28
Set 18

Léxico: «micronésio»

Já que falam nisso

 

      «“É uma sorte que não tenhamos tido mortes”, disse Glenn Harris, inspetor de segurança do Governo dos Estados Federados da Micronésia, uma nação insular da Oceânia. [...] A Micronésia, localizada ao norte da Austrália e a leste das Filipinas, abriga pouco mais de 100 mil pessoas» («Uma história com final feliz: 40 pessoas sobrevivem a amaragem de avião», TSF, 28.09.2018, 9h58).

      Indirectamente, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «relativo ou pertencente aos Estados Federados da Micronésia, no Pacífico Ocidental, ou que é seu natural ou habitante». Podia estar melhor: «relativo ou pertencente aos Estados Federados da Micronésia, uma nação insular no Pacífico Ocidental, ou que é seu natural ou habitante». Ficamos então a saber que, apesar de tudo, não temos de recear voar na Air Niugini.

 

[Texto 10 017]

Helder Guégués às 15:43 | comentar | favorito

Léxico: «Caripunas/caripuna»

Povo de maus costumes, diz ele

 

      «Pelo menos 110 indígenas foram mortos de forma violenta no Brasil no ano passado, informa um relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), uma organização ligada à Igreja católica que trabalha na defesa dos direitos indígenas. [...] “Quase extintos na época dos primeiros contactos com a sociedade não indígena, nos anos de 1970, os Karipuna não podem caminhar livremente pelo seu território, homologado em 1998. Além do aprofundamento da invasão da terra indígena Karipuna desde 2015 para o roubo de madeira, a ‘grilagem’ [ações de falsificação de documentos para, ilegalmente, ser tomada a posse de terras], e o loteamento são outros crimes que vêm sendo, insistentemente, denunciados”, diz o Cimi» («Mais de 100 índios assassinados no Brasil no último ano», TSF, 28.09.2018, 10h13).

      Coitados dos jornalistas. Não: Caripunas (que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora), que são um povo indígena sul-americano, diz-nos Xavier Fernandes (Topónimos e Gentílicos, vol. 1. Porto: Editora Educação Nacional, 1941, p. 266. Na capa, a divisa latina adoptada pela Academia das Ciências de Lisboa, Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria, que é um verso de uma das fábulas de Fedro).

 

[Texto 10 016]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «fitar»

Esta é nova

 

      «“É estranho o facto de a caixa ter caído”, declarou o comandante Fernando Pereira Fonseca [porta-voz da Marinha]. “Este material foi transportado em contentores por via marítima; já na base naval de Lisboa, foi descarregado, os contentores estavam selados e vêm paletes que foram colocadas nesse transporte. São paletes que estão fitadas, precisamente para evitar qualquer deslocamento das caixas”, adiantou à TSF» («Marinha admite que perda de material foi “estranha”, mas nega relação com Tancos», Rita Carvalho Pereira e Fernando Alves, TSF, 28.09.2018, 8h42).

      Desconhecia esta acepção de fitar, e parece que os lexicógrafos não se podem rir de mim. Alguém aqui a conhecia? 

 

[Texto 10 015]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Léxico: «generalista»

Não só

 

      «O palestrante [Pedro Mexia] recusou o ataque aos especialistas mas saiu em defesa dos generalistas, advertindo, no entanto, que não é “exemplo para ninguém”, pelo percurso profissional “incoerente” ou mesmo “bizarro”. Licenciado em Direito, “tive a sorte de ter alguns convites, nomeadamente da Cinemateca e, agora, da Presidência da República”» («Conhecimento inútil pode ser da maior utilidade, defende Pedro Mexia», Liliana Costa, TSF, 27.09.2018, 19h10).

      Generalista. Adjectivo de 2 géneros, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Sim, mas também é substantivo, logo, faltam aqui acepções usadas no dia-a-dia.

 

[Texto 10 014] 

Helder Guégués às 08:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «cunhete»

Armadas ou desastradas?

 

      «A Marinha está a investigar a queda de uma caixa com mil munições quando estava a ser transportada para a Escola de Fuzileiros, no Vale de Zebro, Barreiro, encontrada posteriormente por um automobilista que entregou à polícia. [...] “Um cunhete [caixa] de mil munições de 9 mm caiu da viatura de transporte. A equipa de transporte não se apercebeu da queda da caixa”, refere a Marinha em comunicado publicado na sua página da internet» («Viatura da Marinha deixa cair caixa de munições. Caso está a ser investigado», Rádio Renascença, 28.09.2018, 6h37).

      As nossas Forças Armadas estão com sérios problemas. Têm mãos de aranha, como diria o meu avô Manuel Maria. Ora bem, cunhete. Não está em todos os dicionários. Mais: é preciso dois para dar a definição mais correcta. É um «caixote de madeira ou de outro material para acondicionamento e transporte de munições e explosivos», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Caixa ou caixote de madeira com reforço interno de folha metálica para acondicionar e transportar munições de guerra», especifica ainda mais o Aulete. O artigo traz-nos ainda mais um termo, ou melhor, uma acepção de uso militar: «O caso ocorreu na quarta-feira durante o transporte das munições retraídas da última missão dos Fuzileiros na Lituânia, que chegaram a Portugal por via marítima e estavam a ser transportadas para a Escola de Fuzileiros, no Barreiro, distrito de Setúbal.» Descubram os leitores — têm de fazer qualquer coisinha, não é? — o que significa.

 

[Texto 10 013]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «microestrutura»

Falta uma

 

      «“Olhando para a microestrutura dos ossos fossilizados, conseguimos ver que o animal cresceu rapidamente até à idade adulta e que, na altura em que morreu, esse crescimento já tinha parado”, explica, por seu turno, a paleontóloga Jennifer Botha-Brink, do Museu Nacional da África do Sul, em Bloemfontein, e coautora da descoberta» («Novo dinossauro gigante descoberto na África do Sul», Filomena Naves, Diário de Notícias, 27.09.2018, 16h02).

      É claro que ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora falta uma das acepções de microestrutura.

 

[Texto 10 012]

Helder Guégués às 08:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Set 18

Ponto richelieu, bastido, granito...

Um dia será tarde

 

      «Não há que enganar: mal se entra na exposição Discovery and Rediscovery, encontra-se a dupla de bordadeiras da Madeira. Ana Maria e Ana Luísa estão num dos espaços da Fundação Giorgio Cini, no âmbito da enorme mostra do artesanato europeu que é a Homo Faber, a decorrer em Veneza, Itália, até domingo. E ali estão entre panos e linhas de algodão a bordar, como fizeram toda a vida. [...] Sorridente, Maria Ana segura um pano onde borda o ponto richelieu a linha azul. “Trouxe uma toalhinha pequena, que tinha os pontos todos, mas já acabei. E agora estou a fazer outra de richelieu. Dentro do richelieu tem vários pontos. Os bastidos, granitos e o ponto corda...” vai explicando. Têm sido assim, os seus dias venezianos. Ouvir gente curiosa, explicar que arte é aquela, como se faz» («Bordado da Madeira aplaudido no maior evento de artesãos da Europa», Marina Almeida, Diário de Notícias, 27.09.2018, 16h02).

      Será que os nossos dicionários vão deixar que todas estas palavras — todos estes conhecimentos — se percam irremediavelmente?

 

[Texto 10 011]

Helder Guégués às 08:36 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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