzegovina (ou, na designação oficial, Bósnia e Herzegovina). Analisado o caso, não me parece que deva mudar de opinião. Vejamos. A Papua-Nova Guiné, a norte da Austrália, ocupa a parte leste da segunda maior ilha do mundo, a Nova Guiné, o arquipélago de Bismarck e outras ilhas vizinhas. «Em 1884, a Grã-Bretanha fundou a cidade de Porto Moresby, no sul, como ponto de governância do território de Papua, um protetorado. No mesmo ano de 1884, a Alemanha estabeleceu sua base em Finschafen, no norte. Em 1906, Papua tornou-se território australiano e a Nova Guiné Alemã mais tarde (após a Primeira Guerra Mundial) foi também administrada pela Austrália. Os dois territórios foram unidos após a Segunda Guerra e nomeado Território de Papua e Nova Guiné» (Globalização e Identidade Nacional, João Rodrigues Barroso. São Paulo: Editora Atlas, 1999, p. 43).

 

[Texto 9851]

Helder Guégués às 14:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «microcimento»

Neste chão

 

      Vêem-se cada vez mais pisos revestidos a microcimento, uma óptima opção sobretudo nas remodelações, pela pouca espessura do novo revestimento, e porque se pode aplicar praticamente sobre qualquer superfície, com excepção da madeira. Entretanto, os lexicógrafos nem sequer sabem que este material existe.

 

[Texto 9850]

Helder Guégués às 14:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «burra»

Em que se fala de burros

 

      Já vos disse que montei numa burra nestas férias? Então, esqueçam. Mas não tenham pena, era uma possantíssima burra lanuda. «Das burras (bochecha de porco com osso), ao frango de tomatada, passando pelos ovos mexidos com farinheira, é o cliente quem escolhe se quer petiscar e compartilhar entre amigos, ou comer uma dose convencional» («Aconchegante», Pedro Galego, «Sexta»/Correio da Manhã, 27.07-2.08.2018, p. 4). Estas são burras que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, coitado, desconhece inteiramente. (E está acaso certo que todos os dicionários definam hipómetro como o instrumento de veterinária para medir a altura dos cavalos? E se eu tiver de medir a altura de um burro, invento um onómetro? Definir é uma arte.)

 

[Texto 9849]

Helder Guégués às 13:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Calendário islâmico

Não passam do Ramadão

 

      «Todos os anos milhares de fiéis muçulmanos deslocam-se à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita. A peregrinação decorre durante o último mês do calendário islâmico: o Dhu al-Hija. Este é considerado o último pilar do percurso islâmico e é obrigatório para qualquer muçulmano pelo menos uma vez na vida» («As imagens da peregrinação anual a Meca», Diário de Notícias, 24.08.2018, 12h42).

      Pois, mas é melhor escrevê-lo em português, ou aportuguesado, ou não? É que há portugueses muçulmanos — e nós todos também precisamos. Vá lá, são só doze, como os nossos, e já os vi escritos assim: Moarrão, Safar, Rabi I, Rabi II, Jumada I, Jumada II, Rajabe, Xabão, Ramadão, Xaual, Dulcadá e Dulijá. Infelizmente, os lexicógrafos acham que basta registarem o nono mês. Alguns — mas não, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — também acolhem o primeiro, Moarrão.

 

[Texto 9848]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Léxico: «vespa-asiática»

Dez meses mais tarde

 

      «Em Ribeira de Pena, a autarquia arregaçou as mangas para dar formação e comprar equipamentos próprios para combater a vespa asiática. [...] A autarquia conta ainda com ajuda da população para sinalizar os ninhos que forem encontrando no caminho. São ninhos redondos e de grandes dimensões, às vezes cinco vezes maiores do que uma bola de futebol» («Com fogo ou insecticida, está aberta a caça à vespa asiática», Teresa Dias Mendes, TSF, 26.08.2018, 11h50).

      Foi ainda recentemente que sugeri a inclusão de vespa-asiática no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas creio que está na hora de acrescentar alguma coisa à definição: já não digo a dimensão dos ninhos (e, afinal, porque não?), mas, pelo menos, que se trata de uma predadora da nossa simpática abelha melífera.

 

[Texto 9847]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | favorito | partilhar
03
Set 18

Léxico: «heptatleta»

Com licença...

 

      «Armand nasce nos EUA e fixa-se com o pai, um advogado e ex-atleta, e a mãe, uma personal trainer e antiga heptatleta, em Louisiana. Tem dois irmãos mais velhos, também desportistas» («Armand Duplantis», Diogo Pombo, «Revista E»/Expresso, 18.08.2018, p. 14). Somos logo atacados por fornicoques e queremos despiorar o texto: «Armand nasce nos EUA e fixa-se com o pai, advogado e ex-atleta, e a mãe, treinadora pessoal e antiga heptatleta, no Luisiana.» Quase nada, mas fica muito melhor. Os fornicoques vão mais longe, e queremos que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe o vocábulo heptatleta, até porque já tem heptatlo.

 

[Texto 9846]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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