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Linguagista

Ficaram de fora e são muitos

No reino do dicionário

 

      A esta hora, está uma multidão de tigrés e de escalhenses à porta da Porto Editora para tentarem entrar. Mas há outros. Um figueirense exige que o hipómetro meça qualquer equino ou muar. Um grupo ruidoso, mas desarmado, de muçulmanos exige a dicionarização dos nomes dos meses do calendário islâmico. Um chefe obscuro, acolitado por um crítico gastronómico dispéptico, quer o limão tangerino no dicionário. Já! Um alentejano, moreno como um mouro, exibe, orgulhoso, um par de decas. Um cantautor luso-espanhol mostra, despeitado, um cartaz em que se lê «cantor × autor» com um ponto de interrogação gigantesco. Acho que está aqui a preparar-se uma revolta popular.

 

[Texto 9872]

Léxico: «Guzerate»

Andam lá perto

 

      «A estátua é uma homenagem a Sardar Vallabhbhai Patel, herói indiano que lutou pela independência do país na década de 1940 e primeiro vice-ministro do país depois da independência, além de outros cargos durante a formação do Estado da Índia. Patel, também chamado “homem de ferro da Índia”, nasceu no estado de Gujarate a 31 de outubro de 1875, pelo que a estátua foi construída no mesmo estado e será inaugurada nesse dia de 2018» («Estátua mais alta do mundo está na Índia», Rádio Renascença, 6.09.2018, 8h15).

      Não: em português, é Guzarate ou Guzerate, opção também de Rebelo Gonçalves. No verbete do gentílico, também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe guzarate e guzerate, mas a definição tem de ser corrigida. Veja-se: «natural ou habitante da região indiana de Guzerate». Estado, não região.

 

[Texto 9871]

Léxico: «megacidade»

Só nos ingleses

 

      «A relação entre o número de habitantes de uma megacidade, isto é, grandes áreas metropolitanas que concentram mais de 10 milhões de habitantes, e o número de voos que saem e chegam aos aeroportos dessas cidades não é linear. Olhando para os números, os contrastes são evidentes» («Quantas ligações aéreas têm as megacidades?», André Rodrigues, Rádio Renascença, 6.09.2018).

      Que esperam, digam-me, os lexicógrafos para dicionarizar o vocábulo megacidade? Caramba, é um conceito, encontramo-lo com alguma frequência.

 

[Texto 9870]

Fermentação e lactose

Processada ou reduzida?

 

      «Bastaram, no entanto, 500 anos para que o leite fermentado entrasse na alimentação daqueles grupos, como mostra a descoberta feita na Croácia. Guardado em recipientes feitos de uma mistura de argila, água e areias, o leite acabaria por fermentar e o resultado – queijo e iogurtes – revelaram-se uma fonte de alimento mais segura para todos – no leite fermentado, a lactose já está processada» («Queijo já se produzia no Mediterrâneo há 7200 anos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 5.09.2018, 20h41).

      No leite fermentado, a lactose já está processada? E que significa isso exactamente? O que se lê na revista científica citada, a Plos One, é isto: «Furthermore, fermentation of milk into yogurt or cheese lowers lactose content and allows lactose intolerant individuals to reap the benefits, while maintaining, or in some cases enhancing, other essential nutrients such as fat and calcium.»

 

[Texto 9869]

Léxico: «malparecido»

Pela metade

 

      Era assim e assado e «and not ill-looking». Para o tradutor, «e não mal-parecido». Umas luzes sobre ortografia faziam-se aqui necessárias, mas mais rápido e mais útil a todos é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passar a registar a palavra malparecido, pois já acolhe, há décadas, bem-parecido. Não compreendo estas falhas num dicionário.

 

[Texto 9866]

Léxico: «dubaiano/dubaiense»

Não se espere mais

 

      Pessoas próximas de mim foram (uma repete o destino há anos) passar férias ao Dubai. Não me perguntem o que vão lá fazer. Imagino que o mesmo que um alentejano quando visita a capital: enfiar-se no Colombo. Ar condicionado. Entretanto, há aqui uma incompreensível lacuna. Ontem, saiu-me naturalmente «dubaiano», mas admito perfeitamente que a opção por «dubaiense» seja também legítima, só que os lexicógrafos não atam nem desatam. (Título da Renascença, ontem: «Papa critica “sede de férias” que “não dão descanso”». É verdade, hoje em dia, temos de descansar das férias. Uma espécie de desintoxicação.)

 

[Texto 9865]