05
Set 18

Léxico: «cherem»

Ah, isso é que não é

 

      «Espinosa nasceu e viveu em Amesterdão, mas foi banido da Sinagoga Portuguesa em 1656, tendo de abandonar a cidade. O chérem que sofreu é a punição máxima da religião judaica, mas, de início, nada fazia prever a heresia» («Nos Países Baixos», Carlos Fiolhais, Público, 5.09.2018, p. 39).

      Também não se compreende esta ortografia. O acento agudo representa alguma espécie de aportuguesamento? Então, não se escreve em itálico. Mais e muito mais importante: o cherem, uma espécie de anátema (e não de excomunhão, como se lê aqui e ali), não é a punição máxima da religião judaica.

 

[Texto 9864]

Helder Guégués às 11:01 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «euro-africano/afro-europeu»

Mais difícil do que a Física

 

      «Um português em turismo nos Países Baixos não pode deixar de dar uma volta de barco pelo labirinto dos canais de Amesterdão, ligados ao rio Amstel. Farid, o “capitão-guia” da minha embarcação, era euroafricano, de pai holandês e mãe marroquina» («Nos Países Baixos», Carlos Fiolhais, Público, 5.09.2018, p. 39).

      Está mal escrito, Senhor Professor Carlos Fiolhais: é euro-africano. Curiosamente (?), o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista eurafricano — para não fugir muito ao francês eurafricain, pois claro... Ao mestiço de europeu e de africano também se pode dar o nome, suponho, de afro-europeu, que o dicionário da Porto Editora tão-pouco regista. Se me disserem que afro-europeu se refere somente aos que têm origem subsariana, então respondo que todos os termos iniciados com o elemento de formação afro- estão mal definidos.

 

[Texto 9863]

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Dois maridos, duas mulheres

Aqui não há esposa

 

      «Marido de Manuel Luís Goucha estreia-se como repórter», li há dias na TVMais. O Aulete é que ainda não acompanha os novos tempos, pois define marido como o «homem casado (em relação à sua esposa); esposo». Desempoeirado é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, para o qual marido é o «homem em relação à pessoa com quem está casado; cônjuge do sexo masculino; esposo». Reparem: «em relação à pessoa com quem está casado» — seja homem, mulher, transgénero, cisgénero.

 

[Texto 9862]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Tradução: «fatality»

Ou faço um desenho?

 

      Houve um acidente ferroviário em Angola. Vai daí: «A Agência de Notícia de Angola, a oficial do Estado angolano, fala em 17 mortos mas a empresa de Caminhos de Ferro de Moçamedes (CFM) só confirma seis fatalidades. Há um número de feridos por determinar, em resultado da colisão entre dois comboios, na província angolana do Namibe, sul do país» («Pelo menos 17 mortos em colisão entre dois comboios em Angola», TSF/Lusa, 4.09.2018, 15h15).

      Eles dizem que sabem — mas nós sabemos bem que não. Senhores jornalistas, em inglês, fatality, além de «helplessness in the face of fate», a nossa fatalidade, o acontecimento que não se pode evitar, adiar ou alterar, também é o que a nossa fatalidade nunca foi — «an occurrence of death by accident, in war, or from disease», ou seja, a morte resultante de um acidente, de uma catástrofe, de uma guerra, etc. (Escreve-se, porque já vi que também não sabem, Moçâmedes.)

 

[Texto 9861]

Helder Guégués às 08:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «testemunho»

Não é uma declaração

 

      «Os investigadores precisaram quer a cronologia quer os valores de variação do nível global dos oceanos durante o último glaciar máximo, graças a dados geomorfológicos e de sedimentação do fundo marinho. Analisaram também os testemunhos obtidos na perfuração com 34 sondas no subsolo da margem da plataforma no nordeste da Austrália, comparando com dados da Grande Barreira de Coral australiana» («Cientistas comprovam que nível dos oceanos desceu bruscamente 40 metros há 30 mil anos», Rádio Renascença, 4.09.2018, 15h28).

      Dá-se o triste caso, e não acontece somente com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de esta acepção de testemunho — e já aqui falei de um sinónimo, tarolo — se mostrar arisca com os lexicógrafos.

 

[Texto 9860]

Helder Guégués às 08:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «balúchi»

Tapete, língua, povo

 

      De Damasco, mandaram-lhe um presente: um belo tapete balúchi. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔. Ah, sim, o dicionário da Porto Editora regista baloche, mas já a insuperável Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira registava balúchi: «Uma das línguas do ramo irâmico.»

 

[Texto 9859]

Helder Guégués às 08:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Pobre ortografia

Então, é simples

 

      «A rádio pública de Israel emitiu um pedido de desculpa aos seus ouvintes depois de ter passado uma música [Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses)] de Richard Wagner. O compositor alemão do século XIX não é bem visto [sic] em Israel, por causa das suas posições antisemitas e por ser adorado por Adolf Hitler» («Rádio israelita pede desculpa por passar Richard Wagner», Rádio Renascença, 4.09.2018, 15h56).

      Disseram-lhes que com o Acordo Ortográfico de 1990 era simples, bastava eliminar os hífenes, e eles assim fizeram: «anti-semita», é claro, passa logo a *«antisemita». (Richard Wagner malvisto em Israel por ser «adorado» por Hitler passa um pouco das marcas. E se Hitler também «adorasse» salsichas, que devíamos fazer? No mesmo artigo: «O pedido de desculpa da rádio pública foi criticado por Jonathan Livny, diretor da Wagner Society de Israel, para quem o mais importante é a “beleza” da música e não as ideias de quem a compõe.» O Times of Israel alarga-se nos motivos da rejeição do legado wagneriano: «is infused with anti-Semitism, misogyny, and proto-Nazi ideas of racial purity, was Adolf Hitler’s favorite composer».)

 

[Texto 9858]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
05
Set 18

Léxico: «indilgar»

Conceda-se-lhes a honra

 

      Chega-se a Escalhão, e logo um escalhense nos aponta um dedo orgulhoso para uma palavra na página 927 da 10.ª edição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa de Morais Silva: «Indilgar, v. int. Ter. de Escalhão. Trabalhar com actividade, diligência, desembaraço.» Como já tive oportunidade de escrever no Assim Mesmo, o termo foi quase de certeza importado de Espanha, onde também existe um indilgar/endilgar — «encaminar, dirigir, acomodar, facilitar». Portanto, único apenas cá. Escalhão, porém, já tem motivos de sobra para se sentir orgulhosa, tais como a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, a igreja matriz, com um poço lá dentro (único no País?), as marcas de uma significativa presença histórica de judeus, ser a maior aldeia de Portugal, etc. E, contudo, acho muito mal que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe indilgar nem indilgadeira. Nem escalhense, por certo.

 

[Texto 9857]

Helder Guégués às 07:27 | comentar | favorito
Etiquetas: ,