12
Set 18

«Cônjuge», uma palavra amaldiçoada

Há poucas assim

 

      «Atualmente, a Constituição romena diz que um casamento é uma união entre “conjugues”, não definindo sexo nem orientação sexual» («Roménia vai referendar definição constitucional de “família”», Rádio Renascença, 12.09.2018, 14h53).

      Pobres Romenos, e pobres jornalistas, leitores e ouvintes. Então não é cônjuge, caramba? E conseguirão articular a palavra sem umas sessões de terapia da fala? E escrevê-la sem um professor ou revisor ao lado? Há poucas palavras tão maltratadas como «cônjuge»: estropiam-na na oralidade e na escrita, e aqui de várias maneiras. E, para cúmulo, deram em falar de «o» cônjuge e «a» cônjuge. A palavra é do género masculino!

 

[Texto 9906]

Helder Guégués às 16:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «superenxame»

Lá longe

 

      «Situada a aproximadamente 65 milhões de anos-luz de distância da Terra, a galáxia faz parte do grupo NGC 4038, pertence à maior Nuvem da Taça, por sua vez uma componente menor do Superenxame da Virgem, uma enorme coleção de galáxias que engloba a nossa Via Láctea» («Uma jóia galáctica como nunca a vimos», Carolina Rico, TSF, 12.09.2018, 15h42). E mais: «No centro brilhante, podemos observar uma região altamente energética que contém um buraco negro supermassivo, descreve o ESO.»

      Superenxame. Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é todo teu. Carolina Rico, escreva «supermaciço», é mais português. E, já que tem de obedecer às regras do Acordo Ortográfico de 1990, faça-o plenamente e com conhecimento: é «joia», porque foi eliminado o acento no ditongo oi em palavras graves.

 

[Texto 9905]

Helder Guégués às 16:37 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «palatabilidade»

Todo teu

 

      «Cada episódio “tem várias fases sintomáticas e, para além da dor, há uma fase premonitória que prevê, com alguma precisão, a enxaqueca. Isto acontece algumas horas ou até mesmo um dia inteiro antes da dor e inclui sintomas não dolorosos: sensibilidade sensorial, irritabilidade, cansaço extremo, fome (apetite muito maior que o habitual) e a procura por alimentos com alta palatabilidade”, explica Margarida Martins Oliveira [neurocientista e nutricionista]» («Enxaqueca: “um bicho-papão” que pode ser controlado com a comida», Gonçalo Teles, TSF, 12.09.2018, 10h21).

      Palatabilidade. Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é todo teu. E fiquem a saber que hoje é Dia Europeu da Acção contra a Enxaqueca.

 

[Texto 9904]

Helder Guégués às 15:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «armínio»

Está e não está

 

      Jean Le Clerc (1657-1736), ávido de conhecimento, fixou-se em Amesterdão, e foi durante vinte e sete anos professor de Filosofia, de Humanidades e de Hebraico no colégio dos armínios daquela cidade. Sim, até porque ensinar ainda é uma maneira de aprender. Ora bem, armínio só encontramos no Dicionário de Português-Francês da Porto Editora, que remete sem mais delongas (nem se vê o verbete!) para arminiano. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só arminiano e arminianismo: «RELIGIÃO sistema teológico criado por Jacobus Arminius (1560-1609), que negava a doutrina calvinista da predestinação absoluta, afirmando serem compatíveis a soberania de Deus e o livre arbítrio [sic] humano». A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira tem outro enfoque: «Movimento dissidente do calvinismo que, sob os auspícios de Jacob Armínio, se declarou na Holanda em 1588. Combatia as teorias de Calvino sobre a predestinação e a submissão absoluta do homem ao poder de Deus.»

 

[Texto 9903]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Hokkaido/Hocaido

Não queremos mais, obrigado

 

      «Compete pelo Japão, mas tem tido aulas para melhorar o domínio da língua materna. E ao que parece a história de amor dos pais foi complicada pelas diferenças culturais: os avós japoneses de Naomi estiveram anos sem falar com a filha por causa da relação. Dentro de dias, a tenista vai ao Japão, a Tóquio. O avô, que vive em Hokaido, a ilha mais setentrional das quatro grandes japonesas, está orgulhoso do feito da neta e já disse que assistirá ao Toray Pan Pacific Open» («E elogiar a japonesa Naomi em vez de só se falar da birra de Serena?», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.09.2018, 13h51).

    Uma alma mais benevolente (e desatenta) dirá que é uma tentativa de aportuguesamento. Será — mas canhestra e extemporânea. Já temos Hocaido. Lá porque o Acordo Ortográfico de 1990 readmitiu, em má hora, as tais três letrinhas antes proscritas, não quer dizer que se possa proceder assim. Com um k apenas, é erro, não aportuguesamento. «Na Ásia os exemplos mais característicos de paisagem geométrica encontramo-los na Sibéria, e até no Extremo Oriente, nomeadamente em Hocaido e na Manchúria» (Geografia: Aspectos de Portugal e do Mundo Contemporâneo, Odete Sousa Martins. Lisboa: Emp. Lit. Fluminense, 1977, p. 72).

 

[Texto 9902]

Helder Guégués às 11:17 | comentar | favorito
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Os árbitros ajuízam?

Vá lá, juizinho

 

      «Árbitros de ténis estão a ponderar recusar ajuizar partidas de Serena Williams, devido à atitude da tenista na final do US Open com o árbitro português Carlos Ramos, avança o jornal “The Times”» («Árbitros querem boicotar jogos de Serena Williams», Rádio Renascença, 11.09.2018, 12h13).

      Usa-se este verbo como sinónimo de «arbitrar»? Nunca antes vi. No Times, o verbo usado é to officiate, cuja acepção desportiva o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora nem sequer regista. Mas no Collins: «When someone officiates at a sports match or competition, they are in charge and make sure the players do not break the rules.» Tudo leva a crer que foi o tradutor de ocasião que entendeu que se podia dizer desta maneira. «Umpires are considering refusing to officiate matches involving Serena Williams, such is the level of discontent over the treatment of Carlos Ramos during and after the US Open final.» Agora é preciso ficarmos atentos ao uso deste verbo na imprensa.

 

[Texto 9901] 

Helder Guégués às 07:17 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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12
Set 18

«Antinómio»?

Muito me contam

 

      «Nas décadas posteriores, o uso deste antinómio [ordem/desordem] faz-se quase exclusivamente nos discursos comemorativos do 28 de Maio, ainda que se não caísse no exagero de mencionar a multiplicidade de aspectos que compunham a “desordem republicana” ou de repetir sistematicamente todas as realizações da obra sempre “inacabada” do Estado Novo» (Os Discursos e o Discurso de Salazar, José Martinho Gaspar. Lisboa: Prefácio, 2001, p. 110).

      Podia rastrear o uso do termo em teses, dissertações, discursos oficiais, literatura... Nem sempre sabemos, quando estamos perante um erro, tão bem como nesta citação acima o que pretende o autor dizer. Pois, é «antinomia». Só há um problema: «antinómio» não existe. O que existe é o adjectivo «antinómico» (que forma uma antinomia; oposto; contraditório), relativo a «antinomia». E depois temos o antimónio, o elemento com o número atómico 51. Em suma, quando os textos, seja qual for a sua natureza, não são revistos, nota-se muito. Até de olhos fechados.

 

[Texto 9900]

Helder Guégués às 06:53 | comentar | favorito