09
Set 18

Léxico: «talha»

Vaso, estruturas, hum...

 

      «Já quanto a copos, o mais aconselhado é pedir vinho de talha, produzido de forma tradicional nas enormes estruturas de barro que dão um traço único à decoração do espaço» («Na festa do deus Baco», Pedro Galego, «Sexta»/Correio da Manhã, 7-13.09.2018, p. 41).

      Com que então enormes estruturas de barro... Também é mau que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas na versão com o Acordo Ortográfico de 1990 registe esta acepção do vocábulo talha, cuja definição, diga-se, também não é um primor: «vaso grande para água, azeite, etc.». Um selenita ficaria com uma ideia muito errada, convenhamos.

 

[Texto 9888]

Helder Guégués às 19:40 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar

Léxico: «lobinho»

Libido sciendi

 

      Tanta ignorância e tão pouco tempo para a desbastarmos! Temos, é certo, a libido sciendi, actualmente exalçada e pouco exercida, mas, ainda assim, fica-se sempre muito longe. Só hoje é que soube que, popularmente, se dá o nome de lobinho ou lúpia ao quisto sebáceo subcutâneo. Alguma relação com lúpus? Vejam no Google Imagens e horrorizem-se.

 

[Texto 9887]

Helder Guégués às 13:26 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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«Olhe-se e veja-se»

Pode estar aí o mal

 

      «Olhem-se para todas as estatísticas e veja-se com satisfação que Portugal como sociedade dá hoje mais oportunidade do que nunca. Olhe-se para à União Europeia e veja-se como temos uma sorte tremenda de fazer parte de um espaço tão grande de prosperidade, onde se pode estudar ou trabalhar com todas as garantias» («O meu filho de 2000 entrou ontem na universidade. Festejei, mas...», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 9.09.2018, 9h09).

      Uma espécie de hipercorrecção? Tinha, pelo menos, duas formas de acertar: «Olhem para todas as estatísticas e vejam com satisfação que Portugal como sociedade dá hoje mais oportunidade[s] do que nunca.»/ «Olhe-se para todas as estatísticas e veja-se com satisfação que Portugal como sociedade dá hoje mais oportunidade[s] do que nunca.» E a «assinatura» no fim do artigo? «Enviado do meu iPhone». Pois é, pode estar aí não apenas o meio, mas o mal.

 

[Texto 9886]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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«Uma das razões por que...»

Isto não pode continuar

 

      «Se tivesse falhado por uma ou duas décimas, hoje provavelmente era um advogado formado em Coimbra, a celebrar a entrada do filho no Ensino Superior. Bem, na realidade nem sequer haveria Daniel, pois a mãe é uma antiga colega iscspiana. Quem disse que a universidade não molda o nosso futuro? Na Junqueira descobri mestres, lá fiz amizades para a vida» («O meu filho de 2000 entrou ontem na universidade. Festejei, mas...», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 9.09.2018, 9h09).

      É bom termos mestres a vida toda, e não apenas na universidade. Leonídio Paulo Ferreira, é os Braganças e não os Bragança, como escreveu recentemente. Não lhe perdoo essa, como não perdoo estoutra de hoje: «Uma das razões porque não fui para História foi o ouvir a toda a hora que era um curso que não tinha saídas, o que é falso.» Não! «Uma das razões por que...»

 

[Texto 9885]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | favorito | partilhar
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Ortografia: «beneficente»

Para quê, não é?

 

      «Este ano Sadie Bristow já tinha vencido mais de 40 jogos de ténis no segmento da liga inglesa para a sua idade: 9 anos. Mas a jovem tenista britânica não resistiu a um choque anafilático durante as férias com a família na região de Kent. Ainda foi aerotransportada para o Hospital São Jorge em Londres[,] mas não sobreviveu. [...] O pai anunciou que pretende criar uma organização beneficiente com o seu nome para pessoas com a mesma doença: “Ela foi uma inspiração e queremos que isso continue”» («Jovem tenista inglesa morre aos 9 anos», Diário de Notícias, 7.09.2018, 21h00).

      Como é que ainda há jornalistas que erram em coisa tão comezinha? É beneficente, como é beneficência, outra vítima frequente da insciência dos torcionários da língua. No caso, o mais revoltante é que a edição é digital e ninguém corrige nada — mas não deixam de receber o preço da edição premium. Passam minutos, horas e dias e é como se tivesse sido escrito na pedra. Tinha de haver aqui, na falta de revisores, uma revisão cruzada feita pelos próprios jornalistas: se foi escrito por A, é relido/revisto por B.

 

[Texto 9884]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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09
Set 18

Léxico: «comparência/comparecência»

Mais breve

 

      «A sua comparecência em jantares literários, nos quais se reunia com outros autores e editores, era frequente, tal como frequente era também a sua presença à mesa do próprio Graham» (Poe, Uma Vida Abreviada, Peter Ackroyd. Tradução de Alberto Simões e revisão de Idalina Morgado. Parede: Edições Saída de Emergência, 2009, p. 87).

      Todas têm direito a existir, mas por algum motivo temos a variante, mais breve e vinda directamente do latim, comparência.

 

[Texto 9883]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | favorito | partilhar
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