21
Set 18

Ortografia: «enviesado»

Invigilante, o erro

 

      «Além disso, ao serem reunidos e compactados em álbuns fotográficos representativos da “classe criminosa” ou da “turba medonha”, os sujeitos implicados perdem inexoravelmente a individualidade a que deveriam ter direito em qualquer circunstância, e que apenas ressurgirá nos raros casos de uma súbita ainda que inviesada celebridade, alcançada por divulgação desses mesmos retratos nas primeiras páginas dos jornais ou em “galerias de criminosos célebres”, um género editorial que fez época» («Caleidoscópios do crime», Vasco Rosa, Observador, 30.07.2018, 16h05).

      Entretanto, já Vasco Rosa saberá que não é assim que se escreve a palavra. Um momento invigilante, e eis que surge o erro. Há, é verdade, palavras que se escrevem quer com o prefixo in- quer com o prefixo en-, mas não é o caso desta. Enviesado. Haverá aqui confusão com «invés»? Talvez. Certo é que não é o único erro em que a palavra, inocente, se vê envolvida: já a vi escrita com z.

 

[Texto 9963]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «taralhão»

Trabalho de campo

 

      «Foi a deambular pelas margens e pelo lodo da ria Formosa que começou a observar seres que se enterravam no lodo, mas que desconhecia como se chamavam. Procurou informação junto dos locais [sic] que lhe indicaram o nome (taralhão) acrescentando que não servia para comer. Contudo, investigou e percebeu que nos Estados Unidos da América havia algo parecido chamado geoduck que, preparado, atinge preços altíssimos. Em Portugal, os taralhões que lhe chegam têm 14 a 15 centímetros de comprimento por seis de largura» («O ingrediente secreto do chef Leonel Pereira», Diário de Notícias, 19.09.2018).

      Sim, taralhão (Panopea generosa). Infelizmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só conhece dois tipos de taralhões: o pássaro da família dos Muscicapídeos e o indivíduo implicante e intrometido. Tudo leva a crer que o taralhão preparado pelo chefe Leonel Pereira é melhor.

 

[Texto 9962]

Helder Guégués às 11:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «patógeno»

Eles têm

 

      «“O risco de exposição humana a estes patógenos é um importante problema de saúde pública”, diz a equipa de técnica liderada por Montalvo [biólogo da Agência de Saúde Pública de Barcelona]. [...] Os ratos de esgoto, da espécie Rattus norvegicus, chegaram a Espanha em finais do século XIX, oriundos da China. Atingem a maioridade às oito semanas de vida, e num só ano podem ter até sete ninhadas, de 11 a 14 crias» («Barcelona contou os ratos que tem nos esgotos: são 200 mil», Diário de Notícias, 21.09.2018, 18h45).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, os ratos ainda não têm nome científico, coitados. Coitados de nós, não dos ratos. Mas não estou aqui apenas para isso. Patógeno. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: ✘. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 9961]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «picha»

Com licença

 

      «Desde pequeno que me fascinam, tive a sorte de nascer numa cidade de mar e de conhecer muitas peixeiras no mercado ou andando de chinelas pela rua a apregoar sardinhas e pichas (nome que se dá na Figueira da Foz ao camarão pequeno)» («Elogio das peixeiras», Nuno Camarneiro, Diário de Notícias, 21.09.2018, 6h21).

      Pichas há muitas. Até como topónimo. Não apenas num, mas em vários dicionários se lê que é termo da Figueira da Foz. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, é um termo popular.

 

[Texto 9960]

Helder Guégués às 10:05 | comentar | favorito
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Léxico: «recondução»

Nenhuma serve

 

      «O constitucionalista Pedro Bacelar Vasconcelos frisa que nada na Constituição da República proíbe a recondução de um Procurador-Geral, mas lembra que a prática reiterada tem sido de mandatos únicos» («“Três últimos Procuradores cumpriram mandatos únicos”, diz Bacelar Vasconcelos», Marta Miranda, TSF, 20.09.2018, 8h37).

      Recondução está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não me parece que a definição esteja correcta. A definição correcta, a meu ver, teria de ir buscar um pouco das acepções 2 e 3. Vejamos. Acepção 2: «prolongamento do período de um contrato, sem alteração das condições». Acepção 3: «manutenção num cargo além do tempo anteriormente fixado». Pensem porquê.

 

[Texto 9959]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Casa mater»?

Mãe alimentadora

 

      «“A universidade, a minha universidade foi sempre a minha praça-forte, a minha casa ‘mater’, o meu último refúgio”, afirmou o Presidente na sua última aula» («Marcelo despediu-se da “fascinante aventura” do ensino», Rádio Renascença, 20.09.2018, 18h21).

      Nunca tinha visto tal. O que sempre se usa, e está dicionarizado, é alma mater. Conheciam?

 

[Texto 9958]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Para pior, antes «ateliê»

Está ganha

 

      «De acordo com a publicação da área do design e da arquitetura, Robert Venturi, que era considerado um ícone da arquitetura americana, deixa vivo o seu legado, através do ateliê Venturi Scott Brown Associates (VSBA)» («Morreu o arquiteto Robert Venturi, um pós-moderno», Rádio Renascença, 20.09.2018, 17h13).

      Como já escrevi há uns anos, quando se chegasse a admitir este aportuguesamento em relação aos gabinetes de arquitectura, a batalha estava ganha. Pode não ser o ideal, mas pior era atelier, e logo com o itálico nem sempre respeitado. Ainda me chegaram a recomendar, alguém de vistas curtas (felizmente já me esqueci do nome da pessoa), que não o aportuguesasse. Ontem, porém, num semáforo, ao meu lado estava uma carrinha com os dizeres «atelier de serralharia». Pois é...

 

[Texto 9957]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
21
Set 18

Tradução: «zipline»

Há cinco anos

 

      A Câmara da Nazaré vai abrir concurso para a instalação de um projeto de “zipline” que permitirá fazer uma descida de 800 metros, entre o Sítio e a Praia, por cabo aéreo. [...] A Zipline ou tirolesa é uma experiência que “permitirá a descida entre o Sítio e a Praia por cabo aéreo de aço, numa extensão de pelo menos 800 metros”, explicou o autarca, que pretende concessionar o projeto a uma empresa privada por um período de 20 ou de 25 anos, conforme “o volume de investimento que vier a ser efetuado”» («Nazaré aprova concurso para instalação de um cabo entre o Sítio e a praia», Rádio Renascença, 20.09.2018, 19h02).

      A palavra que logo lhes acode em primeiro lugar é estrangeira (que nem sequer aparece em todos os nossos dicionários bilingues). Só depois, e nem sempre, se lembram de que são portugueses a escrever para portugueses. Tirolesa, nesta acepção, se se lembram, foi incluída no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora por sugestão minha, em 2013.

 

[Texto 9956]

Helder Guégués às 08:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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